Coisas para botar para fora: o hip-hop conquistando novos públicos

Como o rap consegue manter seu caráter de denúncia e lidar com um público de massa.

A matéria para os impacientes:

Na Casa da Referência à Mulher Tina Martins

Quando entramos na Casa da Referência à Mulher Tina Martins, somos recepcionados por um cheiro de comida. As mulheres do movimento estão cozinhando no pátio do local. Embora funcione há apenas três semanas no novo local, os quartos são decorados com móveis acolhedores, almofadas coloridas e guirlandas. Automaticamente, nos sentimos bem-vindos lá, na casa verde, cheia de mulheres das mais diversas.

Uma delas é Natalia Avelar, 18 anos. Ela faz parte do movimento Olga Benário que se organiza dentro da Tina Martins. Fora da casa, ela é também cantora de rap. Por meioa de seu pai, obteve seus primeiros contatos com o rap brasileiro desde muito jovem. Para ela, sua atividade política e o processo criativo são indissociáveis. Os eventos de hip-hop em BH influenciaram muito sua paixão pelo feminismo.

“Nós mulheres aprendemos a não dizermos o que nós achamos”

Segundo Natália tanto o palco como o duelo são espaços de exposição muito grandes: “quando se está no palco as atenções estão todas voltadas pra si, e nós mulheres aprendemos a não dizermos o que nós achamos. Esse desafio demanda um trabalho de criar autoestima, não ter medo de pisar ali e mandar nossas letras. Isso é forte, porque é um rompimento grande com a imposição que nos é dada de ficar em casa, sendo ‘belas, recatadas e do lar’. É uma resistência muito importante porque motiva outras pessoas a fazerem também. Eu vi muitas mulheres começando e que acabaram virando referência pra mim. Tem uma música do Racionais que diz que por você ser preto você tem de ser duas vezes melhor, eu digo que pra você ser preta e mulher você tem de ser quatro vezes melhor pra ser aceita.”

Conheça melhor a Tina Martins

Infográfico_Juarez

Juarez Dayrell, professor na Faculdade de Educação da UFMG, começou a pesquisar os movimentos socioculturais da juventude nos anos 90. Ele afirma que, para entender o jovem, a música é um bom meio. “Fui percebendo que o professor conhecia muito pouco do jovem aluno, além da escola. Como se o mundo da escola dividisse a vida do aluno”. Assim, ele começou a pesquisar a interferência do hip-hop e do funk na vida dos jovens belo-horizontinos. Mas, desde então, o jovem, e com ele o movimento hip-hop, mudaram muito.

O hip-hop – um estilo de vida

“Antes, eram grupos muito fechados, não era qualquer um que chegava mandando rap e improvisando rimas, você não conseguia juntar o público que a ‘Família de Rua’ consegue hoje no duelo.”  Segundo o professor Dayrell, o movimento, hoje em dia, é mas aberto para novos membros, isso modificou a sociabilidade da cena, é mais um estilo de música do que um estilo de vida: “Antes, era mais restrito, menos difundido, mas tinha uma dimensão da cultura muito mais forte: Quem era, era mesmo. Começava desde as roupas, ter um estilo próprio.”

Cópia de Foto Juarez

Desde o início do hip-hop, o movimento tentou ocupar o centro de Belo Horizonte, onde tinha mais visibilidade para fazer suas denúncias e levar suas mensagens políticas. Começou no coreto da Praça da Liberdade – no início dos anos noventa, um lugar tradicional onde ainda se faziam presentes as instâncias administrativas de poder do estado de Minas Gerais.  A partir daí o hip-hop marcou presença permanentemente dentro das margens da Avenida do Contorno, ou seja, da cidade projetada. O espaço mais conhecido pelos moradores e frequentadores da cena hip-hop é o Viaduto de Santa Tereza. Lá, a “Familia de Rua” organiza o Duelo de MCs todos os domingos.

Do viaduto à Praça da Estação houve muitas mudanças desde então – sobretudo por causa dos vários eventos nesse espaço que comporta a Rua Aarão Reis, cada vez mais abertos para outro público, da região Centro Sul, estudantes, apreciadores do rap. Dayrell considera o movimento de hoje mais diluído, dentre outras razões pela inserção desse novo público. Mas o motivo dos eventos, a marca da denúncia, a luta de classes e o esforço para ocupar novos lugares centrais, para demarcar espaço, permaneceram como as preocupações maiores do rap.

Em busca de novas referências

O próprio hip-hop, segundo Dayrell, tirou proveito deste novo público, da comercialização como estilo musical mais aberto às influências de fora: “Para ser mais palatável, ele veio se tornando mais amaciado. Um lado muito interessante que é a apropriação e ressignificação de uma multiplicidade de estilos musicais mesmo. No rap, por exemplo do Renegado, um dos poucos de Minas que alcançaram visibilidade nacional, se vê que ele faz uma apropriação de estilos musicais variados. Tem um lado riquíssimo dentro da cultura musical.”

Infográfico_DuelodeMCs

Natália considera que esse processo foi importante para o movimento, no entanto o que se percebe atualmente é uma discussão acerca do hip-hop se descentralizar novamente: “Reunir todo mundo num lugar central foi importante pra que todos se mantivessem juntos, mas hoje existe uma necessidade de descentralizar novamente, cada um se organizar na região que está pra que se torne mais acessível pra aquelas pessoas dos seus próprios bairros, se organizando nas suas próprias quebradas sem se deslocar muito”.

A ausência do viaduto Santa Tereza para a realização de duelos no ano de 2013 por conta de uma reforma da prefeitura demandou que outros espaços fossem utilizados com tal finalidade: “Começaram a surgir várias batalhas e duelos em outras quebradas da cidade, e isso é muito importante porque renova as pessoas que frequentam, dá uma potência maior das informações que nós queremos passar. Quanto mais a gente puder fazer isso melhor, o centro tem seu lugar, mas a gente prefere a margem, porque estar à margem diz mais da proposta que nós queremos ter.”

Mesmo com esse novo público, segundo Juarez o movimento ainda é estigmatizado como coisa de “preto, pobre e favelado”:  “O fato de ser difundido não diminui o preconceito, ele é mais profundo do que a própria difusão da música. Esse preconceito se mantém a partir de relações que nos remetem à escravidão, que mantêm posições de privilégio ancoradas em padrões estéticos excludentes. Existe uma dimensão política no hip-hop, no sentido de contrapor. A riqueza está em não perder o caráter contestatório, sem que seja apropriado pela indústria cultural.”

O que significa o hip-hop para os jovens da cidade?

Da periferia aos Grandes Palcos

Guilherme Almeida Abu-Jamra, 25 anos, mais conhecido como Abu é rapper e DJ nas noites belo-horizontinas, enquanto de dia é estudante de antropologia na UFMG. Também membro de vários movimentos ligados à cultura. Nós o encontramos no “milharal” da FAFICH, como escrito na pichação numa parede do lugar que hoje é fechado. É um local significativo de resistência estudantil no prédio de ciências humanas da universidade. Abu começou a imergir no mundo do hip-hop desde muito cedo. Desde adolescente é curioso no que diz respeito à música. Cresceu ouvindo Racionais, Sabotage e Tupac. Ele é um exemplo da ampliação do hip-hop. Tanto Natália quanto Dayrell afirmam, que a maioria das atividades do rap ainda acontecem na periferia, Abu adquiriu suas primeiras experiências como cantor nesses espaços. Há três anos, ainda começando a escrever suas próprias letras, Abu cantou no conjunto habitacional popular “Santa Maria”. Foi quando conquistou a recepção do público e quase acabou com a timidez e insegurança: “Foi uma série de MCs que cantaram. Eu era o único que morava na região central, e o único branco também que estava cantando nesse dia especificamente. A recepção foi muito doida lá, eu tinha esta barreira na minha mente: Nossa, o que a galera vai pensar? Mas eu vi que este bloqueio não deveria me intimidar. Então eu acho que essa questão do público é muito mais complexa que a gente pode imaginar.”

Hoje, já com trabalho mais consistente, ele está aproveitando a infraestrutura disponível para o rap na capital mineira. Como melhor show até agora, que o ajudou muito a ganhar mais confiança como artista, Abu menciona o evento “Vai tomando Sabotage” na Serraria Souza Pinto – ao lado do emblemático Viaduto Santa Tereza, onde começou a vida do hip-hop para ele. Lá, ele se apresentou junto com Matéria Prima e Fumaça, duas de suas referências. Esse evento foi simbólico por ter sido realizado ao lado do viaduto. No entanto, na Serraria, local que costuma receber shows e eventos frequentados por vários segmentos da sociedade, mas que costumam se chocar com o que ocorre do lado de fora, no espaço que comporta o público da cena hip-hop. O rap teve suas portas abertas no dia desse evento e contou com um público disposto a pagar ingresso para ter acesso àquelas apresentações.

A sensação que rola

Embora tenha mais possibilidades de se apresentar frequentemente e para um público mais amplo em Belo Horizonte, Abu acha quase impossível sustentar-se só do rap. “A vontade existe, mas acho que requer um esforço muito grande de abrir mão de várias coisas, focar apenas na carreira artística. Não sei se estou preparado para lidar com uma coisa que eu acho que tem a ver com outras questões além de confiança e qualidade sonora.”

Agora, ele achou um novo vínculo dentro do hip-hop – dando aulas de rap para adolescentes na região da Serra do Cipó, reforçando a presença do rap fora do centro de BH, e mantendo viva a tradição da denúncia para as próximas gerações de MCs.

“É difícil fazer uma autoanálise da performance, da presença de palco mesmo, é um negócio que ainda estou buscando: qual  é a minha cara? Qual é a minha consciência como artista? Mas eu acho que o que me estimula é a sensação que rola. Uma energia muito massa de pessoas que estão me recebendo no espaço, coisas para botar para fora que eu não consigo colocar de outra maneira.”

Conheça melhor o trabalho de Abu

Equipe

Maike Wiechert e Davi Figueiredo.

2 comments

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