Blade Runner 2049 e a replicante grávida, precisava disso?

No filme Blade Runner 2049, continuação do clássico feito em 1982, um replicante (1) policial chamado K investiga um grupo de replicantes rebeldes. Em uma visita à uma fazenda de proteínas, onde ele “aposenta” um outro replicante, K encontra um baú com restos mortais de uma replicante mulher que morreu por complicações no parto. O fato desta replicante – Rachael – ter engravidado era segredo para todos, sabido por poucos, entre eles Deckard – personagem do primeiro filme interpretado por Harrison Ford – que é o pai da criança. Inicia-se então uma disputa pelos restos mortais de Rachael, por um lado a chefe de K quer que ele destrua as evidências, com medo de uma guerra civil, por outro temos Niander Wallace, dono da corporação Wallace, que fabrica replicantes e  tem a finalidade de fazer com que seus replicantes possam se reproduzir, para que possam crescer mais rápido em número. Um grupo de replicantes, incluindo uma que estava presente durante o parto, vê nesta reprodução um motivo para pensar em sí mesmos como humanos, ou, ao menos, mais próximos da natureza.

Em ambos os filmes – o primeiro e o segundo da série – há uma discussão sobre a proximidade entre humanos e robôs, explorando questões éticas, morais, de sobrevivência e perpetuação da espécie. No segundo, a gravidez de uma replicante e nascimento biológico de uma criança – não ficando claro em nenhum dos dois filmes se Deckard é ou não um replicante – seria uma fronteira final de emancipação dos replicantes como uma raça auto suficiente, que pode existir e se perpetuar sem a necessidade de fabricação. Mas seria essa diferença, do feito para o nascido, critério para considerar os replicantes como seres naturais, assim como os humanos? Segundo a proposta de Koert Van Mensvoort, em seu livro Next Nature, não.

A partir do modelo demonstrado na imagem ao lado, Koert  coloca algumas categorias onde podemos encaixar coisas e objetos. Segundo o holandês, na nossa velha definição de natureza está tudo aquilo que cabe do lado esquedo, aqueles que são nascidos, sob ou além do nosso controle. Mas ao que interferimos cada vez mais na velha natureza, através de, por exemplo, animais e plantas geneticamente modificadas, estes seriam, apesar de nascidos, de uma certa maneira, feitos. Neste sentido, feito e nascido estão se fundindo e não servem mais como critério de separação entre natureza e cultura, ao mesmo tempo em que coisas feitas, como vírus de computador, o sistema financeiro, o trânsito das cidades e redes de computadores têm comportamentos próximos da natureza, que para ele é caracterizada pela imprevisibilidade e autonomia, sendo assim uma nova natureza, criada por humanos.

Os replicantes são seres com vontade própria, capazes de surpreender, agir fora do programado, e mesmo se rebelar contra seus criadores, não sendo o que Koert considera uma visão cultural da natureza, como “uma entidade benéfica que é harmoniosa, calma, pacífica, inerentemente legítima e boa para você” (KOERT, 2015), mas seres da next nature. Eles se preocupam com sua sobrevivência e a de sua espécie, se envolvem com outros replicantes, com humanos, e como o mundo em sua volta. Nós humanos, somos cada vez mais vistos como próximos às máquinas, ciborgues, híbridos entre o orgânico e o não orgânico. Desta maneira, a reprodução biológica representaria para os replicantes algum aprofundamento em sua existência?  Ou seriam tão naturais quanto uma banana geneticamente modificada?

 

 

 

(1) Seres biológicos, mistura de engenharia genética e robótica, idênticos aos humanos, mas que são feitos em fábricas para, entre outras coisas, fazer o trabalho pesado em ambientes hostis, especialmente na colonização de outros planetas.

Referências

MENSWOORT, Koert V. Next Nature. Next Nature Network. 2015.

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