Belo Monte no Instagram e Youtube: representações e relações

Proposta

As redes sociais, cada qual com a sua especificidade, se configuram como espaços propícios para a atuação de indivíduos e coletivos que buscam pautar e ampliar discussões em torno dos mais diversos assuntos. Levando em conta os diferentes posicionamentos que envolvem a controvérsia da construção da Usina de Belo Monte, o objetivo da pesquisa é analisar a formação de grupos no Instagram e no Youtube e o modo como eles se relacionam nas redes, a partir dos diálogos e das apropriações do tema.

Apresentação

A Usina Hidrelétrica de Belo Monte, construída na bacia do Rio Xingu, no norte do Pará, foi inaugurada dia 5 de maio de 2016, com previsão de funcionamento pleno para 2019. O projeto teve suas pesquisas iniciadas na década de 1970, e desde então tem sido alvo de uma série de controvérsias relacionadas a causas ambientais, indígenas, populações ribeirinhas, moradores de Altamira (município mais afetado), trabalhadores e pagamento de propina.

Belo Monte é considerada a terceira maior hidrelétrica do mundo, contando com um canal de 20 km de comprimento que dá vazão a 14 milhões de litros por segundo de águas desviadas do Rio Xingu. Apesar da enorme capacidade de produção, a usina só poderá funcionar a toda força durante os meses de fevereiro a maio, período de cheia do Xingu. O leilão de concessão aconteceu em 2010, e a construção teve início em junho de 2011.

De acordo com reportagem especial da Folha de São Paulo, “para o Planalto, o governo do Pará e as prefeituras da região, o que conta é o fluxo bilionário de investimentos, a criação de milhares de empregos (ainda que temporários) e a sensação de progresso que galvaniza a região. Na propaganda eleitoral na TV, valem mais as imagens de um laboratório de reprodução de acaris-zebra, ou de uma Altamira livre dos urubus após a remediação do lixão, do que o futuro imponderável dos pedrais do Xingu.”

As obras geraram tantas discussões por conta dos impactos causados ao meio ambiente e às populações afetadas diretamente, como por exemplo:

  • Impacto ambiental: a limitação das cheias por conta do funcionamento das turbinas afetará a alimentação e a reprodução de várias espécies de peixes. Além disso, o desmatamento e a extração de madeira clandestina cresceram absurdamente com a construção de Belo Monte.
  • Populações indígenas: perda de campo para a produção de alimentos causando, consequentemente, desnutrição.
  • Moradores de Altamira: desapropriações, sobrecarga hospitalar e trânsito caótico por causa do enorme aumento da população.
  • Populações ribeirinhas e rurais: reassentamentos em locais distantes dos meios de trabalho.

Referencial teórico

De acordo com a perspectiva da Teoria Ator-Rede (TAR), “sendo o ‘social’ algo construído continuamente a partir das associações entre os atores humanos e não humanos, ganham evidência as situações em que os coletivos de agentes estão em plena ação, ou seja, estão mobilizados em torno de uma controvérsia.” (D’ANDRÉA, 2015, p. 5). Nessas situações, onde as relações são destabilizadas, há uma evidenciação das ações, associações e atores envolvidos (PEREIRA; BOECHAT, 2014), e é nas disputas provenientes da falta de consenso entre os atores e os coletivos, as controvérsias, que “a ‘caixa-preta’ das associações está aberta e ficam evidenciadas as posições em torno de um assunto e os movimentos dos agentes, possibilitando o acompanhamento claro do jogo de forças em curso.” (D’ANDRÉA, 2015, p. 6).

Para este trabalho, é importante o conceito de mediação – associações em rede que, por estar em constante transformação, “pode-se afirmar tão somente a sua existência, mas nunca sua estabilização.” (ARCE; ALZAMORA; SALGADO, 2014, p. 500). Segundo Carlos D’Andréa, “mediar, na TAR, significa não apenas agir para expandir e interferir nas redes sociotécnicas, mas também fazer outros agentes agirem, produzindo um efeito de rede e desencadeando novas agências que resultam, entre outros efeitos, no estabelecimento de controvérsias, na reorganização da ordem interna dos coletivos e na mobilização de outros mediadores que podem ajudar a compor novas redes de relações ou estabilizar as relações já existentes.” (2015, p. 64)

Análise

  • #belomonte: Rede de hashtags no Instagram

A coleta do marcador belomonte no Instagram foi realizada no dia 17 de maio de 2016 por meio da ferramenta Instagram Hashtag Explorer, que gera um arquivo que pode ser visualizado no Gephi e uma tabela com os dados de cada publicação extraída, como horário, legenda, ID, nome do usuário, dentre outros. Indiquei o total de 1.000 iterações, o máximo permitido, que orienta a ferramenta a extrair até 20.000 itens. Porém, foram extraídas apenas 1.539 publicações, no período de 05 de junho de 2011 a 17 de maio de 2016.

A nuvem de hashtags gerada no Tableau possibilita uma visão geral das hashtags associadas à #belomonte. Na figura 1 estão os termos presentes no mínimo 10 vezes no total de publicações extraídas, com o tamanho da fonte ajustado de acordo com a quantidade de vezes que foram utilizados.

Figura 1 – Nuvem de hashtags em torno do termo belomonte

A formação da rede de hashtags se dá pelo aparecimento de marcadores colocados juntos nas descrições das publicações. Sendo assim, quando a #belomonte é colocada na descrição de uma foto em conjunto com a #amazônia, por exemplo, essas duas hashtags (representados por nós) possuirão uma ligação (aresta) na visualização.

geral

Figura 2 – Rede de hashtags no Instagram em torno do termo belomonte

Na figura 2, o tamanho dos nós foi ajustado de acordo com o grau, ou seja, a quantidade de vezes em que aparece nas publicações, e a cor de acordo com a modularidade, que indica o quanto uma rede é composta por grupos internos. São 4.018 nós e 47.896 arestas, sendo que, de acordo com o laboratório de dados do Gephi, as hashtags que mais aparecem após belomonte, com 1620 contagens (presente em todas as publicações), é brasil, brazil e altamira, com 362, 293 e 244 contagens, respectivamente.

A cor aplicada à modularidade na figura 2 permite visualizar a formação de clusters, alguns bem delimitados e outros mais espalhados por todo o grafo. Para observar melhor o conteúdo de alguns desses clusters, apliquei filtros para visualizá-los separadamente e, além da distribuição ForceAtlas 2 já aplicada ao grafo da figura 2, também utilizei as distribuições Ajustar Rótulos, Contração e Expansão. O primeiro e maior deles é o lilás, mais denso ao centro do gráfico e é onde está a principal hashtag, a belomonte.

Por conta da intensidade do grupo, apliquei uma relação de previsão de 40% para que os termos ficassem mais legíveis. É um cluster de temática bastante diversa, que possui marcadores que vão desde a questão indígena (#indigenousrights, #povosindigenas, #direitos indígenas), a causa ambiental (#preservacaoambiental, #resgatedefauna) e o trabalho (#construçãocivil, #eufaçopartedessahistória, #engenhariaambiental, #work, #técnicodesegurançadotrabalho), até hashtags de uso comum no instagram (#tbt, #like4like). Em outros grupos, apesar de também haver uma variedade de temas, é possível observar tópicos comuns.

No grafo da figura 4, com relação de previsão de 30%, em conjunto com hashtags como belomontejusticenow, belomontedemerda, belomonstro, protesto e o destaque para altamira, aparece com bastante força a temática do grafite, da arte de rua e de São Paulo (#oqueasruasfalam, #graffitiwall, #aerosol, #saopaulowalk, #serpaulistano, #urbanart, #pixo, etc). Isso provavelmente por conta do grafite do artista Eduardo Kobra, realizado no centro de São Paulo no ano de 2011 em protesto à construção de Belo Monte, que ilustra algumas das postagens – os termos kobra, eduardokobra e kobrastreetart possuem 27, 5 e 2 contagens, respectivamente.

Nos grafos das figuras 5 e 6, ambos com relação de previsão de 50%, também é possível identificar uma temática principal. O cluster azul, localizado em todo o entorno do grafo geral, aborda as questões indígena e ambiental. Já o cinza, pouco nítido na figura 2, trata de temas relacionados ao trabalho: obra, profissões e equipamentos.

O cluster cinza, com relação de previsão de 70% no grafo da figura 7, também pouco visível no grafo geral, possui termos relacionados a imprensa, jornalismo e nomes de veículos de mídia. Um dos marcadores que chama a atenção, porém, é a #mídiagolpista, porque, assim como a temática observada na figura 8, é uma hashtag que ganha repercussão no contexto de instabilidade política no Brasil: as manifestações contrárias e a favor do impeachment da presidenta Dilma Rousseff e o seu afastamento do cargo.

No topo do grafo da figura 8 estão presentes os termos relacionados às tensões políticas no país, como impeachment, forapt, 15março, bndes e petrobrás. No cluster rosa ainda são realizadas referências a organizações bastante atuantes nesse momento, como revoltadosonline, indicando a página no facebook conhecida por conta dos ataques ao governo petista, e mbl, o Movimento Brasil Livre, que organizou diversas manifestações contra o governo da presidenta. O interessante de se olhar para esse caso é a mostra de indivíduos, grupos e relações que se tornam evidentes por conta da situação de controvérsia – a atuação desse cluster na rede é bastante específica, levando em conta o momento político do país.

O que se observa na figura 8 é que relações são estabelecidas, obviamente segundo os interesses dos usuários, entre Belo Monte e as diversas outras questões utilizadas para deslegitimar o governo de Dilma Rousseff. Olhando para a rede geral do termo belomonte, pode-se identificar grupos com temáticas dos trabalhadores, da causa indígena, da questão ambiental, do grafite e, por último, o do cluster rosa que, em relação aos demais, é um movimento bastante recente (as primeiras manifestações pelo impeachment aconteceram em 2014), mas que, observando a partir do grafo da figura 8, pode ter passado a olhar para a Usina apenas para utilizá-la como um caso de corrupção na conta do governo petista.

Publicações

Quando os usuários se propõem a trazer a discussão em torno de Belo Monte em suas publicações, agindo como mediadores, acionam uma rede de outros usuários que podem vir a gerar debates na seção de comentários. Nos exemplos trazidos logo abaixo, as discussões não se mantêm apenas na questão de Belo Monte, chamando outras controvérsias de acordo com o contexto político da publicação ou a experiência pessoal, por exemplo. Os comentaristas também mobilizam novos possíveis agentes marcando outros usuários nas publicações.

Figura 9 – Publicações: likes e comentários

Os gráficos da figura 9, realizados com base na tabela de informações sobre as publicações, apresentam os números de curtidas e comentários nas publicações do Instagram, com as cores indicando os usuários. Analisando as descrições, observei que a maior parte entre as 10 postagens que mais se destacaram abordam as causas ambiental, indígena e dos demais moradores afetados pela construção da Usina.

A foto que está em primeiro lugar em relação à quantidade de curtidas foi publicada pelo perfil alexiafoundation, uma fundação de apoio a fotojornalistas que têm a atuação direcionada a causas sociais, com 2.288 seguidores em 04 de junho de 2016. A publicação data do dia 22 de abril de 2016 e, ao apresentar a foto de garotos escalando uma árvore no rio Xingu do fotógrafo vencedor de um prêmio oferecido pela fundação, aborda os problemas sociais e ambientais de Belo Monte.

Já a publicação que se destaca em relação ao número de comentários, com 317 (uma diferença de 225 comentários em relação ao segundo lugar), é de 05 de maio de 2016, e trata justamente da participação da ex presidenta na cerimônia de inauguração de Belo Monte, no perfil de Dilma Rousseff. Apesar de existir comentários que se posicionam em relação a Belo Monte, a grande parte é contrário ou de apoio ao governo. É importante destacar que a inauguração aconteceu pouco mais de duas semanas após a votação do impeachment na Câmara e uma semana antes da aprovação do processo no Senado.

A publicação que fica em segundo lugar, de 17 de fevereiro de 2015, com 92 comentários e 1.536 curtidas, é da página Engenharia Civil (Engineering) e pergunta o motivo das máquinas da construção estarem paradas. Nos comentários, alguns respondem que é por conta do término das obras, enquanto, por outro lado, também se relaciona o acontecimento ao governo petista, como acontece no seguinte comentário: “Estamos fudidos. ….o PT Acabou com tudo, e se continuar assim , vamos pedir a falência deste país. ….Não se iludam, a máquina comunista destes marginais já se apoderaram dos 3 poderes. …..triste!”. Em terceiro lugar está a publicação da fotógrafa Cristina Mittermeier, retratando os índios Kayapó, que fala sobre a luta indígena em Belo Monte e chama os seguidores a pressionar o governo brasileiro a proteger as comunidades indígenas. A publicação é de 11 de fevereiro de 2016 e conta com 92 comentários e 6.017 curtidas. A maioria dos comentários é de marcações de usuários e de elogios à fotógrafa, mas existem comentários criticando os governos e as pessoas poderosas.

A quarta publicação mais comentada, da página “theglobalmovement”, é interessante porque expande a questão de Belo Monte. Após um breve histórico da luta indígena, aponta que “People from every part of the world are standing up for the greater good. Its happening in waves getting stronger and stronger. Its like the entire world jolted awake and knows time is running out in more ways than none.”. A publicação gera, nos comentários, um pouco de discussão em torno do problema do desrespeito com os povos nativos. Um usuário, inclusive, faz uma comparação da situação apresentada pela postagem com o que ele próprio vivencia no Havaí, como mostra a figura 13.

  • Belo Monte no Youtube

A ferramenta YTDT video list foi utilizada para realizar a coleta de vídeos com o termo Belo Monte no Youtube no dia 01 de junho de 2016. Indiquei o total de 10 iterações e foram extraídas as informações dos 500 vídeos mais visualizados, disponibilizadas em uma tabela.

Figura 14 – vídeos para o termo Belo Monte no Youtube

A figura 14 apresenta os gráficos de contagens de likes, dislikes, comentários e curtidas nos vídeos extraídos. Entre os dez primeiros colocados tanto no gráfico de likes e dislikes, quanto no de comentários e visualizações, o Canal do Pirula, com uma publicação analisada logo abaixo, aparece três vezes com um vídeo principal, um adendo (alternativas a Belo Monte e respostas) e um de atualizações. Os vídeos são longos, possuem em torno de 20 a 30 minutos, e possuem caráter bastante didático. Os demais se dividem em defesa e acusação da construção, com nenhum vídeo oficial se destacando. A publicação com o maior número de visualizações, porém, é o BRASIL XINGU TRİBE BELO MONTE, do canal “amali stiv”, com 1745896 visualizações, 985 likes, 515 dislikes e 71 comentários. No dia da observação, o vídeo estava com a informação de privacidade privada, impossibilitando a análise.

Belo Monte: O protesto de Rafinha Bastos

Para analisar a seção de comentários, selecionei os dois vídeos que permanecem em primeiro e segundo lugar tanto em relação à quantidade de likes, quanto à quantidade de comentários. O primeiro, intitulado Belo Monte: O protesto de Rafinha Bastos, é do canal oficial do humorista Rafinha Bastos, que possui 2.075.279 inscritos (informação do dia 04 de junho de 2016) e foi publicado em 25 de novembro de 2011. Os dados extraídos pela ferramenta foram: 1.402.269 visualizações, 24.665 likes, 4.513 dislikes e 8.530 comentários.

No vídeo, com duração de 02:26, Rafinha ironiza o vídeo É a Gota D’Agua + 10, onde atores famosos apresentam pontos contrários à construção da usina, falando sobre as questões indígena, ambiental e econômica, e solicitam a assinatura de uma petição organizada pelo movimento Uma gota no oceano. O humorista não apresenta nenhum argumento que defenda o seu posicionamento em relação a Belo Monte, mas indica que os atores não entendem e nunca se interessaram anteriormente pelo assunto. O vídeo também sugere que a petição online não gera resultados e que os atores não iriam para as ruas protestar.

A ferramenta YTDT Video Info and Comments gera três tabelas com informações gerais sobre o vídeo, os comentários e os comentaristas, e um arquivo para a visualização da rede de comentários no Gephi.

Figura 15 – Comentários do Vídeo Belo Monte: o protesto de Rafinha Bastos

Os gráficos da figura 15 apresentam os usuários com comentários com o mínimo de três curtidas e uma resposta, e uma linha do tempo que mostra a quantidade de comentários recebidos no vídeo por mês. É interessante notar que existe um pico de comentários logo que o vídeo é publicado e ao longo do tempo acontece uma estabilização. Porém, em novembro de 2012, a mesma época em que ocorreram protestos dos trabalhadores que pararam as obras, houve um aumento na quantidade de comentários. Isso não se manifestou apenas na figura 15, mas também na análise do segundo vídeo disponível logo abaixo.

Apesar de grande parte dos comentários serem curtos, com xingamentos ou elogios, o vídeo gerou uma quantidade considerável de comentários com textos argumentativos, questionadores, exemplos pessoais, entre outros. Os usuários se posicionam contra e a favor do Rafinha – alguns dizem que o humorista está recebendo dinheiro ou utilizando o vídeo para se promover, sem realmente entender do assunto, e outros concordam que os artistas não defendem verdadeiramente a causa que abordam.

Figura 16 - comentário no vídeo de Rafinha Bastos

Figura 16 – comentário no vídeo de Rafinha Bastos

No grafo da figura 18, com 5217 nós e 20 arestas, os nós representam os usuários que comentaram e as arestas indicam respostas e menções. A cor foi ajustada de acordo com a quantidade de vezes que o usuário comentou, e o tamanho com o grau de entrada.

Existe um núcleo bastante pequeno de nós com tamanhos maiores e que possuem ligações, ao contrário da maior parte, que está dispersa e não possui conexões. Isso indica que, apesar da enorme quantidade de comentários recebidos no vídeo, foram relativamente poucos os usuários que se empenharam em dialogar. Com aproximação, o grafo 8 permite uma melhor visualização desse núcleo e dos usuários que se destacam. A relação de previsão na figura 19 é de 50%.

Figura 19 - Usuários que se destacam nos comentários do vídeo de Rafinha Bastos

Figura 19 – Usuários que se destacam nos comentários do vídeo de Rafinha Bastos

O usuário MILITEC-1 BAHIA realizou três comentários: um principal e duas respostas. Ele defende o uso de hidrelétricas como fontes limpas e renováveis até o esgotamento delas. Além disso, cita que as usinas são estocadoras de água. Segundo ele, ”esse país precisa de planejamento, e planejamento tem que ser feito de cabeça fria, e não na emoção, através do apelo de artistas que nada entendem de meio ambiente ou como reduzir os impactos ambientais gerados pelo homem, eles mesmos não dispensam seus automóveis, e nem tão pouco mudam seus hábitos para reduzir o impacto ambiental que geram na natureza. Uma coisa que os militares fizeram foi pensar este país pro futuro, pena que a parte boa da ditadura não foi mantida, acabaram com o parte ruim e também com as coisas boas que a ditadura fez nesse país.”. Para ele os artistas não entendem sobre o assunto e os engenheiros que deveriam ser procurados.

O comentário recebe respostas de usuários concordando e perguntando sobre o assunto. Um deles é Guilherme Gomez, que também se destaca na figura 19, e escreveu cinco comentários ao todo. Em seu comentário principal, Guilherme recebe uma resposta contrária ao seu posicionamento, mas não é gerado um debate.

Outro usuário que se destaca é Leonardo Raoni, com 7 comentários, dentre eles 1 principal. Ao se posicionar contrário a Belo Monte, outros usuários respondem que ele não entendeu o vídeo e defendem a construção da usina. Leonardo passa a justificar seu ponto a partir da experiência pessoal, dizendo que mora em Tucuruí e que a usina da cidade causou prejuízos locais. Ele argumenta “Pois é, a briga maior não é ambiental, pois seria viável acometer prejuízos à natureza em prol do desenvolvimento social, só que o a distribuição desses recursos é que causa indignação.”. É importante destacar que esse é o comentário que possui o maior número de respostas (11), e é justamente um texto contrário ao que aparentemente foi entendido como o posicionamento do vídeo.

Belo Monte é a Gota D’água? (#Pirula 10)

O vídeo em segundo lugar pela quantidade de likes e comentários é o Belo Monte é a Gota D’água? (#Pirula 10), com duração de 30:18, publicado em 03 de dezembro de 2011 no Canal do Pirula. Na descrição do vídeo de apresentação do canal, o youtuber se apresenta como: ”Eu sou o Pirula, biólogo, e em meus vídeos falo sobre ciência, religião, e dou minha opinião sobre atualidades que eu achar mais relevantes.”. O canal possui 448.615 inscritos (informação do dia 05 de junho de 2016), e os dados coletados pela ferramenta para o vídeo foram: 4.137 comentários, 386.073 visualizações, 532 dislikes e 16.614 likes.

Pirula conta um histórico de Belo Monte, sempre ressaltando os aspectos negativos e dando bastante ênfase às implicações políticas da construção. Ele expõe sua opinião sobre o assunto como biólogo, apresentando imagens de satélite e mapas que mostram o desmatamento na região da Amazônia, e defende que esse problema acontece por conta da ocupação humana não indígena. O vídeo aponta, então, que levar mais gente para a região de construção do Xingu só pioraria a situação de destruição da mata, além dos outros impactos causados pela construção da usina, como os alagamentos e a consequente extinção de espécies de peixes. O youtuber acredita que a “origem de Belo Monte não é energética, é política”, e critica o vídeo É a Gota D’Agua + 10, dizendo que ele é apelativo, distorce informações e não fala de outros aspectos muito importantes, mas afirma que ele é relevante por ter chamado a atenção das pessoas e gerado movimentação em torno do caso de Belo Monte. Durante todo o vídeo são colocadas notas escritas explicativas, complementares e de correção da fala de Pirula.

Figura 23 – Comentários do vídeo Belo Monte é a Gota D’água? (#Pirula 10)

O Gráfico da figura 23 apresenta os comentários com três curtidas ou mais e com, no mínimo, uma resposta. é possível verificar que há uma maior quantidade de usuários que se destacam nessa seção do que no vídeo de Rafinha Bastos, o que também será verificado nos grafos das figuras 24 e 25. Além disso, o gráfico mostra a quantidade de comentários recebidos por mês no vídeo. Apesar de ter mais movimentações do que no vídeo do Rafinha Bastos, aqui também há uma tendência da quantidade de comentários se estabilizar após o pico alcançado na publicação do vídeo, e um crescimento significativo na época das manifestações dos trabalhadores de Belo Monte.

No grafo da figura 24, com 1.707 nós e 157 arestas, os nós representam os usuários, e as arestas indicam as repostas a comentários e menções. A cor dos nós foi ajustada de acordo com a contagem de comentários e o tamanho pelo grau de entrada. Aqui também existe uma dispersão de comentários sem qualquer ligação ao entorno do grafo e um núcleo de usuários que se destacaram, mas esse núcleo é mais amplo em relação ao grafo da figura 18, sobre o vídeo do Rafinha Bastos.

Figura 25 - Usuários que se destacam nos comentários do vídeo Belo Monte é a Gota D'água? (#Pirula 10)

Figura 25 – Usuários que se destacam nos comentários do vídeo Belo Monte é a Gota D’água? (#Pirula 10)

Com relação de previsão de 50%, o grafo da figura 25 mostra os usuários do núcleo. Apesar de não se destacar no gráfico da figura 23, o próprio Canal do Pirula, com uma contagem de 306 comentários, é um ator importante nessa rede porque interage com outros usuários respondendo a diversos comentários, e os usuários esperam essa interação com comentários como “Pirula, o que você pensa sobre o assunto hoje. Aguardo muito sua resposta” (comentário de abril ou maio de 2016). Observei, também, pedidos de temas para vídeos e agradecimentos pelo caráter didático, com muitos usuários com posicionamentos similares ao do youtuber. Assim como no vídeo de Rafinha Bastos, há um engajamento argumentativo nos comentários, relatos pessoais e questionamentos até mesmo nas críticas, como mostra a imagem 26.

Figura 26 - Comentários no vídeo do Canal do Pirula

Figura 26 – Comentários no vídeo do Canal do Pirula

Os usuários Leonardo Castro, que realizou um comentário principal e 10 respostas, e Rhuan Consta, com um comentário principal (que possui o maior número de repostas) e 16 respostas, se destacam por mobilizarem vários outros usuários.

Os dois comentários destacados possuem posicionamentos contrários ao do vídeo, como mostram as figuras 27 e 28. O usuário Rhuan Costa fala sobre a importância do desenvolvimento, enquanto o comentário de Leonardo Castro indica que ele desacredita na real intenção dos biólogos em defenderem a causa. Esses comentários provocam uma mobilização de outros usuários que tentam convencê-los sobre seus pontos de vista.

Considerações Finais

A pluralidade de atores que conformam as redes aqui analisadas, para além dos veículos tradicionais, é resultado dos “processos diversificados de mediação social, característicos da hipermídia e das mídias móveis.” (ALZAMORA, 2012, p. 54). Os usuários publicam e, a partir disso e das configurações das plataformas em que atuam, também desencadeadoras de ações, acionam uma outra rede de usuários. Essas redes, portanto, estão em constantes transformações que se dão pelo estabelecimento de novas relações, pelo contexto, pelas especificidades dos meios que acontecem – as relações nunca são estabilizadas.

Porém, em momentos de controvérsias, as mobilizações se tornam mais intensas, e as redes mais visíveis. No caso do Instagram, as mobilizações em torno de Belo Monte se evidenciam de forma específica no período de instabilidade política no Brasil, caracterizado pela insatisfação com o governo da presidenta Dilma, quando foram organizados atos e o processo de impeachment foi encaminhado. Isso pôde ser visto no grafo gerado a partir das hashtags relacionadas à Belo Monte, que possui a formação de um grupo com marcadores que remetem às movimentações em torno do Impeachment, e também na análise da seção de comentários da publicação realizada pela ex-presidenta sobre a inauguração da Usina, intensamente movimentada em torno dos posicionamentos contra e a favor da saída de Dilma.

Já no caso dos vídeos analisados no Youtube, há um aumento considerável na quantidade de comentários na época coincidente com as manifestações de trabalhadores que suspenderam as obras em Belo Monte – não sabemos, porém, se essa realmente é a causa do crescimento. Além disso, no vídeo do Canal do Pirula, que possui um posicionamento muito bem marcado, todos os comentários que indicam discussão por conta de obterem o maior número de respostas são contrários à opinião posta no vídeo. Isso evidencia a disputa na formação de associações e um dos motivos da não estabilização das redes: os posicionamentos adotados em relação à construção da Usina que, por sua vez, remetem, dentre outros, ao contexto em que são formados.

O tema Belo Monte é trabalhado por diferentes pontos de vistas nas plataformas analisadas. São abordadas as questões econômica, indígena, ambiental, trabalhista, dentre outras. Assim, vários grupos que se mobilizam de forma favorável ou contrária à construção da usina estão presentes. As redes alavancadas por essas discussões, porém, estão em constante modificação e são influenciadas por outras controvérsias, o que faz com que Belo Monte, enquanto não é um consenso entre os diversos atores influenciados, não se torne uma “caixa preta” e continue a mobilizar e a gerar ação.

Referências bibliográficas

ARCE, Tacyana; ALZAMORA, Geane; SALGADO, Tiago. Mediar, verbo defectivo: contribuições da Teoria Ator-Rede para a conjugação da mediação jornalística. Contemporanea (UFBA. Online). , v.12, p.495 – 511, 2014.

ALZAMORA, G. C. Especificidades da rede intermídia contemporânea: considerações sobre a audiência em contextos reticulares. Revista Latinoamericana de Ciencias de la Comunicación, v. 1, p. 50-61, 2012.

D’ANDRÉA, Carlos. Conexões intermidiáticas entre transmissões audiovisuais e redes sociais online: possibilidades e tensionamentos. Comunicação Midiática (Unesp), v.10, n.2, p. 61-75, mai./ago. 2015.

D’ANDRÉA, Carlos. Controvérsias midiatizadas no Twitter durante transmissões televisivas ao vivo: a rede “exoesqueleto” na abertura da Copa 2014. In: XXIV Encontro Anual da Compós, Brasília (DF). Anais… 2015

PEREIRA, Débora de Carvalho; BOECHAT, Marina Pantoja. Apenas siga as mediações: desafios da cartografia de controvérsias entre a teoria ator-rede e as mídias digitais. Contemporânea, v. 12, n. 3, p. 556-575, 2014

Equipe

Roberta Firmino

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