A cultura do remix e algumas aproximações com o vaporwave

Em sua dissertação de mestrado “Control + c : autoria na rede”, mais especificamente no terceiro item, denominado “cultura remix”, Maria Teresa Tavares Costa concentra diversos conceitos e questões tratados por inúmeros autores a respeito das características das criações artísticas que se dão a partir do surgimento do computador e da lógica em rede , além de abordar também o contato dos novos produtores e consumidores com essa cultura. À época da defesa de sua dissertação, Maria Teresa Tavares Costa é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Dois dos principais conceitos inerentes a essa nova forma de organização artística apresentados pela autora são o de “alegoria” e o de “aura digital”, que são construídos a partir do universo da música, mas que podem ser aplicados à cultura em geral. Segundo ela a alegoria, um conceito de Craig Owens, se trata da referência que um texto (no sentido mais amplo de texto) faz a outro para poder ser compreendido, “por mais fragmentada e caótica que possa ser a relação entre os dois” (COSTA, 2007, p.70). Já o conceito de aura, inicialmente proposto por Walter Benjamin, diz respeito a toda a tradição e testemunho histórico de uma obra de arte e está muito ligado ao seu aspecto material e toda a significação que emana dessa parte física, logo a reprodução dessa obra representaria, segundo ele, uma quebra dessa aura.

Entretanto, para que o conceito de aura se adeque à nova realidade de reprodução em massa instantânea e sem perda de qualidade, se faz necessário o uso de uma atualização desse conceito: a “aura digital”. Ela é apresentada por COSTA (2007, p73), mas originária de Michael Betancourt, e significa uma mudança do status da aura, que agora estaria associada ao significado da obra, e não mais à sua representação física, já que todas as cópias digitais são perfeitas.

Diante de tudo isso, se torna interessante voltarmos nosso olhar para uma manifestação táctil dessa cultura que nos permita olhar de maneira prática para esses conceitos. Uma dessas deixas, específica do campo da música, é o surgimento de um novo gênero musical que funciona dentro da cultura do remix: o vaporwave. Esse gênero foi criado no ano de 2010 em comunidades online, sendo composto por meio de samplings e colagens de músicas dos anos 80 e 90 e por uma estética voltada para nostalgia, mas de maneira irônica, fazendo uma crítica subjetiva às condições da música e da arte em geral dentro do contexto consumista do capitalismo e do esgotamento das possibilidades do autoral (STARY, 2015).

O remix é a principal característica desse tipo de música, sendo evidente para aqueles que ouvem o estilo que, previamente a essa composição, existiu alguma outra que serviu como sua base. Um questionamento importante que pode surgir disso é o que diz respeito à necessidade do remix de ser reconhecido como tal, conforme apontado no texto (COSTA, 2007, p.72), já que nem todos possuem o conhecimento acerca das músicas dos anos 80 e 90 que os possibilitariam desfrutar composições de vaporwave como remixes. Entretanto, como é explicado pela autora ao analisar os trabalhos de remix da artista visual Hanna Höch (COSTA, 2007, p.82), mesmo não sendo claras as origens, o resultado do trabalho depende do reconhecimento alegórico de aspectos dessas composições na cultura geral. Logo, um dos caminhos do reconhecimento do vaporwave pode ser, por exemplo, a identificação de elementos das músicas dos anos 80 e 90, já consolidados na cultura geral, sendo difundidos numa época posterior ao que se esperaria e interagindo com as ferramentas que caracterizam os remixes musicais mais recentes (parte técnica).

Por ser composto por samplings, o vaporwave também pode levantar a questão da possibilidade de esta ser uma característica limitante, já que nesse caso a arte é baseada em partes previamente prontas. Entretanto, muito pelo contrário, as novas possibilidades geradas pelas ferramentas das mídias digitais e o processo ilimitado da remixabilidade baseada na modularidade, inclusive de textos que já passaram por algum remix, expandem as formas de significação e ressignificação. Assim, o sentido subversivo e irônico do vaporwave pode se revelar, já que não depende totalmente do sample com o qual foi composto.

Ao subverter as noções de propriedade intelectual e lógica comercial, o vaporwave não se encaixa no conceito tradicional de “aura” e demonstra como o de “aura digital” expressa melhor o seu comportamento. Distribuído por fóruns e redes sociais de maneira instantânea e sem perda da qualidade, as músicas desse gênero nunca poderiam fazer menção a uma fonte de origem. É uma arte que deixa o domínio do ritual para se fundar no da política (COSTA, 2007, p.72). Seu significado é o seu aspecto mais importante.

 

 

A título de curiosidade para aqueles que não conhecem o vaporwave, logo abaixo estão os vídeos da música “It´s your move” da artista Diana Ross, lançada em 1984 e logo em seguida sua forma vapoprwave na música “リサフランク420 / 現代のコンピュー” da artista Ramona Andra Xavier sob o pseudonimo de “MACINTOSH PLUS”, lançado em 2011.

 


Referências bibliográficas

COSTA, Maria Teresa Tavares. Control+c: autoria na rede. 2007. 124 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2007.

STARY, C. vaporwave: tudo o que é sólido se desmancha no ar, 2015. Disponível em: http://www.revistacapitolina.com.br/vaporwave-tudo-o-que-e-solido-se-desmancha-no-ar/. Acesso em <06/11/17>

1 comment

  • Helvio Caldeira

    Ótimo texto. Confesso que fui descobrir o Vaporwave apenas no ano passado e, desde então, possuo muita curiosidade sobre tal estética que ora se assemelha bastante aos memes que utilizamos nas redes sociais, ora se mostra um movimento artístico tão complexo quanto os estudos em sala de aula (há um tempo, em uma das descrições encontradas pela web, encontrei um autor que dizia ser o vaporwave uma espécie de dadaísmo atual. Embora não concorde tanto com tal comentário, o acho, no mínimo, pertinente).

    Um aspecto que você não enfocou no texto e no qual eu centro minha curiosidade é a parte mais visual do Vaporwave. Mais do que o remix musical, gosto de analisar o quanto dessa autocrítica e ironia típicas do fenômeno recaem sobre sua imagem. Desconstruída e alucinógena – o que, de certa forma, pode até incomodar –, ela é constituída por elementos desconexos à primeira vista que a tornam algo meio kitsch, surrealista. Aqui, há a colagem de figuras do passado, futurísticas e praianas. Sim, é impressionante como há sempre um golfinho ou um coqueiro dentre os componentes das imagens. A estes, soma-se uma sequência de símbolos japoneses, que tornam tudo mais louco do que parece. Por fim, as cores utilizadas também é algo que chama muito a minha atenção, já que é sempre um degradê entre o rosa e o azul. O uso dos tons considerados “as cores do ano de 2016” em meio a elementos antigos é tão curioso quanto a mistura sonora entre elementos modernos e samples antigos que tornam o vaporwave tão único quanto é.

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