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A Via Crúcis do 50

Quem mora na região Nordeste de Belo Horizonte, nas proximidades das Avenidas José Cândido, Cristiano Machado e Bernardo Vasconcelos, e depende do transporte público para chegar à região da Pampulha conhece bem a Via Crúcis da linha S50.

Os coletivos da linha fazem parte de um serviço criado em 14 de setembro de 2001: o Sistema de Transporte Suplementar de Belo Horizonte, que passou a operar no dia 15 de setembro do mesmo ano. Segundo a BHTrans – empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte – um dos objetivos do projeto era a eliminação do transporte clandestino na cidade, feito com o uso de vans e outros veículos similares de propriedade particular conduzidos pelos chamados “perueiros”.

Atualmente, o sistema conta com 283 veículos, divididos em 25 linhas. O presidente do Sindicato dos Permissionários Autônomos do Transporte Suplementar de Passageiros de Belo Horizonte (Sindpautras), Maurício dos Reis, avalia a regulamentação da atividade dos “perueiros” por meio do transporte suplementar como uma vitória para a categoria. Porém, reafirma a necessidade de ampliação das linhas e do número de veículos para elevar a qualidade de prestação de serviço e atender a demanda crescente de passageiros.

Os micro-ônibus amarelos passaram a ser essenciais para grande parte da população da capital mineira. A linha 50, em especial, é aguardada com ansiedade por muitos alunos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que representam a maioria dos passageiros atendidos pela linha. No 50, um lugar para sentar chega a ser mais concorrido que o próprio vestibular.

Entre 6h e 9h da manhã, o “cinquentinha”, íntimo dos alunos, passa em intervalos de aproximadamente 25 minutos. O adesivo que informa a lotação máxima no interior do ônibus – 22 passageiros sentados e 12 em pé – é apenas um ornamento. A rotina do micro-ônibus é comportar cerca de 35 passageiros em pé todas as manhãs. A aluna de Gestão Pública, Lilian Ferreira, recorda as inúmeras vezes em que não conseguiu embarcar no suplementar, que para frequentemente no ponto com pessoas agarradas à porta: “Já passei por esse constrangimento várias vezes, de não conseguir entrar e ter que esperar outro ônibus, isso aí acontece sempre. Dependendo do ponto onde você está, você não entra mesmo.” Questionado sobre a superlotação, um condutor que preferiu não se identificar, tentou explicar o seu lado: “Eu não posso deixar ninguém para trás, tenho que tentar levar todo mundo, mas é muita gente, chega uma hora que não cabe mesmo”. Durante o trajeto da linha, o motorista interrompe a conversa algumas vezes para reclamar de imprudências no trânsito e para pedir aos passageiros: “Dá um passinho pra trás, gente!” é o pedido que o motorista ou cobrador grita lá da frente para os usuários que já passaram pela catraca. A intenção é abrir espaço para os que estão do lado de fora do ônibus, cansados de esperar pelo transporte.

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Quem utiliza o 50 partindo do bairro Nova Cintra tem como opção a linha regular 9550, cujo itinerário é semelhante, ainda que não atenda integralmente ao campus. Para garantir que o maior número de pessoas embarcará no suplementar, os motoristas tem o costume de sair antes do “concorrente” 9550. Dessa forma, encontram os pontos mais cheios. A frequência do atendimento aos passageiros fica reduzida, pois as duas linhas acabam passando praticamente no mesmo horário, o que oferece menos opções ao usuário. Lilian Ferreira sugere mudanças na linha para melhorar o atendimento precário: “O suplementar atrasa muito, devia ter maior quantidade de ônibus para atender os alunos, são poucos carros para muitos passageiros.”

O excesso de usuários força, literalmente, uma relação de proximidade dentro do 50. Não há espaço suficiente para cada passageiro manter sua privacidade. Para as mulheres é ainda mais constrangedor, em alguns momentos fica difícil saber onde o aperto deixa de ser consequência da superlotação e passa a ser abuso. Mas a situação infeliz também inspira boas atitudes, é prática comum à solidariedade com o colega de mochila ou bolsa. No “cinquentinha” sempre tem alguém sentado se oferecendo para aliviar o peso de quem viaja em pé. Vale ressaltar que ter as mãos livres é de suma importância para quem está sem assento. Por ser um veículo de porte médio, o suplementar é capaz de alcançar altas velocidades, forçando o passageiro a se agarrar às barras de segurança. Em curvas acentuadas, a situação é ainda mais dramática. A força que o corpo exige dos braços para se manter em pé chega a causar dor muscular nos passageiros. Muitos dos usuários já se viram obrigados a se agarrar a um estranho ao lado para manter o equilíbrio.

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E a BHTrans?

De acordo com a assessoria da BHTrans – empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte – o sistema de transporte suplementar foi criado em 14 de setembro de 2001 e passou a operar no dia 15 de setembro do mesmo ano. Um dos objetivos do projeto era a eliminação do transporte clandestino (com os chamadaso “perueiros”) em Belo Horizonte. Durante o processo licitatório foram classificados 300 concorrentes, de um total de 1.264 inscritos. Atualmente, o sistema conta com 283 veículos, circulando em 25 linhas.

Para o presidente do Sindicato dos Permissionários Autônomos do Transporte Suplementar de Passageiros de Belo Horizonte (Sindpautras), Maurício dos Reis, em matéria publicada no site da Câmara Municipal de Belo Horizonte, a regulamentação da atividade dos “perueiros” por meio do transporte suplementar foi uma vitória para a categoria. Porém, ele reafirma a necessidade de ampliação das linhas e do número de veículos para elevar a qualidade de prestação de serviço e atender a demanda crescente de passageiros.

Ana Luisa Pinto, aluna de Publicidade e Propaganda na UFMG, é mais uma usuária insatisfeita com o transporte suplementar: “Eu já liguei várias vezes para o 156 (serviço BH Resolve da Prefeitura de Belo Horizonte) e eles não resolvem nada.” Quando questionada sobre as queixas dos passageiros, a BHTrans responde que no universo de mais de 35 milhões de passageiros transportados por ano, em 2012 o número de reclamações chegou a cerca de 3 mil, um índice pequeno, que não representa nem 1% do total. Talvez esse número fosse maior se não houvesse tanta burocracia para registrar as queixas pelo telefone.

Por essa mesmo número, 156, é possível obter informações sobre os serviços de tapa buraco, Secretaria de finanças, Procon, alistamento militar, regulação urbana, entre outros. Apesar das opções cobrirem diversos setores da administração urbana, talvez fosse mais eficiente ter uma linha de telefone dedicada exclusivamente aos assuntos relacionados à BHTrans. Para formalizar uma reclamação é preciso ainda ter em mãos o número ou a placa do veículo. No momento da indignação com o transporte urbano, coletar esses dados pode ser a última das preocupações do passageiro que já enfrentou diversas algúrias em seu trajeto nos suplementares.

Reportagem

Aline Carvalho, Amanda Almeida, Marlon Henrique, Victor

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