A curadoria de festivais – um olhar publicitário

Neste último post da série sobre a “Publicidade na Curadoria de Festivais Culturais”, dedicamos primeiramente um espaço a contribuições com enfoques distintos sobre o processo de organização de eventos. Abordaremos, em seguida algumas das questões específicas do fazer publicitário na produção artística, fruto de um bate papo muito rico com o professor aqui da comunicação da UFMG,  Juarez Guimarães. E por fim, trazemos nossos apontamentos finais e nossa avaliação do percurso desde que decidimos enveredar pela produção e curadoria de atividades culturais ao longo deste semestre.

 

Produção Cultural independente

Com o intuito de procurar novos pontos de vista em um diferente nicho da produção cultural, nos reunimos com um produtor independente que realiza festas de música eletrônica e reggae dub. Com 22 anos, Guilherme Draguer já organizou quatro festas como produtor principal e esteve envolvido em algumas outras. Conversamos com ele para descobrir um pouco dos desafios que ele enfrenta na cena de Belo Horizonte, como funcionam os bastidores de uma produção com esse perfil e os processos envolvidos nela.

 

Guilherme acredita que a melhor forma de produzir um evento é separando  as atribuições dos membro da equipe por setores: parte de legalização do evento(alvará), da divulgação e das mídias, da venda, do operacional, do financeiro, mas frisando sempre a importância de todos estarem sempre alinhados e se comunicando.

Ao longo da conversa, pudemos perceber que os maiores desafios são: se inserir numa cena competitiva, inovar e ser aceito pelas pessoas, lidar com o poder político e econômico, além de toda a burocracia, que é inerente ao poder público. O alvará para a legalização da festa  é algo que só é conseguido, segundo ele, principalmente por meio de indicações, então novos produtores sem contatos normalmente não conseguem autorização, principalmente se for evento de música eletrônica, especificamente festas do tipo rave. Em Belo Horizonte, Guilherme nos conta que é praticamente impossível conseguir alvará para esse tipo de evento. Aparentemente, pelo que nos relatou o produtor, tem que ter muito dinheiro ou alguma influência envolvida.

 

A concorrência na grande BH, pelo que nos informa Guilherme, é muito grande. Uma vez que existe uma diversidade muito grande de eventos e, também, porque o público de BH tem dificuldade em experimentar e aceitar atrações inovadoras, na sua opinião.

 

Por fim, Guilherme nos relatou que há muita “ingratidão” por parte do público de BH, que nem sempre valoriza o trabalho de quem produziu uma festa e não quer pagar o preço estipulado, nem sair de sua zona de conforto de ir nas festas tradicionais.

 

Avaliamos que a conversa com um produtor independente, que trabalha com festas particulares e voltadas não para a cultura no sentido de educação, mas no sentido de entretenimento, abriu nossos horizontes para um lado diferente da produção cultural.

 

Publicidade e cultura

Por outro lado, conversamos também com o professor Juarez Guimarães, que dentre outras atividades, está na coordenação da curadoria do Festival de Verão. Desta forma, tivemos outras oportunidades de conversar com o professor sobre este tema. Assim, nesta conversa pedimos que ele comentasse um pouco sobre algumas competências que os publicitários precisam desenvolver para trabalhar com produções culturais. Apresentamos esse relato no vídeo abaixo:

 

 

Pela fala do professor, descobrimos uma falha na preparação/formação dos profissionais de publicidade para trabalhar com eventos culturais, ele levanta uma questão importante ao concluir que uma bagagem cultural maior é necessária não apenas para trabalhar diretamente com eventos culturais, mas para a prática publicitária de modo geral.

 

Considerações finais

A realização de um evento cultural, seja uma festa, uma mostra de cinema, uma exposição ou um festival com múltiplas atrações e ligado à universidade, requer um grupo de pessoas envolvidas no projeto em graus variados. De apoios eventuais à discussão temática do evento, passando pelas indicações de profissionais do ramo (rede de contatos) até a solicitação de alvará e demais licenças às autoridades, incluindo planejamento, muito planejamento operacional e financeiro, estas são algumas das atividades que os profissionais envolvidas na produção deverão dar conta e para isso será necessário, que a equipe seja formada por colaboradores com formações e áreas de atuação variadas.

Também é importante destacar, sobretudo no caso da Universidade, o cenário de queda em investimentos, com os cortes recentes no orçamento da Educação Superior. Esta dificuldade financeira de modo evidente, afeta diretamente a produção cultural, colocando um desafio para a equipe envolvida, como garantir a realização dessas atividades com recursos cada vez mais escassos.

Além disso, a dificuldade para produtores independentes, que dificilmente conseguem apoio financeiro, ameaça a ampliação de uma cena cultural, que poderia ser mais efervescente.

Vale ressaltar, que achamos muito pertinentes e esclarecedoras as colocações do professor Juarez, em que pese sua bagagem tanto como artista, quanto como publicitário. Entendemos, a partir de nossos encontros com estes profissionais, que para a atuação no campo de curadoria, o publicitário deve possuir um repertório cultural vasto e diferenciado e saber divulgar um festival/evento de forma a promovê-lo e/ou vendê-lo como produto ou serviço a ser consumido.

Devemos também registrar que pelos relatos, que há uma preocupação com a recepção do público, mesmo quando o objetivo não é encher a sala do Cine Humberto Mauro, por exemplo. A recepção esperada pode ser sim por esgotar a bilheteria de uma festa, como de garantir repercussão positiva e manter a tradição de bons festivais, ou mesmo atrair um público que fluirá as obras pelo entretenimento ou pela reflexão desejada pelo curador.

Por fim destacamos que de modo geral, aprendemos muito com todos estes profissionais, considerando o tempo disponível, que a curadoria envolve competências artísticas, criativas, logísticas e mesmo burocráticas. O curador acionar processos cognitivos para criar sentido, da mesma forma que o publicitário o faz para produtos e serviços que ajuda a divulgar ao público.

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