Bolsonaro, extrema direita e redes sociais: uma análise

1.Introdução

Dado o contexto tecnológico em que vivemos e o modo como as redes sociais estão inseridas no cotidiano de grande parte da população brasileira, é natural pensar que qualquer tipo de acontecimento gera alguma reverberação nessas redes. Sendo o acontecimento em questão de interesse midiático, essa reverberação é mais forte ainda.

A partir do momento em que várias pessoas estão utilizando as suas redes sociais particulares para iniciar uma conversa sobre um assunto em comum, é possível mapear determinados pontos dessa discussão, separar as pessoas por grupos de posicionamentos parecidos e conseguir entender melhor o processo de recepção desses acontecimentos. É interessante poder observar em maior escala recepções parecidas, uma vez que isso permite enxergar de maneira quantitativa posicionamentos em comum, contabilizando então as reações desse público engajado.

No Brasil, o cenário político atual tem sido bastante caótico. Todos os acontecimentos presentes têm gerado grande movimentação nas redes sociais, o que oferece muito material para analisar toda a conjuntura política. O contexto do governo brasileiro tem dado espaço para o fortalecimento dos pré-candidatos às eleições previstas para 2018. De um lado temos a esquerda, em sua maioria, apoiando a candidatura de Lula. Do outro lado temos presenciado o fortalecimento de nomes como Jair Bolsonaro.

Atualmente deputado, Bolsonaro é um político que está chamando cada vez mais atenção da mídia devido ao seu posicionamento extremamente radical de direita. Como já dito, essa atenção midiática também surte efeitos nos posicionamentos do público receptor, que responde emitindo em resposta nas suas redes sociais. Portanto, decidimos aproveitar esse período de pré-campanha presidencial para utilizar as suas redes sociais como objeto de estudo.

Temos como objetivo, por meio de um mapeamento de palavras-chave, fazer uma análise relacionando o discurso das redes do Bolsonaro e as respostas dadas nas redes, por meio das interações dos fãs. A partir da percepção de que há grande repetição nas palavras usadas pelos fãs, e do fato que além do valor semântico cada palavra também carrega um valor simbólico pretende-se compreender melhor a associação gerada pelos seguidores e apoiadores.

Ademais, analisando as redes sociais de Jair Bolsonaro e o engajamento do público (que pode ser fã ou não) a intenção é levantar alguns temas que estão sendo frequentemente abordados nos discursos proferidos. Com essa análise a pretensão também é fazer um paralelo entre o engajamento nas redes sociais e a possibilidade de conversão em intenções reais de voto nas urnas quando chegarem as eleições.

2. Histórico e contextualização

2.1 Discurso político, mobilização e redes sociais

O discurso político é um dos grandes expoentes da mobilização da sociedade. Temos que Judith Butler reconhece uma dimensão estética envolvida no reconhecimento do outro como interlocutor. Para ela, a apreensão do outro não se limita apenas à linguagem, mas também engloba um apelo moral dos sentidos do rosto humano: “o discurso nos faz uma reivindicação ética precisamente porque, antes da fala, algo nos é dito” (2011, p. 22).

A partir desse reconhecimento do outro, primeiramente sensitivo e depois racional, é que construímos nossa identidade, pois, uma vez apreendidos, podemos construir discursos e passar nossos posicionamentos adiante. Nesse sentido, é somente a partir da relação com o outro que podemos fazer uso da linguagem graças ao advento do discurso, e é oriunda também dessa relação com o outro a construção de nós mesmos, uma vez que todos somos vulneráveis e dependentes do outro.

O poder, para Butler, reside justamente na dependência que temos do outro para construirmos nossos discursos e a nossa identidade. É a partir da forma como somos interpretados sensitivamente pelo nosso interlocutor que teremos nossos discursos reconhecidos — ou não. Em outras palavras, é de acordo com o enquadramento que o outro cria da nossa subjetividade que o nosso discurso será interpretado e a nossa identidade construída conjuntamente.

Atualmente as redes sociais fazem parte dessa dinâmica de construção de identidade. Parte da maneira que os outros nos interpretam é por meio dessas redes, uma vez que fazendo uso delas estamos criando interlocuções o tempo todo. É possível construir um enquadramento de nós mesmos a partir da exposição que permitimos que aconteça nas nossas redes pessoais.

Seja por meio da construção do nosso perfil ou por meio do que postamos, compartilhamos, curtimos e comentamos. Dessa forma, hoje as redes são importante ferramenta no processo de reconhecimento dos nossos discursos.

Uma percepção provável das redes sociais, hoje em dia, é entendê-las como um espelho da sociedade. Nesse caso, é inegável associar a mobilização política que acontece nas redes com os acontecimentos que se desenrolam na “vida real” do nosso país e de todo o mundo.

A campanha presidencial do presidente Obama, por exemplo, é um dos grandes expoentes do poder das redes sociais para a mobilização política. No ano da eleição, em 2008, as redes sociais já estavam em uma ascensão vertiginosa e a estratégia de comunicação do agora ex-presidente não deixou tal oportunidade passar. Alguns especialistas afirmam que Obama ganhou as eleições por ter conseguido estabelecer uma forte presença no Facebook, a rede social mais relevante da época, e conquistar eleitores jovens.

Na última corrida para a presidência dos EUA o cenário foi um pouco diferente devido às rápidas mudanças das dinâmicas das redes e, também, pelo fato de que as equipes de comunicação já se atentaram para a importância do digital – que, atualmente, é praticamente obrigatório. O atual presidente Donald Trump consolidou sua imagem com a ajuda do Twitter.
Dados estes exemplos, a influência das redes sociais na consciência política de grande parte da população é inegável, e tal fator despertou o interesse do grupo para associá-lo com a figura do político Jair Bolsonaro.

2.2 Jair Bolsonaro

Jair Messias Bolsonaro é um político brasileiro, deputado pelo PSC do Rio de Janeiro e atual pré-candidato à Presidência da República. Nascido em Campinas, São Paulo, Bolsonaro seguiu carreira militar, formando-se na Academia Militar das Agulhas Negras. Iniciou sua carreira política em 1988, quando concorreu e ganhou o cargo de vereador do Rio de Janeiro. Em 1990 elegeu-se deputado federal, cargo que ainda ocupa, elegendo-se por sete mandatos consecutivos. Em 2014 ele foi o deputado federal com maior número de votos no rio: 464 mil.

Apesar da popularidade entre os eleitores, dentro do congresso Bolsonaro não parece ter muito apoio. Durante todos os anos de sua carreira política ele conseguiu aprovar apenas uma emenda, a PEC que prevê a emissão de recibos para os votos nas urnas eletrônicas. O próprio deputado justifica o fato alegando que não tem apoio dos colegas congressistas devido ao seus ideais.

“Sou completamente discriminado porque eu sou um homem de direita”, afirma. “Alguns projetos eu dou para (outro) deputado apresentar porque, se pintar meu nome, não vai para frente” – ele não informou quais teriam sido estes projetos.

2.3 Posicionamento Político

O deputado mantém posicionamentos radicais e conservadores, criticando abertamente o comunismo e a esquerda. Profere discursos nacionalistas e defende o regime militar. Ademais, em seu discurso é possível detectar afirmações machistas, homofóbicas, racistas, extremistas e que ferem os direitos humanos.

Jair Bolsonaro já ofendeu em discurso a ex-ministra Maria do Rosário, dizendo que não a estupraria porque ela não merecia, afirmação que o tornou réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por incitação ao estupro. Outra situação que exemplifica seu posicionamento é o seu discurso na votação do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara, uma vez que ele dedicou seu voto a um torturador militar, fato que fez o Conselho de Ética da Casa abrir um processo contra Bolsonaro por apologia do crime de tortura.

O parlamentar condena publicamente a homossexualidade, sendo desfavorável a qualquer iniciativa que pretenda garantir direitos LGBT, como por exemplo o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

No que tange a políticas públicas contra o racismo e cotas raciais ele também se mostra desfavorável. Em 2006, protestando contra as políticas de cotas nas universidades públicas ele apresentou um projeto de lei propondo cotas para deputados – projeto esse que ele afirma que caso fosse à votação ele seria contra.

É possível perceber sua ideologia conservadora por meio de suas opiniões contrárias à legalização das drogas, favoráveis à pena de morte e a redução da maioridade penal e ao fato de que ele defende a revogação do estatuto do desarmamento.

Assuntos polêmicos como a legalização do aborto são capazes de revelar seus posicionamentos mais esdrúxulos. Abordando essa agenda em questão ele apresentou um projeto de lei defendendo a castração química voluntária como condição para que quem fosse condenado por estupro pudesse progredir o regime de pena.

Por possuir um posicionamento tão delimitado e no qual não há espaço para “áreas cinzentas”, tanto os seus seguidores quanto aqueles que se opõem ao político o fazem de maneira enfática.

3.Análise dos dados

3.1 Análise dos dados no Facebook

Em primeiro momento, para análise do facebook do Bolsonaro, nós escolhemos extrair os dados dos 50 últimos posts de sua página por meio da ferramenta netvizz. Depois disso, abrimos os dados por meio da ferramenta de visualização de dados Tableau Public.

Entre as postagens mais recentes, a que gerou mais engajamento foi a publicação de um vídeo do cantor de música sertaneja Eduardo Costa. No vídeo, ele deixa claro que simpatiza com a figura de Bolsonaro e afirma que o apoia por acreditar, por exemplo, na militarização das escolas. Entre os 9 mil comentários nos post, estão muitos apoiadores e alguns detratores, afirmando que o cantor não tem conhecimentos sobre educação para opinar como opinou.


Dentro dessa classificação, o segundo post mais popular é um vídeo editado pelo grupo Direita Minas. Nele, são mostrados alguns trechos de um debate promovido pela rádio Jovem Pan entre Bolsonaro e Marco Antônio Villa, professor e historiador sem viés ideológico declarado. O objetivo do vídeo postado é desmentir argumentos utilizados pelo professor com falas do mesmo em outras entrevistas. Com a alta popularidade dessa postagem, fica claro o senso de competição e agressividade entre os apoiadores do político.

Ainda com os dados dos 50 últimos posts, utilizando o Tableau extraímos um panorama das reações geradas por esses posts:

É possível perceber que dentre as reações oferecidas pelo facebook as que sobressaem são as de “love” e “haha”. A partir desses dados é possível inferir que as reações de “love” vem do público que apoia o político, enquanto as de “haha” se justificam pelo teor irônico e cômico de suas postagens, fazendo chacota de colegas políticos da oposição e a respeito de temas muito presentes em sua pauta, como o feminismo e direitos lgbt.

Depois disso, a fim de entender o conteúdo da página de maneira qualitativa, associamos os dados do netvizz a a um contador de palavras, desenvolvido pelo Grupo de Linguística da Insite . Esse analisador estatístico de textos é capaz de contar a quantidade de palavras, quantidade de linhas e listar palavras mais comuns em textos.

Optamos pelo uso dessa associação de ferramentas, uma vez que o contador de palavras seria capaz de determinar a incidência de palavras-chave presentes nos comentários dos posts que extraímos com o netvizz. Estavamos a procura de compreender melhor as interações entre o Bolsonaro e os públicos de suas redes sociais para além das curtidas e compartilhamentos. A intenção era ter acesso ao teor dos comentários e, com isso, compreender melhor o impacto gerado pelo conteúdo de seu discurso no meio digital. Para realizar essa análise enxergamos que medir a incidência de palavras-chave nos comentários dos posts no facebook poderia nos ajudar.

Dessa forma, o primeiro passo foi trabalhar com os dados dos 50 últimos posts do facebook do parlamentar, jogando-os no contador de palavras. A seguir está a incidência de palavras-chave nos comentários dos 50 últimos posts:

Total de palavras (tokens): 9054
Total de palavras distintas (types): 1980
Proporção palavras distintas/total: 0.218 (type/token ratio)
Total de kbytes de texto processados: 65 k (65172 letras)
Total de linhas de texto: 254
Tamanho mínimo considerado de palavras: 3 letras

A ferramenta classifica as palavras por ordem de incidência, gerando uma tabela. A partir dessa tabela nós selecionamos algumas palavras relevantes (o posicionamento em relação a incidência delas nos textos recolhidos está na primeira coluna).

Pos. Palavra Porcentagem Ocorrências N.de Documentos onde ocorre
1 bolsonaro 3.73315 % 338 1
3 verdade 2.91583 % 264 1
4 mulheres 2.89374 % 262 1
7 feminista 2.80538 % 254 1
9 ex-feminista 2.79434 % 253 1
18 lula 0.54119 % 49 1
25 nordeste 0.39761 % 36 1
45 bolsa 0.16567 % 15 1
46 família 0.16567 % 15 1
60 mito 0.13253 % 12 1
70 nem 0.11044 % 10 1
71 nordestino 0.11044 % 10 1
90 grande 0.08835 % 8 1
95 moral 0.08835 % 8 1
127 esquerda 0.06626 % 6 1
136 mundo 0.06626 % 6 1
137 nordestinos 0.06626 % 6 1

A partir da grande incidência da palavra mulher e feminismo nos dados extraídos dos 50 últimos posts decidimos extrair os dados dos posts feitos no dia 8 de Março, uma vez que na data é comemorado o dia da mulher. Nesse período em 2017 dois posts foram realizados:

Total de palavras (tokens): 9037
Total de palavras distintas (types): 2527
Proporção palavras distintas/total: 0.279 (type/token ratio)
Total de kbytes de texto processados: 59 k (59270 letras)
Total de linhas de texto: 302
Tamanho mínimo considerado de palavras: 3 letras

 

Pos. Palavra Porcentagem Ocorrências N.de Documentos onde ocorre
1 bolsonaro 4.68075 % 423 1
2 messias 3.49673 % 316 1
45 esquerda 0.19918 % 18 1
58 mulheres 0.16598 % 15 1
78 lula 0.13278 % 12 1
87 deus 0.12172 % 11 1
88 governo 0.12172 % 11 1
89 sempre 0.12172 % 11 1
94 direita 0.11065 % 10 1
111 estuprada 0.09959 % 9 1
130 militar 0.08852 % 8 1
150 família 0.07745 % 7 1
155 intervenção 0.07745 % 7 1

Depois de extrair e analisar o conjunto de dados dos 50 últimos posts, escolhemos datas específicas para a coleta de dados de acordo com o que foi postado nessas datas. A partir da ferramenta Keyhole conseguimos um panorama do facebook do Bolsonaro no último ano, que nos permitiu entender quais foram os posts com maior engajamento do público nesse período. Dessa forma, selecionamos as datas que esses posts foram criados para extrair informações com o Netvizz.

Post do dia 7 de Janeiro

Policial falando a respeito do sistema carcerário, posicionando-se contrário à determinação da OAB de indenizar famílias de detentos assassinados no cárcere.

Total de palavras (tokens): 9206
Total de palavras distintas (types): 2407
Proporção palavras distintas/total: 0.261 (type/token ratio)
Total de kbytes de texto processados: 60 k (60814 letras)
Total de linhas de texto: 268
Tamanho mínimo considerado de palavras: 3 letras

 

Pos. Palavra Porcentagem Ocorrências N.de Documentos onde ocorre
4 verdade 2.96545 % 273 1
6 grande 2.922 % 269 1
7 palavra 2.91114 % 268 1
8 modesto 2.90028 % 267 1
9 profissional 2.90028 % 267 1
18 lula 0.40191 % 37 1
25 país 0.32587 % 30 1
33 bolsonaro 0.27156 % 25 1
34 esquerda 0.27156 % 25 1

 

Post do dia 11 de Abril

O parlamentar ironiza a deputada federal Maria do Rosário e outros colegas que tiveram pedidos de abertura de inquéritos autorizados pelo ministro do STF Edson Fachin, relator das ações da Operação Lava Jato.

Total de palavras (tokens): 6692
Total de palavras distintas (types): 1201
Proporção palavras distintas/total: 0.179 (type/token ratio)
Total de kbytes de texto processados: 45 k (45358 letras)
Total de linhas de texto: 374
Tamanho mínimo considerado de palavras: 3 letras

 

Pos. Palavra Porcentagem Ocorrências N.de Documentos onde ocorre
1 bolsonaro 6.052 % 405 1
2 kkkk 5.81291 % 389 1
4 lista 5.69336 % 381 1
6 novo 5.6037 % 375 1
10 mito 0.37358 % 25 1
11 não 0.35863 % 24 1
12 kkkkk 0.3138 % 21 1
14 risada 0.25403 % 17 1
15 kkkkkkk 0.23909 % 16 1
17 kkkkkk 0.17931 % 12 1
20 kkk 0.16437 % 11 1
24 presidente 0.14943 % 10 1
27 mitinho 0.13448 % 9 1


Post do dia 29 de Janeiro

Imagem de uma apoiadora de Bolsonaro segurando um cartaz que diz: “Bolsonaro me representa. Prefiro presídio cheio de vagabundo do que cemitério cheio de inocentes.”

Total de palavras (tokens): 6660
Total de palavras distintas (types): 2125
Proporção palavras distintas/total: 0.319 (type/token ratio)
Total de kbytes de texto processados: 41 k (41992 letras)
Total de linhas de texto: 394
Tamanho mínimo considerado de palavras: 3 letras

 

Pos. Palavra Porcentagem Ocorrências N.de Documentos onde ocorre
1 todos 6.2012 % 413 1
2 bom 5.96096 % 397 1
3 domingo 5.93093 % 395 1
6 bolsonaro 1.18618 % 79 1
9 presidente 0.94594 % 63 1
25 mãe 0.36036 % 24 1
26 você 0.36036 % 24 1
27 brasil 0.31531 % 21 1
28 seu 0.31531 % 21 1
29 esse 0.28528 % 19 1
30 meu 0.28528 % 19 1


Post do dia 19 de Janeiro

Bolsonaro sendo recepcionado no aeroporto de Confins, em Belo Horizonte.

Total de palavras (tokens): 6430
Total de palavras distintas (types): 1999
Proporção palavras distintas/total: 0.31 (type/token ratio)
Total de kbytes de texto processados: 42 k (42842 letras)
Total de linhas de texto: 388
Tamanho mínimo considerado de palavras: 3 letras

 

Pos. Palavra Porcentagem Ocorrências N.de Documentos onde ocorre
1 aeroporto 6.08087 % 391 1
5 bolsonaro 1.30637 % 84 1
8 presidente 0.7465 % 48 1
9 brasil 0.69984 % 45 1
18 meu 0.4199 % 27 1
19 mito 0.4199 % 27 1
20 nosso 0.4199 % 27 1
32 parabéns 0.31104 % 20 1
33 país 0.31104 % 20 1
37 você 0.27993 % 18 1
45 homem 0.21772 % 14 1
51 filha 0.18662 % 12 1
52 futuro 0.18662 % 12 1
57 lula 0.17107 % 11 1
62 esperança 0.15552 % 10 1
75 família 0.13996 % 9 1


Post do dia 8 de Novembro

Total de palavras (tokens): 6842
Total de palavras distintas (types): 1781
Proporção palavras distintas/total: 0.26 (type/token ratio)
Total de kbytes de texto processados: 46 k (46761 letras)
Total de linhas de texto: 349
Tamanho mínimo considerado de palavras: 3 letras

 

Pos. Palavra Porcentagem Ocorrências N.de Documentos onde ocorre
1 carioca 5.39315 % 369 1
2 gosta 5.14469 % 352 1
4 descontrair 5.11546 % 350 1
5 vamos 5.11546 % 350 1
6 alface 5.10084 % 349 1
7 salada 5.10084 % 349 1
8 tomate 5.10084 % 349 1
10 bolsonaro 1.40309 % 96 1
14 presidente 0.46769 % 32 1
15 mito 0.45308 % 31 1
17 muito 0.43846 % 30 1
28 kkkk 0.23384 % 16 1
38 kkkkkk 0.19 % 13 1
39 tem 0.19 % 13 1
40 isso 0.17538 % 12 1
41 mas 0.17538 % 12 1
42 0.17538 % 12 1
43 kkkkk 0.16077 % 11 1
44 kkkkkkkkk 0.16077 % 11 1


3.2 
Análise das palavras-chave

A partir do acesso às palavras-chave foi possível detectar palavras que constantemente se repetem e que podem ser associadas a certas temáticas de grande ocorrência no discurso do Bolsonaro – em grande maioria de temas polêmicos.

Um exemplo é a pauta do feminismo. Bolsonaro vive em constante briga com o movimento feminista, uma vez que ele não o respeita, tratando o movimento com ironia e desdém em seus discursos. Esse tipo de posicionamento, como já mencionado, incita a reação de uma legião de fãs que concordam com as opiniões expressadas, mas também de pessoas contrárias ao posicionamento.

Dentre as 9054 palavras que surgiram desses 50 últimos posts, a palavra mulher ocupa o 4º lugar de incidência, aparecendo 262 vezes. A palavra feminista ocupa o 7º lugar, com 254 aparições e ex-feminista o 9º com 253 aparições. São palavras que reaparecem com considerável frequência nos comentários dos outros posts também.

Temos também a incidência das palavras que mostram forte associação com a oposição, dentre elas: Lula, esquerda, bolsa e família. As palavras nordeste e relacionados, como nordestino, também são presença frequente. Isso permite inferir que na página do Bolsonaro o diálogo que se instaura conversa também a respeito de outros ambientes políticos. Deus e moral também aparecem muito, podendo associar-se ao caráter conservador do deputado.

Na análise de posts individuais as palavras que sempre sobressaem são Bolsonaro e Presidente, o que já é previsto uma vez que são posts com grande engajamento e são palavras que sugerem apoio a candidatura do deputado em 2018. Além disso, palavras-chave específicas relacionadas ao tema de cada post também se fizeram presentes.

3.3 Análise dos dados no Twitter

O Twitter é uma rede social marcada pela rapidez. Sendo assim, quando acontece algum fato muito marcante é interessante analisá-lo sob o viés do Twitter, uma vez que as reações do público serão quase imediatas. Ultimamente o cenário político do Brasil vem apresentando constantes mudanças e, como já reforçamos neste trabalho, é bem claro que as redes sociais refletem isso.

Analisamos as hashtags #Bolsonaro2018 e #Bolsomito, pela ferramenta Keyhole (http://keyhole.co/). A Keyhole é uma ferramenta que traqueia hashtags em tempo real, pois fornece um compilado de informações dos tweets das últimas horas. Além disso, o software gera gráficos automaticamente com os dados que costumam ser mais relevantes da pesquisa.  

Ambos os termos pesquisados são os mais relevantes sobre o tópico em questão atualmente, já que o primeiro deles representa o desejo e expectativa da parte da população que apoia o político, e a segunda representa uma certa “idolatria” desse segmento.

O gráfico a seguir mostra a quantidade de perfis de pessoas do sexo masculino e feminino na rede social que utilizaram a hashtag Bolsonaro2018. A diferença entre o número de apoiadores, nesta amostra – que reúne 191 tweets feitos entre as 15h e 23h horas do dia 01/06 -, evidencia o caráter machista do discurso de Bolsonaro que reverbera em seus apoiadores.

A seguir estão listadas as principais hashtags associadas com a #Bolsonaro2018. Os termos #foratodos e #foratemer, utilizados pelos usuários na mesma proporção, evidencia o posicionamento dos apoiadores de Bolsonaro de serem contra qualquer um dos representantes políticos da atualidade. Além disso, outras hashtags associadas como #lulanacadeia, #diretasso2018 e #dilmanacadeia deixam claras as bandeiras da extrema direita.

Ao mesmo tempo, a hashtag #batompodehomofobianao mostra uma dinâmica particular das redes sociais: ativistas e apoiadores de causas contrárias à homofobia utilizam a hashtag junto com #Bolsonaro2018 para contextualizar seus posts e deixar claro que, no contexto, o preconceito à comunidade LGBT está associado à figura do político.

Os dados demográficos da hashtag Bolsomito são mais equilibrados em questão de gênero. Uma hipótese que explica tal diferença em relação ao termo #Bolsonaro2018 é que a hashtag analisada agora é usada tanto por apoiadores quanto por opositores; o termo Bolsomito foi ressignificado e é utilizado de forma pejorativa em alguns momentos. É possível ver tal uso claramente nos tweets de exemplo a seguir, que foram listados pelo Keyhole como os tweets mais influentes com este termo no dia 01/06. Neles, o perfil @valehomossexual ironiza algumas frases comuns e preconceituosas.

4. Conclusão

Utilizando as teorias de Habermas como base, temos que um locutor deve buscar convencer seu interlocutor do que deseja a partir de argumentos racionais, ou seja, com base no diálogo, procurando o entendimento. Tal entendimento, no caso, não precisa ser a plena aceitação do que o locutor deseja — na verdade, ele deve gerar um debate ou discussão.

Hoje temos o meio digital como um novo local onde esse debate pode acontecer. Ao concluir a análise das redes sociais de Jair Bolsonaro fica claro que espaços como o Facebook e o Twitter estão caminhando para se tornar um tipo de esfera pública. Pensando que a esfera pública deve assegurar um diálogo não-coercitivo e permitir que os participantes exerçam sua autonomia, para que sustentam diante dos outros suas opiniões e interesses, é possível enxergar as redes sociais fazendo esse papel.

Em movimento e ocorrendo plenamente, portanto, a ação comunicativa que acontece nas redes sociais pode se tornar esfera pública, um espaço de fala e diálogo. Esfera essa que só existe, portanto, ao se apoiar no uso da linguagem — um sistema de códigos, símbolos e signos que utilizamos para que esta comunicação seja gerada.

Nesses debates, muitos discursos podem ser utilizados considerando que o discurso, em um sentido social mais amplo, é a organização de nosso dizer carregada de elementos de nossa experiência e que comunica um conteúdo a partir de um pensamento ideológico — como é o caso do discurso machista de Bolsonaro, por exemplo.

Por outro lado, vivendo um contexto político de pós-verdade, a credibilidade dos discursos que encontramos nas redes sociais deve sempre ser questionada. Estamos presenciando a cultura dos afetos dialogar com a opinião pública no que tange a política.

Na era da “pós-verdade”, os dados estatísticos e a argumentação racional cedem seu protagonismo em prol das emoções nos assuntos públicos. Imigração, economia, educação, enfim, tudo aquilo que nos afeta na vida social seria, a partir de agora, submetido a um elegante étimo composto que, longe de parecer fruto de uma refinada filosofia contemporânea, não vai muito além de um novo estágio do velho e bolorento relativismo dos sofistas gregos.  (FERNANDES, André. 2017)

Para Medeiros (2017, p 23) o fenômeno da pós-verdade produz  sinais de alerta inquietantes, principalmente nas mídias sociais.

Apresentar convicções com base em desinformações pode ser compreensível, mas oferece riscos. Quando ninguém acredita mais que exista uma verdade, ou algo aproximado, quando o que vale é simplesmente acreditar na sua própria razão, parece que a verdade está sendo abolida ou expulsa da convivência social. (MEDEIROS, Armando, 2017, p.25)

No enunciado de Bolsonaro fica claro o apelo para o emocional do público. Seu discurso exagerado e nacionalista foi capaz de atrair uma legião de fãs que aparentemente compactuam com os valores do deputado.

Contudo, é o caso de pessoas apresentando convicções que muitas vezes são baseadas em desinformação. Seus apoiadores não hesitam em reproduzir os mesmos posicionamentos e que o que está sendo ali defendido está presente não somente nos discursos, mas também em nuances políticas – como o fato de que grande parte dos divulgadores da #Bolsomito2018 são homens, lado a lado com as acusações de machismo do político.

Nesta nova era, as verdades universais são abandonadas e a ideia da objetividade é rejeitada, inclusive quando sustentada por dados evidentes. Os indivíduos se sentem capazes de construir, de forma independente, suas próprias verdades e crenças – seus próprios deuses, na medida – e de valores que, em outros momentos, pareciam indiscutíveis. As fórmulas anteriores para questionar o corpo social com argumentos e lógicas discursivas caem no vazio – já não significam nada – e passam a ser substituídas por frases curtas e efetivas e imagens sugestivas, como novas fórmulas que estimulam as cordas emocionais e que apontam para o medo e para a ironia. (ANGELIS, Carlos, 2017, p.38)

Em vista disso, a crítica que se instaura é que talvez as redes sociais deem a impressão de que estão criando um espaço para debate, mas construindo uma falsa ilusão de segurança para o emissor da mensagem, quando muitas vezes o autor de determinada opinião não a sustenta na vida real. Dessa forma, alguém que apoia o conteúdo de Bolsonaro nas redes, possivelmente não seguiria com isso fora do mundo virtual, dado o caráter extremista das opiniões em questão. É a falsa noção de distanciamento que permite que nas redes sociais o discurso seja aplaudido e replicado.

Portanto, não é possível saber ainda se esse engajamento se traduz em intenção de voto, até mesmo porque grande parte da movimentação nas redes sociais do Bolsonaro é feita por pessoas que não concordam com os discursos ali proferidos, além daquelas que, como dito acima, não se mantém apoiadoras na vida real.

Contudo, considerando que a análise feita foi no meio digital, utilizando os dados coletados é possível perceber um crescente número de pessoas com o posicionamento de extrema direita, apoiando o pré-candidato e replicando aspectos de seu discurso que podem ser preocupantes. Trabalhando as palavras-chave do conteúdo analisado, conseguimos encontrar pessoas endossando o teor machista, homofóbico e extremista de seus posicionamentos via redes sociais. A questão que fica é se tais pessoas levam esses posicionamentos para fora do digital, ou se ali estão sendo construídos discursos vazios, sem intenções reais de ação.

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Júlia Vasconcelos e Raíssa Galvão
são alunas do curso de Comunicação Social da UFMG.

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