A gente tá vivendo em uma distopia cyberpunk

As aproximações entre a ficção científica e os fenômenos midiáticos e comunicacionais podem ser produtivas e reveladoras

O termo Cyberpunk costuma, eventualmente, causar certa confusão, por nomear dois fenômenos diferentes. No artigo “Ficção Científica Cyberpunk: o Imaginário da Cibercultura (2004)”, o autor André Lemos define: “O termo cyberpunk aparece para designar um movimento literário no gênero da ficção científica, nos Estados Unidos, unindo altas tecnologias e caos urbano, sendo considerado como uma narrativa tipicamente pós-moderna. O termo passou a ser usado, também, para designar os ciberrebeldes, o underground da informática, com os hackers, crackers, phreakers, cypherpunks, otakus, zippies. Esses seriam os cyberpunks reais. Assim, o termo cyberpunk é, ao mesmo tempo, emblema de uma corrente da ficção científica e marca dos personagens do submundo da informática.”

A presença e a aproximação de múltiplos conceitos em um mesmo termo nem sempre é coincidência da língua: neste caso, ela tem muito a revelar.

O croata Darko Suvin, um dos mais importantes críticos da ficção científica, propôs o termo “estranhamento cognitivo” (cognitive strangement) para explicar a resposta mental da sci-fi. De acordo com Bráulio Tavares, escritor brasileiro de literatura fantástica, em seu artigo “A resposta mental da FC”, o que Darko Suvin quer dizer é que “a ficção científica nos possibilita ter uma visão “de fora” das coisas, distanciada, livre das idéias preconcebidas, como se estivéssemos vendo aquilo pela primeira vez.”

Essa estratégia narrativa é muito valiosa num contexto de intensas mudanças, como o cenário que o mundo hoje vive. De acordo com Harry Jenkins, que discorre sobre a transformação midiática e dos fenômenos comunicacionais em sua obra “Cultura da Convergência” (2006), estamos entrando em uma era de longa transição em relação às práticas comunicacionais. Isso significa que viver no momento atual é viver “no olho do furacão”: se torna difícil avaliar os fenômenos, denotar os efeitos das novas técnicas – tão recentes, mas já tão dissolvidas em nosso cotidiano. Os celulares, especialmente para os estudantes de Comunicação, são extensões físicas brilhantes e cromadas, praticamente acopladas em nossos corpos. Digitando em uma tela menor, nossos dedos operam de maneira diferente e específica – é o design impactando e afetando nosso cotidiano e nossa visão de mundo.

Nesse contexto em que são encontradas dificuldades em avaliar as práticas comunicacionais – até mesmo a partir de uma perspectiva política, quando nos indignamos com os áudios gravados pelo Google sem que saibamos, mesmo sabendo que aceitamos os Termos de Uso sem ler -, precisamos da ajuda dos artistas, que trazem muitas vezes para seus produtos uma sensibilidade coletiva.

A cidade conectada de Blade Runner (1982) parece mesmo tão distante da descrição de uma Cibercidade de André Lemos? Certamente ela é bem mais poluída e triste, pois distopias são inerentemente projeções pessimistas, resultados de promessas brilhantes e cromadas da tecnologia, que naquele mundo, não se realizaram. Porém, basta fundir a descrição conceitual de uma Cibercidade com o Tietê de São Paulo e o ar tóxico da China e voilá: Blade Runner. A literatura e o cinema, especialmente de ficção científica, têm fama de “prever” comportamentos e acontecimentos.

Uma versão futurista de São Paulo, pelo desenvolvedor de games Thiago Klafke

É importante lembrar, especialmente em um contexto de produção de sentidos integrada, como o atual, que as ideias desses artistas não vêm do nada. Essa profetização não é tão sobrenatural quanto parece: como conta Bráulio Tavares no artigo “Histórias proféticas”, Júlio Verne, que teria adivinhado a invenção do submarino e do cinema, e Isaac Asimov, que teria profetizado a invenção de automóveis que se guiam sozinhos, “acompanhavam de perto a pesquisa científica e tecnológica dos seus respectivos tempos(…). Coincidências são na verdade convergências de elementos que se repetem.”

1 comment

  • Arthur Riale

    Utopia, distopia e pia. Tão aí três palavras que rimam só por uma coincidência da língua. Mas elas tem uma coisa em comum: São três coisas que surgiram de uma idéia. Tem um cara que se chama Koert Van Mensvoort que propõe uma pirâmide para falar sobre como as tecnologias se desenvolvem. Pra ele, a base dessa pirâmide é a “visão”, ou seja, antes de toda tecnologia surgir, tem que ter alguém que imagine ela. Isso parece obvio, mas se a gente olhar pra pia, ela antes de surgir, existiu só na idéia. As utopias e distopias prevêem tecnologias assim como alguém um dia previu a pia. E quando alguém falou sobre uma bacia com uma fonte de água encima, que seria bom pra lavar a mão, podem até ter rido dele na época, até que a pia surgiu e hoje é comum. Pronto, o que era idéia, virou tecnologia.
    Gostei também da sua comparação entre Blade Runner e São Paulo. As metropoles não chegaram no cinza que são hoje sem que ninguém percebesse. As pessoas percebem as tendências. Alguns tem a técnica para registrá-las e avisar pras pessoas que não perceberam para onde o mundo tomba. Esses são os artistas.

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