Burlando o tráfego

Eu voltei para casa de carona com E., depois de ele ter consumido uma dose de café com rum que tinha, pelo menos, um quinto da bebida alcoólica, o necessário para qualificar uma infração no teste do bafômetro. Foram trinta minutos de trajeto e passamos por uma patrulha da Polícia Militar. Não fomos parados.

E. tem 22 anos e é acupunturista, entre outras ocupações. Ele tirou a carteira em 2009 e, em menos de um mês, dirigiu embriagado. Com quatro anos de habilitação, ele diz que é mais responsável e tenta controlar as vezes que bebe e dirige. “Quando eu saio, eu deixo de estar bêbado antes de todos os meus amigos. Levo eles em casa e, quando eu faço isso, eu uso o Waze.” Eu pergunto se ele não corre mais risco levando, levemente embriagado, os amigos completamente bêbados. E. ri e responde que “é por uma boa causa”.

O Waze é uma rede social de motoristas que trocam informação sobre o trânsito da cidade entre si. São cerca de cinco milhões de brasileiros, o que representa, pelo menos, 10% dos usuários em todo mundo. O Brasil é o segundo país com maior representatividade no aplicativo de smartphone. Os alertas de congestionamento, acidentes, bloqueios e presença policial são visualizados em mapa, que funciona como um navegador GPS.

O uso do aplicativo para fugir de blitz de Lei Seca assustou a executiva de parcerias globais do Waze Di-Ann Esnor. Para ela, os brasileiros eram o único público que usava massivamente a ferramenta para fugir da polícia. Existe, inclusive, uma censura na loja norte-americana da Apple para os aplicativos que ajudam, de alguma forma, a “burlar a legislação”.

“Eu não uso constantemente. Só verifico se tem blitz no caminho de casa quando eu estou esperando no sinal ou se eu estou com o carro estacionado.” Já se passaram mais de uma hora desde que E. ingeriu álcool, mas não dá para saber ao certo em quanto tempo a substância sai do organismo. O sexo, idade e tamanho corporal são alguns fatores que influenciam não só na ingestão da bebida, mas também da resistência e autocontrole.

Mesmo assim, desde janeiro de 2013, a lei é rígida para as mínimas quantidades de álcool no corpo, verificadas pelo teste do bafômetro. O motorista que tiver resultado entre 0,05 e 0,34 miligramas de álcool por litro de sangue — equivalente a uma latinha de cerveja, ou uma taça de vinho, ou uma dose de destilado  — é infrator, recebe multa de R$ 1.915,30, perde carteira de habilitação e tem o veículo retido pelos militares. Acima de 0,34mg/l, o motorista é preso em flagrante.

Quem recusa fazer o teste do bafômetro ou quem apresenta qualquer sinal de debilitação ainda podem ser autuados pela PM e acabar na delegacia através do depoimento do policial, testes clínicos e até vídeos gravados na abordagem. É muito mais fácil provar uma infração ou crime para quem dirige sob efeito de álcool, drogas ou qualquer outro entorpecente.


E. me conta que se sente menos capaz de dirigir depois de tomar analgésicos do que depois de beber. “Existem coisas que podem ser mais perigosas que o álcool. Quando eu bebo, me esforço para prestar atenção. Uma vez, dirigi depois do oftalmologista. Não consegui ver nada, foi bem pior que beber.” Ele já bateu o carro e se envolveu em um acidente com um motociclista. Nenhuma vez, no entanto, estava bêbado e também nunca foi parado em uma blitz.

Universitária, de 21 anos, S. também teve a sorte de passar longe da PM quando estava embriagada ao volante. Sempre dirigindo em distâncias próximas de casa, o Waze foi quem a trouxe para casa com a reputação imaculada na carteira de motorista. “Acho que quem tá bêbado nem lembra de ligar [o Waze], mas eu uso, sim. É uma neura tão grande, que eu fujo de blitz até quando eu não bebi. Sempre olho por desencargo de consciência.”

Existe uma certa ética alcoólica na hora de pegar no volante, ela me conta. “Quando eu quero sair para encher a cara, eu não vou de carro, de jeito nenhum.” S. explica que decide se vai de carro ou não só depois que já sabe o que vai fazer e aonde vai sair. Se não for perto de casa, é táxi. “Tem gente que não bebe porque tem medo de blitz. Eu tenho medo é de matar alguém.”

O trabalho de quem fiscaliza

Já a Polícia Militar não aprova qualquer tipo de ferramenta que monitore suas ações e o Waze é uma delas. De acordo com o tenente do Batalhão de Trânsito da PM Rômulo Assis, o aplicativo contribui para facilitar ações de infratores e aumentas as chances de impunidade. “Na cabeça dessas pessoas, é para ajudar outros motoristas, mas eles podem é ajudar criminosos.”

Em abril deste ano, a Polícia Civil de Minas Gerais tentou pedir na Justiça a identidade dos usuários do Twitter que enviavam conteúdo — cerca de 16 mil mensagens — para a página do @blitz_bh, que informava sobre as patrulhas da Lei Seca na capital. Os dois criadores da página chegaram a ser ouvidos na delegacia e liberados. Além da página, os policiais afirmaram estar monitorando outras redes e, inclusive, já estavam de olho no crescimento do Waze entre os usuários belo-horizontinos.

Reportagem

Lucas Afonso Sepulveda

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