Com Jenkins, nova visão da tecnologia

Relatório final da disciplina ‘processos de criação em mídias digitais’: Nova visão da tecnologia, por Carol Prado

 

À primeira vista, o nome ‘processo de criação em mídias digitais’ pode parecer duas coisas: ou uma aula que, na prática, te ensine a criar produtos para as mídias, ou um estudo sistemático sobre as mídias digitais. Na minha percepção, agora, quase concluindo a disciplina, é que o nome na verdade lhe cai muito bem. ‘Processos de criação em mídias digitais’ não diz respeito ao fazer as mídias – vídeos, memes, e todos os artifícios que consumimos todos os dias – mas mais sobre como interagimos e ressignificamos, o que compartilhamos, como nos portamos diante dessas mídias, o que essa mídia exige de nós.

Henry Jenkins, em seu livro, cultura da convergência, utiliza um slogan impactante e assustadoramente pertinente nos dias de hoje: “Tenho três segundos para impressiona-lo”. Se você não gostou do meu primeiro parágrafo, ou das primeiras linhas desse relatório, não o lerá até o final. E isso não diz respeito apenas a relatórios. Diz respeito a filmes, a música, a livros… bem, basicamente a tudo. Eu me arriscaria dizer, até em relações interpessoais.

Confesso que nunca havia pensado tecnologia da forma que vejo agora. Desde teorias da conspiração até fatos comprovados, estamos sob constante observação. A câmera frontal do meu celular me vigia enquanto perco meu tempo no facebook, a webcam do meu computador me registra enquanto escrevo nele, nas ruas, sou filmada por diferentes câmeras, em diferentes lugares por diferentes pessoas. Onde foi que eu assinei isso? Quando foi que eu permiti que me vigiasse, gravassem, fotografassem? A imagem está se tornando banal, como se fosse algo de domínio público. Mas não há muito que se esconder, não há muito do que se safar. Resolvemos questões importantes por e-mail, whatsapp, quase não se usa mais ligações telefônicas. Estou na porta da casa de um amigo? Mando uma mensagem para que ele venha abrir o portão. Estou me sentindo triste? Escrevo uma poesia para o Tumblr, compartilho um status no Twitter.

Gosto bastante das comparações e considerações que Jenkins faz, colocando produtores e consumidores como “participantes interagindo de acordo com um novo conjunto de regras, que ninguém entende por completo”. Principalmente nós, comunicadores, temos uma necessidade de existir nesse mundo tecnológico de uma forma mais completa. Queremos experimentar as opções, descobrir o que há de novo, quais as possibilidades, qual o papel de um comunicador (que precisa ser cada vez mais versátil, num lugar onde todos acreditam se encaixar em um papel de comunicador) no mundo globalizado, convergente, completamente novo.

Discutimos sobre hacker ativismo, internet das coisas, redes sociais, diferentes plataformas com diferentes necessidades midiáticas – uma revista com fotos e texto corrido, uma reportagem num site com áudios e vídeos.

Antes, eu tinha uma ligeira impressão de que sim, os robôs dominariam o mundo um dia. Mas agora, eu acho que já somos dominados por eles, mas é um tipo de dominação passiva – a aceitamos e gostamos dela. Mas não são exatamente robôs. É uma vida que criamos para nós mesmos na internet, através de redes sociais, blogs, vlogs e tudo mais. O facebook me assusta, particularmente. Percebo, pelos amigos mais próximos, como são entre o real e o digital. É como se assumissem uma persona diferente, como se, online, pudessem ser pessoas diferentes do que são na realidade. Esses limites se confundem, e é essa a parte assustadora.

Ao mesmo tempo, existem pontos muito positivos. Usando um exemplo palpável: Algumas semanas atrás, estudantes da UFMG combinaram, via facebook, de cantar a música ‘evidencias’ no restaurante universitário. A quantidade de pessoas que participaram foi imensa. Se podemos nos mover por algo tão pequeno, o que poderíamos fazer com um grande objetivo em mãos? (Isso foi até um comentário que minha mãe fez quando mostrei para ela o vídeo, achei a reação dela fantástica.)

Aqui entra outro problema: o individualismo. Estamos cada um atrás de suas telas, escrevendo, discutindo, postando fotos. Hoje, a interação real é trocada facilmente pela virtual. É uma fuga constante da realidade. Se estamos num lugar que não queremos estar, ficamos grudados no celular. Se estamos num lugar que queremos estar, ficamos com o aparelho ao alcance das mãos e dos ouvidos, para eventuais notificações importantes.

Para finalizar, ainda com Jenkins, ele comenta: “Entretenimento não é a única coisa que flui pelas múltiplas plataformas de mídia. Nossa vida, nossos relacionamentos, memórias, fantasias e desejos também fluem pelos canais de mídia”. Essa sociedade líquida da qual fazemos parte, parece cada vez mais líquida, quase gasosa. Não há um lugar onde se apoiar, e tudo que conhecemos pode mudar com um insight e uma nova grande descoberta em algum lugar do mundo. Talvez já exista a cura para o câncer. Talvez as crianças da África pudessem não estar morrendo de fome, e as crianças da China não fossem vítimas de trabalho escravo. Talvez das pessoas na Coreia do Norte pudessem ter acesso a internet, e os brasileiros, um salário mais condizente com a realidade financeira do país. Tudo isso é um grande jogo de poder. E sua grande parte possibilitado pelas novas tecnologias – cito como exemplo as informações de que o governo dos Estados Unidos grampeava telefones de várias partes do mundo, inclusive de seus próprios cidadãos – ou pelo não uso delas – como na Coreia do Norte.

Sobre a tecnologia, a convergência, o papel dos comunicadores e até onde as redes sociais nos levarão, existem muitas perguntas e poucas respostas. Por enquanto, vou tapando a webcam do meu computador, e tentando ler os ‘termos e condições’ dos aplicativos que baixo em meu celular.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 comments

  • Helena Rodrigues

    A leitura, ainda que não do livro em sua totalidade, de “Cultura da Convergência” também foi um marco muito significativo para as reflexões que fiz ao longo da disciplina “Processos de criação em mídias digitais”. O pensamento de Jenkins rompe com uma lenda que circunda o processo tecnológico e que, confesso, já muito me intrigou. Eu me perguntava: será que as novas plataformas de comunicação substituem as antigas? Nesse sentido, ler sobre a convergência multimidiática dos mecanismos, dentro da visão pluralista do autor, muito me confortou. Gostei muito de fazer o movimento de tentar enxergar o estabelecimento de novos paradigmas de comunicação e a reinvenção dos suportes de mídia sempre de maneira complementar e de forma a proporcionar novas significações (tanto técnicas, quanto socioculturais).

    Pensar essa mudança de paradigma no consumo de informação e entretenimento, fez com que eu enxergasse o avanço da mídia não como uma tecnologia apenas, mas como um fenômeno determinante das relações sociais – e que transforma inclusive a maneira com as quais as pessoas se apropriam da comunicação. Quando li tudo isso que passou com vocês ao longo do semestre, percebi que, com Jenkins, eu entendi que convergência dos meios, cultura participativa e inteligência coletiva são talvez três conceitos fundamentais para o que eu entendo hoje por comunicação contemporânea (isto é, dentro desse cenário transformado pela renovação e reinvenção infinita dos meios e conceitos).

    Quando penso nas chamadas atualmente por redes sociais, fico pensando até que ponto elas realmente representam um advento enquanto “redes sociais” (no sentido de um significado sociológico). Redes sociais, se pararmos para pensar, existem desde quando os primeiros estabeleceram relações afetivas e conseguiram demonstrar isso de maneira objetiva segundo códigos compartilhados. Os atuais espaços virtuais agregadores de pessoas e perfis talvez representem, então, apenas um novo terreno que amplificou a característica inerente aos seres humanos de comunicar e estabelecer relações entre si e com as coisas mundanas.

    A Internet é mais um lugar no qual as pessoas podem se encontrar. Ao longo do semestre, acho que discutimos coisas muito interessantes sobre especificidades e regras desse campo, bem como desdobramentos e reflexões das ordenações e dos relacionamentos nele e por ele estabelecidos. Percebo que o ambiente digital é mais um espaço que permite a prática social. E ele – vale ressaltar -, enquanto um sistema, tem estruturas e mecanismos próprios, com os quais estamos aprendendo a lidar para conseguir expandir ainda mais nossas possibilidades de interação e difusão de informações.

    Para mim, ficou, pois, a importância de perceber não o impacto da cultura da convergência sobre tecnologias, mas sobre estruturas de comunicação. Com as novas plataformas, surgem ambientes que proporcionam interações humanas em perspectiva multimídia. Além disso, discursos são criados e reconfigurados em um espaço que está em constante transformação. Nele, realmente, há controvérsia, complexidade, controle, dominação, vulnerabilidade e exposição, mas também há releitura, revisita, diálogo, complementaridade, cooperação e ressignificação.

  • leticiaalmeida

    Que sensacional! Esse texto fez quase uma linha do tempo da matéria. Lembro no primeiro dia de aula quando, logo após a Fredu explicar um pouco de como a disciplina funcionaria, a grande maioria da sala se mostrou bastante surpreendida por ser uma matéria mais teórica e não tão prática sobre o fazer das mídias, como você coloca. No fim das contas, acabou que foi um híbrido, né? E o mais legal foi que, em todo momento, nos colocamos dos dois lados: do nosso, “vulneráveis” aos processos midiáticos, redes sociais e termos de usos, e daqueles que estão por trás disso (como foi na última experimentação, por exemplo, que tinhamos que desde desenvolver até julgar a criação de uma nova tecnologia de identificação).
    Me identifiquei muito com tudo escrito aqui porque, ao se aproximar do fim da matéria, me sinto totalmente expandida em relação a forma de enxergar e entender as mídias e o que as envolve. Talvez elas possam dominar o mundo, como tanto se fala, mas…. se elas já estiverem fazendo isso sem que a gente se dê conta? Taí ai o facebook e o google pra nós deixar com a pulga atrás da orelha. Não serão grandes robôs que imitam o homem, com pernas, braços, movimentos e uma “racionalidade” programada que irão comandar o planeta, mas, muito provavelmente, ferramentas e utilitários que facilitam nossa vida mas, ao mesmo tempo, controlam ela. Pra quem, como e porquê são questionamentos que, ao longo do tempo, estamos e vamos descobrindo. Mas, como para todo mal há um bem, os mesmos mecanismos que nos controlam também nos servem. Prova disso é o exemplo que você cita do bandejão ou, ainda, pensando em um contexto macro, as organizações de tantos movimentos e manifestações pelo país, sempre articuladas via redes sociais. É tanta coisa pra gente pensar, desconfiar, temer… pelo menos agora, estamos mais espertos e mais críticos em relação a tudo isso (pelo menos eu sim). Como será o andar da carruagem a gente não sabe, mas uma coisa é certa: o futuro às tecnologias pertence!

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