As mãos que conservam as palavras

As dificuldades, paixões e desafios envolvidos no trabalho de livreiros de sebo

por Helvio Caldeira

Na região da Savassi, mais precisamente na Rua Alagoas, se encontra o Sebo Comunicação. À primeira vista, há certa dificuldade em percebê-lo, pequeno e discreto, sobre a Livraria Ouvidor. Algumas escadas e estou dentro do local: relativamente grande e abarrotado de livros dos mais variados tipos. A falta inicial de clientes serve como um símbolo diante da atual situação do mercado editorial brasileiro. Na última edição da pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, desenvolvida em Junho do ano passado, constatou-se uma queda de 12,63% no setor, assim como, segundo o NOP World Culture Score Index em um estudo sobre hábitos de leitura, o Brasil ocupa a antepenúltima posição, perdendo apenas para o Taiwan, Japão e Coreia. Dessa forma, a resistência do sebo em meio às várias lojas de tecnológicos do bairro é impressionante, para não dizer admirável.

Talvez a insistência de Marco Antônio, o dono, no comércio de livros se dê pela forte influência dentro de casa. “Olha, deve ter alguma coisa no meu DNA, algo de família mesmo. Porque meu avô, que foi imigrante da Alemanha, gostava muito de livro. Meu outro, que veio de Portugal, também era bibliotecário, assim como uma irmã minha que trabalhou na biblioteca da FAFICH por vinte e cinco anos. A outra é escritora, tem alguns livros publicados”. A alguns quilômetros dali, no Sebo Opção, um dos inúmeros que podem ser encontrados no Edifício Maletta, encontro Ivan, livreiro que também é a prova viva de que a influência familiar é fundamental para a decisão de vender livros. Segundo ele, o contato com as obras comercializadas pelo cunhado, que trabalhou por anos no Sebo Brandão, em São Paulo, foi um divisor de águas em sua vida profissional. “Além disso, eu ainda tenho seis irmãos que trabalham em livrarias, alguns deles aqui mesmo, no Maletta, e duas irmãs em São Paulo”, o livreiro enfatiza.

As similaridades entre os dois profissionais não param por aí. Embora criados em realidades diferentes, ambas as vidas foram marcadas por momentos difíceis. Enquanto Ivan, que nasceu e cresceu no Nordeste, experimentou os problemas sociais típicos da região, Marco Antônio chegou a ser preso em um local carioca próximo à Vila Militar na época da Ditadura, não deixando, porém, o encanto pelo mundo das letras. O senhor conta que chegou até mesmo a contrabandear exemplares dentro do presídio. Posteriormente, durante os dez anos de moradia na Suécia, frequentou compulsivamente as bibliotecas do país de forma que, ao voltar para as terras brasileiras em meados de 1992, se viu determinado a disseminar o hábito da leitura pelos belo-horizontinos: Entre feiras em instituições de ensino e projetos literários nas ruas, o homem deu prosseguimento aos trabalhos empresariais do irmão, na época dono da Editora Comunicação. Com as dificuldades do mercado, aos poucos, o que era uma editora veio a se tornar o que hoje é o Sebo Comunicação. “Aqui no Brasil é mais complicado, né. Essa falta de contato com a literatura é algo cultural do nosso país”, afirma o senhor, ao ser rememorado sobre a transformação que seu trabalho teve com o tempo. A fala de Ivan, por sua vez, parece quase uma complementação: “No nosso país, não é cultural ler muito. Só depois que você entra na faculdade que você consegue ler mais. Em escola pública mesmo o incentivo é muito pouco, principalmente no Nordeste”.

Atualmente, é possível encontrar livros novos e usados nos dois estabelecimentos, assim como um menu bastante variado: neles, os grandes clássicos dividem prateleiras com best-sellers e as obras técnicas são facilmente encontradas entre nichos de trabalhos literários. Toda a mistura acaba dando o tom que os lugares merecem, diferenciando-os das demais livrarias do tipo da região, já que muitas optam apenas pela venda de gêneros específicos. Diante de tanto material, Marco Antônio parece adivinhar meus pensamentos ao explicar que os mais procurados pelos clientes no Sebo Comunicação são os da área médica, principalmente de Psicologia, além dos livros de esoterismo e autoajuda. “Religião é outra coisa que vende demais”, Marco ressalta. Já Ivan destaca o sucesso dos livros mais comerciais no Sebo Opção. “Literatura de entretenimento, sobretudo os romances, é o que sai muito. Harry Potter e o Pequeno Príncipe vendem bastante. Como o Maletta fica ao lado de alguns cursinhos pré-vestibulares, nosso público é, em grande parte, os jovens”.

Em relação ao recebimento e a venda dos exemplares, seu Marco explica que troca, aluga, vende, doa livros para escolas da Savassi e os dispõe em certas ruas do bairro. “Aqui perto tem uma estátua de uma escritora, a Henriqueta Lisboa. Todo dia eu coloco um livro em sua mão para que alguém o pegue e leia”, ele enfatiza o aspecto humanitário do ofício. “Já aconteceu de gente pegar o livro que eu coloquei lá e vir aqui vender para mim. Eles não entendem que eu preciso sobreviver. Trabalhar com livro é difícil, minha aposentaria é baixa e a Internet está aí. Vários amigos já até migraram do físico para o ambiente virtual, porque não tem certos custos. Eu sinto o impacto da Internet na minha profissão”. Para Ivan, nos últimos anos, é preocupante o quanto o mercado literário reduziu drasticamente. “Livro no Brasil não é barato, e agora tem esse lance do livro digital. Brasileiro não vai deixar de se alimentar hoje para comprar um livro. Literatura é uma coisa que pode esperar”. Curiosamente, no exato momento em que suas últimas palavras são ditas, uma cliente, entre as prateleiras da livraria, reclama do preço de um famoso livro de autoajuda e declara que irá procurá-lo pela Internet.

Ao final de nossa conversa, os últimos dizeres de Marco Antônio soam como uma tentativa de buscar definição para toda a vida dedicada às letras, pontos e parágrafos. “Eu acho que quem trabalha em um sebo é o artista que conserva palavras. A gente recebe o livro e tem que limpar ele, consertar as páginas estragadas, mexer na lombada, raspar as áreas de corte. Como a rentabilidade do trabalho caiu muito, eu mesmo o faço, mas é muito prazeroso. Eu me identifico com isso, porque é uma maneira de transformar o ser humano. E é justamente por isso que eu me sinto tão bem trabalhando com os livros”. “Muita gente, depois de um tempo, vem aqui me agradecer porque o livro que eu vendi ajudou em uma prova, um concurso, uma atividade de faculdade. É um trabalho que tem uma influência grande na vida das pessoas. Temos que valorizá-lo”, finaliza Ivan, comprovando que, mesmo a ruas de distância de Marco Antônio, a visão de que a tarefa de conservar livros é de extrema importância independe do lugar.

Mapa dos sebos de Belo Horizonte

Planejamento e produção transmídia desenvolvidos por Helvio Caldeira, Stéphani Sales e Tayrine Vaz para a disciplina Processos de Criação em Mídias Digitais.

Planejamento do projeto transmídia (é necessário fazer login).

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