A contribuição espontânea para a espionagem

João Pedro Viegas

 

As redes sociais se popularizam a cada dia. Novos formatos e propostas surgem, ao mesmo tempo que gigantes, já consolidados, tentam inovar nas formas de obter mais usuários ativos nas plataformas. E o que esse crescente – e frequente – uso de redes sociais, que tem como objetivo principal a divulgação de informações pessoais gera? Uma contribuição espontânea para o trabalho de vigilância exercido, seja pelo governo, ou por instituições e pessoas mal intencionadas. A vigilância nas redes hoje tornou-se o melhor caminho de se obter informações acerca de uma pessoa. Até mesmo sem estar ativa em perfis de redes sociais, a internet, como um todo, tornou-se um mundo de oportunidades para obtenção de informações, devido à alta quantidade de rastros deixados quando você conecta seu computador à World Wide Web.

Entretanto, o que parecia ser caso de preocupação nos anos onde a espionagem teve protagonismo nos setores militares, como na época da Guerra Fria, hoje a coleta de dados não causa tanto alarde. Principalmente porque ela é feita praticamente o tempo todo, e mais – com o aval da pessoa que tem seus dados coletados. Como apresenta Zygmunt Bauman, “os usuários sentem-se felizes por ‘revelar detalhes íntimos de suas vidas pessoais’, ‘postar informações precisas’ e ‘compartilhar fotos’”. Quando as pessoas fornecem os dados, contribuem, sim, para uma espécie de espionagem. Não estou dizendo que é aquela espionagem de Guerra Fria, de extrair informações ultra sigilosas de potências mundiais, mas sim da espionagem que filtra e direciona ao usuário determinados anúncios e recomendações.

 

Mark Zuckerberg aparece com câmera e microfone de seu laptop tapados. [Foto/Reprodução]

E, justamente por trás dessas recomendações, está o interesse comercial. Quem nunca digitou uma pesquisa aleatória no Google,e instantes depois, produtos relacionados àquela pesquisa apareciam disponíveis para vendas no Facebook? Ou mais: quantas vezes você já ouviu de alguém que estava conversando com outra pessoa sobre um assunto, e produtos deste assunto apareceram em anúncios? A utilização facilitada das redes sociais, e o entendimento que a sociedade tem hoje a respeito do compartilhamento de informações fez com que os próprios usuários duvidassem da segurança de seus dispositivos. Afinal, numa era de Black Mirror, não é incomum vermos cada vez mais webcams tapadas. Até o criador do Facebook, Mark Zuckerberg, aderiu à prática. O mesmo Facebook, que em 2011 apresentou o curta “Take This Lollipop”, que mostrava um hacker acessando o seu perfil, visualizando suas fotos (mesmo que travadas) e se dirigindo ao seu local – tudo isso apenas com o que você, espontâneamente, colocou na rede.

 

Cena de Take This Lollipop, curta-metragem divulgado pelo facebook em 2011. [Foto/Reprodução]

Essa insegurança é relativa – e até mesmo, irônica: as pessoas temem que hackers acessem sua imagem pela webcam, mas à todo momento fazem check-in nos lugares onde estão, e compartilham momentos pessoais em stories no Instagram. Como falamos em Black Mirror, o quão assustador seria se uma série de casos de incidentes acontecessem motivados pela ação de hackers que obtiveram acesso aos seus perfis ? Enxergamos o Black Mirror como uma produção futurista, pessimista à respeito da tecnologia. Mas, ao meu ver, a série está muito mais próxima da realidade. Tanto é que muita gente anda tampando suas webcams por aí….

 

Texto produzido como atividade de avaliação individual dos seminários.

6 comments

  • Bruno Campoi

    Muito relevante o questionamento levantado. Uma questão que me chama a atenção é a hipocrisia das empresas que gerenciam esses nossos dados online: Pouco se sabe sobre a sua real estrutura de funcionamento; não conhecemos os algoritmos com os quais interagimos; o valor dos nossos dados quando são vendidos para os propagandistas e muitas outras coisas, ao passo que somos incentivados a expor até os nossos próprios pensamentos (“o que você está pensando?”).
    além disso, acho que se o problema da privacidade nas redes sociais não é fruto só das empresas que retém essas informações, como também dos usuários que as compartilham espontaneamente, então a raiz desse problema é muito mais profunda que uma simples falta de senso ou desconhecimento das consequências dessa superexposição. O que parece acontecer é um entrelaçamento cada vez maior entre a esfera pública e a esfera privada.
    As culturas não são estáticas, entretanto uma cultura global que em que cada vez mais a exposição pública de si mesmo se faz presente e até incentivada deixa muito clara a influência homogeneizadora e hegemônica exercida por aquelas mesmas nações que coincidentemente (ou nem tanto assim) também são as possuidoras das maiores redes sociais online, dos sites de pesquisa, dos bancos de imagens, dos maiores programes de inteligência artificial….

  • Bruno Campoi

    Muito relevante o questionamento levantado. Uma questão que me chama a atenção é a hipocrisia das empresas que gerenciam esses nossos dados online: Pouco se sabe sobre a sua real estrutura de funcionamento; não conhecemos os algoritmos com os quais interagimos; o valor dos nossos dados quando são vendidos para os propagandistas e muitas outras coisas, ao passo que somos incentivados a expor até os nossos próprios pensamentos (“o que você está pensando?”).
    além disso, acho que se o problema da privacidade nas redes sociais não é fruto só das empresas que retém essas informações, como também dos usuários que as compartilham espontaneamente, então a raiz desse problema é muito mais profunda que uma simples falta de senso ou desconhecimento das consequências dessa superexposição. O que parece acontecer é um entrelaçamento cada vez maior entre a esfera pública e a esfera privada.
    As culturas não são estáticas, entretanto uma cultura global que em que cada vez mais a exposição pública de si mesmo se faz presente e até incentivada deixa muito clara a influência homogeneizadora e hegemônica exercida por aquelas mesmas nações que coincidentemente (ou nem tanto assim) também são as possuidoras das maiores redes sociais online, dos sites de pesquisa, dos bancos de imagens, dos maiores programes de inteligência artificial….

  • Bruno Campoi

    Muito relevante o questionamento levantado. Uma questão que me chama a atenção é a hipocrisia das empresas que gerenciam esses nossos dados online: Pouco se sabe sobre a sua real estrutura de funcionamento; não conhecemos os algoritmos com os quais interagimos; o valor dos nossos dados quando são vendidos para os propagandistas e muitas outras coisas, ao passo que somos incentivados a expor até os nossos próprios pensamentos (“o que você está pensando?”).
    além do mais, acho que se o problema da privacidade nas redes sociais não é fruto só das empresas que retém essas informações, como também dos usuários que as compartilham espontaneamente, então a raiz desse problema é muito mais profunda que uma simples falta de senso ou desconhecimento das consequências dessa superexposição. O que parece acontecer é um entrelaçamento cada vez maior entre a esfera pública e a esfera privada.
    As culturas não são estáticas, entretanto uma cultura global que em que cada vez mais a exposição pública de si mesmo se faz presente e até incentivada deixa muito clara a influência homogeneizadora e hegemônica exercida por aquelas mesmas nações que coincidentemente (ou nem tanto assim) também são as possuidoras das maiores redes sociais online, dos sites de pesquisa, dos bancos de imagens, dos maiores programes de inteligência artificial….

  • Bruno Campoi

    Muito relevante o questionamento levantado. Uma questão que me chama a atenção é a hipocrisia das empresas que gerenciam esses nossos dados online: Pouco se sabe sobre a sua real estrutura de funcionamento; não conhecemos os algoritmos com os quais interagimos; o valor dos nossos dados quando são vendidos para os propagandistas e muitas outras coisas, ao passo que somos incentivados a expor até os nossos próprios pensamentos (“o que você está pensando?”).

    Se o problema da privacidade nas redes sociais não é fruto só das empresas que retém essas informações, como também dos usuários que as compartilham espontaneamente, então a raiz desse problema é muito mais profunda que uma simples falta de senso ou desconhecimento das consequências dessa superexposição. O que parece acontecer é um entrelaçamento cada vez maior entre a esfera pública e a esfera privada.

    As culturas não são estáticas, entretanto uma cultura global que em que cada vez mais a exposição pública de si mesmo se faz presente e até incentivada deixa muito clara a influência homogeneizadora e hegemônica exercida por aquelas mesmas nações que coincidentemente (ou nem tanto assim) também são as possuidoras das maiores redes sociais online, dos sites de pesquisa, dos bancos de imagens, dos maiores programes de inteligência artificial….

  • Marcus Vinicius

    Penso que estamos vivendo a era da superexposição. É cada vez mais difícil viver de forma completamente anônima em uma sociedade que nos cerca por todos os lados com modernos recursos de vigilância. O hábito de tapar a Web Can para evitar exposição como é apontado no texto acima é uma medida paliativa para um problema que certamente é bem maior. A meu ver de nada adianta tapar a câmera do computador se você, seja por meio de postagens de fotos ou de textos, deixa rastros bem mais expressivos nas redes sociais. Não vejo a possibilidade de volta aos tempos do anonimato, por tanto é preciso aprender a lidar com a situação e criar hábitos que nos permitam conviver com essa nova realidade da melhor forma possível. Vale lembrar ainda que essa preocupação com a superexposição (principalmente nas redes sociais como Instagram e Face Book) não é motivo de preocupação para todos. Perdoem-me o trocadilho, mas muitas pessoas até “curtem” toda essa visibilidade que tais ferramentas proporcionam a seus usuários. Essa era da vigilância ultrapassa as redes sociais, prova disso é o verdadeiro “Big Brother” em que vivemos atualmente. É praticamente impossível circular pelas cidades hoje sem ter sua imagem capturada por algum sistema de segurança como câmeras de vigilância, por exemplo. A superexposição começa a se tornar preocupante quando temos casos, por exemplo, de estupros e suicídios sendo transmitidos ao vivo nas redes sociais.

  • Bárbara Cassiano

    Gostei muito da sua colocação no último parágrafo – e foi justamente a motivação do meu comentário. As pessoas desejam obter os melhores recursos com GPS, postar as melhores fotos nos melhores restaurantes, fazer chekin a todo momento mas criticam quando essas informações são doadas para lojas criarem seus anúncios. Essas pessoas não percebem que os serviços tecnológicos só possuem gratuidade por conta da troca. Quanto ao temor aos hackers: acredito que esse tipo de cultura na web pode atrair perigos para muito além, como assalto e sequestro – outra relação que as pessoas nunca fazem quando compartilham em qual lugar elas se encontram. Discutindo essas questões com outras pessoas várias vezes ouvi o seguinte argumento, ‘mas nós podemos definir quem visualiza nossas publicações’. Concordo, mas a reflexão maior deve ser em que domina as informações logo quando você clica em postar.
    Um fator que agrava essa preocupação em relação a disseminação dos dados é que por ser uma cultura muito nova ainda existe pouca legislação regulamentadora e pouco conhecimento técnico a respeito das novas formas de comunicação. E a falta de conhecimento é a qual ainda gera tamanha insegurança em relação a possível espionagem que nos ronda 100% do tempo.
    Mesmo enxergando esses fatores eu ainda não acredito que a tecnologia seja algo negativo para a humanidade, tendo em vista que a educação tecnológica é o meio mais eficaz para ensinarem para as pessoas o que pode ser feito com as suas, mas também ressalto que é necessária uma legislação mais cuidadosa e que há sim perigos na disseminação eminente de conteúdo.

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