Cio da terra: a filosofia por trás da agricultura familiar sustentável

A filosofia da agroecologia e como o mercado da agricultura orgânica e familiar vem se configurando na região metropolitana de Belo Horizonte

Feirantes lendo

Feira Terra Viva em Belo Horizonte [Foto: Ana Cláudia Maiolini]

Pequenos agricultores que cultivam alimentos sem agrotóxicos, com atenção às fases da lua e uso de compostos de esterco de vaca e galinha. Uma imagem de sonho e bucolismo para alguns, de atraso para outros, que muito se diferencia do modelo de agronegócio das revistas de bussiness e das ideias de desenvolvimentismo econômico. Porém, trata-se de uma realidade e um mercado que vêm se expandindo em todo o Brasil.

Em Minas Gerais, são várias as iniciativas que confirmam o crescimento das culturas orgânicas e agroecológicas – desde cooperativas, feiras autônomas e grupos de consumo responsável até hortas de apartamento e serviço de entrega de produtos ambientalmente sustentáveis. O Mapa de feiras orgânicas, formulado pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, contabiliza mais de 25 desses empreendimentos no estado, sendo 12 deles nas proximidades de Belo Horizonte.

GIF Produtos Orgânicos

O pequeno como filosofia de vida

A agricultura familiar orgânica ou agroecológica costuma se alinhar a uma filosofia de vida que reverencia o pequeno, o local e o humano, se expandindo para outras questões além da alimentação. Trata-se de uma postura de economia solidária, que  pensa na  produção e no consumo de modo ambiental e socialmente sustentável.

O caso de Elias Caetano de Oliveira Barbosa ilustra a relação entre essa visão do mundo e o agricultor familiar. Estudante de Filosofia da UFMG, Elias vende pelos corredores da Universidade os cogumelos comestíveis cultivados por seu pai, Gustavo Barbosa. A comercialização dos fungi se dá em benefício da Pró-Vida, instituição que trabalha com a reabilitação de dependentes químicos. “A principal profissão de meu pai é psicólogo, mas sua principal fonte de renda é o cultivo dos cogumelos, sendo que ela vai para a comunidade terapêutica. Do dinheiro que entra no caixa da comunidade, ele tira um salário de psicólogo”, explica Elias. Sua clientela é variada: vai desde os estudantes da Fafich até restaurantes de culinária japonesa, apesar da produção não passar de 1.000 bandejas por semana, considerada baixa por ele.

Daniela Leonel, agricultora há 4 anos, considera que o orgânico eleva ainda mais a importância do plantio. “Quando você pratica a agricultura, percebe que é algo extremamente bonito de se trabalhar. Produzir o seu alimento, de ter esse contato direto, de poder fornecer isso a outras pessoas, outras famílias. O orgânico enobrece mais ainda, porque você, além de estar produzindo, está produzindo de uma forma saudável. Então este é o nosso grande legado”, conta. Ela e o marido trabalhavam no meio corporativo e, em busca de qualidade de vida, optaram pela agricultura.

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Segundo Daniela, o retorno da atividade em termos de sociabilidade tem sido perceptível e gratificante para o casal, tanto com os funcionários e trabalhadores parceiros, quanto com a família e os clientes.

Patrícia Montes de Pádua, produtora da Feira Terra Viva, espaço que vende produtos agroecológicos em Belo Horizonte semanalmente, também destaca o aspecto social da agricultura familiar: “Quando a gente pensa em um produto agroecológico, pensamos não só que estamos deixando de colocar veneno na terra: estamos agregando uma família que vive daquele produto, agregando todo um valor social”.

Políticas públicas de incentivo existem, mas falham

Feira

Feira Terra Viva em Belo Horizonte [Foto: Ana Cláudia Maiolini]

Nas bancas de feira ou gôndolas de supermercado, os preços dos produtos da agricultura familiar se sobressaem em relação aos convencionais – no caso de produtos orgânicos, as diferenças chegavam a até 463% em 2010, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). A falta de canais de comercialização também é um empecilho para o consumo, como conta a economista Elisa Queiroz Teodoro, que prioriza alimentos ecologicamente sustentáveis em sua dieta: “minha maior dificuldade é de achar o produto. O valor também é um desafio, mas acho que vale a pena pela saúde”.

Se comprar do orgânico e do agroecológico traz esses desafios, as políticas públicas dos governos têm o importante papel de reverter a situação. Nessa linha, há iniciativas como o Programa Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo), que diagnostica o cenário da agricultura brasileira e traça as diretrizes, metas e iniciativas da articulação institucional na área. Outro projeto nacional é o Plano Safra da Agricultura Familiar, cujo objetivo é trazer oportunidades para a juventude rural e estimular a produção de alimentos saudáveis, que contribuem para o controle da inflação.

Feira Viva em Belo Horizonte [Foto: Ana Cláudia Maiolini]

Feira Terra Viva em Belo Horizonte [Foto: Ana Cláudia Maiolini]

Antônio Ribeiro, produtor rural e vendedor na Feira Terra Viva, sente de perto a realidade das políticas e investimentos estatais – que, segundo ele, não passam do discurso de valorização. “O próprio governo diz que a agricultura familiar responde por 70% de toda a alimentação da mesa do brasileiro. Mas, infelizmente, isso não reverte em recurso. Recurso é exatamente o oposto: na hora que tem dinheiro, é pouco, e o pouco dinheiro que tem ainda vão cortar agora com esse golpe que teve, com essa discussão da emenda PEC 241”, opina, em referência à Proposta de Emenda Constitucional promulgada em dezembro de 2016 que restringe os gastos públicos.

À direita, o produtor rural Antônio Ribeiro na Feira Terra Viva de Belo Horizonte [Foto: Ana Cláudia Maiolini]

À direita, o produtor rural Antônio Ribeiro na Feira Terra Viva de Belo Horizonte [Foto: Ana Cláudia Maiolini]

Antônio planta na cidade de Nova União, em uma área de assentamento rural (conjunto de unidades agrícolas independentes entre si) estabelecida pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Segundo ele, a maioria dos produtores se assentou há quase 11 anos na região, mas, devido à morosidade do governo, eles ainda não têm acesso às políticas públicas de reforma agrária, crédito e moradia às quais têm direito.

Em Belo Horizonte, a produtora rural Daniela Leonel alerta também para a falta de incentivo da prefeitura, principalmente na forma de boas oportunidades de venda dos produtos orgânicos – em iniciativas autônomas, o custo para os feirantes pode chegar a 30% sobre o valor dos produtos vendidos. “Hoje nós temos pontos de venda, mas não temos uma feira grande, com vários produtores. Estamos aguardando há mais de dois anos nova licitação de feiras orgânicas da Prefeitura, e até hoje não conseguimos. Isso é necessário. Se tiver mais incentivo, outros produtores vão se sentir interessados a fazer a transição do convencional para o orgânico”, explica.

Com a palavra, o consumidor

O consumidor também é peça fundamental para entender o cenário da agricultura familiar. Para saber um pouco mais sobre o que eles pensam a respeito das questões envolvidas no plantio, comércio e consumo dos produtos orgânicos, entrevistamos alguns visitantes da segunda edição da Feira Agroecológica da UFMG, realizada  pelo Departamento de Gestão Ambiental na Praça de Serviços do campus Pampulha, em outubro de 2016. Confira o vídeo:

Grupo: Ana Cláudia Maiolini, Bárbara Bianca Leonel, Beatriz Cordeiro, Isadora Ferreira e Olívia Binotto.