Alegria do Jequitinhonha

Felisburgo: de onde vem

A união de duas palavras do latim, (felix, que significa feliz e burgo, cidade) deu origem ao nome de uma pequena cidade do baixo Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Felisburgo, município cujo lema é “Cidade de gente feliz”, é localizado a 737 quilômetros de Belo Horizonte, e possui uma população de 7.356 habitantes, divididos entre a área urbana e rural, segundo dados do senso de 2010. Antes da fundação da cidade, que aconteceu em 1º de março de 1963, a região foi chamada de Comercinho do Rubim do José Ferreira, e passou a se chamar Felisburgo apenas em 1918, quando Baptista Brazil, primeiro vereador do distrito, encaminhou à câmara municipal de Jequitinhonha uma solicitação para mudança do nome do povoado para Felisburgo.


Gladiston Batista de Araújo é professor da rede municipal de Felisburgo e trabalha com cultura e teatro na cidade

 

“Felisburgo é a negação do triste, sem ser a explosão do alegre a todo pano; será o grato equilíbrio, o ponto de enlace das possibilidades amáveis de existir e coexistir” – Carlos Drummond de Andrade

 Leia aqui a crônica do autor sobre o Clube da Ilusão em Felisburgo.

O nome do município, que significa “feliz cidade”, possui duas opções de caligrafia, Felisburgo e Felizburgo, fato muito discutido na região. Há grupos que defendem a utilização do S e outro que defendem a utilização do Z no nome da cidade, que, apesar de ser oficialmente registrada como Felisburgo, ainda pode ser escrito das duas formas.

 

Quem nasce em Felizburgo é feliz?

Gladiston levanta um bom ponto: como pode haver a tal felicidade quando a sociedade nos confronta com cada vez mais adversidades, demandas e problemas? Felisburgo acabou não se tornando conhecida pela alegria de seu povo. Há mais de dez anos, a pequena e até então pacata cidade entrou para o mapa, visada pela mídia nacional e internacional. O Massacre – ou Chacina – de Felisburgo, como ficou conhecido o acontecimento que marcou o dia 20 de novembro de 2004, deslocou o sentido inicial do nome da cidade quando 17 pistoleiros invadiram e incendiaram um acampamento do MST. Cinco sem-terra foram mortos e vinte foram feridos no local, acampamento batizado de Terra Prometida.

A aparente contradição entre a cidade feliz e o fato pelo qual ficou famosa nos remete também às suas origens, quando era lar de índios botocudos e também serviu de abrigo para comunidades quilombolas. Felisburgo sempre foi um espaço de disputa – de terras e de liberdade. Assim como os sem-terra tinham em seu espaço a esperança pela Terra Prometida que ocuparam, também tiveram os escravos fugidos, os portugueses colonizadores e os indígenas que lá moraram.

Até as primeiras décadas de 1800, o território era ocupado pelos índios Borun, ou botocudos, como apelidados pelos portugueses. Em Portugal, botocudo é um tipo de rolha utilizada para tampar barris de cachaça, alusão dos colonizadores aos botoques auriculares e labiais usados pelos nativos. No início do século, as tensões entre indígenas e portugueses aumentaram no baixo Jequitinhonha e os boatos que corriam eram de que essas tribos comiam a carne dos colonizadores e lhes bebiam o sangue. Amparados por esta acusação, os portugueses dizimaram os nativos da região, caçados e mortos com o aval da Metrópole.

Algum tempo depois, entre os anos de 1862 a 1869, Manoel Antônio de Matos partiu do quilombo Mumbuca, na cidade de Jequitinhonha, para criar outro foco de resistência quilombola onde hoje se encontra Felisburgo. O Paraguai, como foi posteriormente chamado, originou-se com as famílias Matos, Marques e Vaz, escravos e escravas fugidas do Serro e de Diamantina.  Conta-se que seu nome vem de uma grande caçada a macacos feita nas matas arredores, já que os animais causavam prejuízos às suas plantações. Naquela ocasião, foram mortos aproximadamente 200 primatas.

_É a guerra! A Guerra do Paraguai! _gritou um dos caçadores.

Daquele dia em diante, se vencia mais uma batalha pelo território e o quilombo se tornou conhecido como Paraguai. Ele sobrevive até hoje.

Um dia felisburguense

Sem títuloClique em nosso mapa para localizar as alegrias de felisburgo

Se a felicidade é um estado de espírito pessoal, como sugere o professor Gladiston, Felisburgo propicia várias alegrias a seus moradores. Por ser uma cidade cuja população não chega a 7 mil habitantes, possui características e atrativos bem diferentes da capital. Durante a segunda visita à cidade para ministrar oficinas de web rádio pelo Polo de Integração da UFMG no Vale do Jequitinhonha, nossa atenção foi voltada para o seu povo, se eram pessoas realmente felizes e onde se encontrava esta alegria. Assim, buscamos encontrar, em um dia, felicidades da cidade.

O clima é ameno e as temperaturas frias da noite não impedem o sol de visitar a região pela manhã. Durante o dia, a cidade é movimentada, com pessoas caminhando pelas praças e ruas. As lojas são enfeitadas com cartazes e placas de boas vindas, indicando a boa recepção dos clientes e visitantes. Nossa visita foi registrada em uma manhã de sexta, no caminho da pousada até a padaria, em busca de um café. Nesta viagem, foram encontradas diversas alegrias de cidade pequena.

Equipe

Lívia Araújo e Vivian Andrade