Crise sanguínea: Hemominas alerta baixa nos estoques de sangue em todo o estado

Sexta-feira, uma da tarde. O clima no setor de captação do hemocentro de Belo Horizonte é de tensão. Quatro mulheres de semblante preocupado discutiam a condição de um paciente. O principal problema: havia poucas bolsas de sangue. A situação daquele paciente não é um caso isolado: atualmente o estoque de sangue do Hemominas está com queda 40% na capacidade.  A diminuição é resultado das baixas temperaturas, quando muitas pessoas contraem doenças respiratórias, além de ser o período da vacinação de gripe, que impede a doação por 48 horas.

De acordo com a responsável pelo setor de captação do Hemominas de Belo Horizonte, Helen Dupin, apesar da queda ter acontecido mais cedo que o previsto, este não é um ano atípico, o período mais frio apenas começou mais cedo que o usual. Ainda segundo Dupin, todos os tipos sanguíneos estão em baixa: “O mais procurado, mesmo porque a população tem um número menor que possui, é o rh negativo. Mas nesse momento, infelizmente, a nossa dificuldade não está só com os negativos, principalmente com o O positivo.”, explica.

Se a captação de sangue continuar em baixa, os hospitais de todo o estado vão tomar medidas drásticas e podem ter que cancelar cirurgias e atender apenas urgências e emergências. “Há pouco tempo teve um caso de um menino que ficou muito tempo procurando um doador compatível de medula. Quando ele finalmente conseguiu, quase o transplante não aconteceu por falta de bolsa de sangue”, relata Dupin.

No entanto, a solução para o problema é bem simples: uma doação pode ajudar no mínimo 4 pessoas. Cada pessoa pode doar, por vez, 450 ml, quantidade bem pequena se comparada à quantidade de sangue no organismo: algo entre 4 e 6 litros.

Sangue bom

As cadeiras da sala de espera da área do hemocentro estavam, em sua maioria, vazias. Entre as pessoas que ocupavam aqueles lugares, estava o técnico de telecomunicações de 24 anos, Uander Medina. Era a primeira vez que Uander doava. Ele veio ajudar Nicolas Martins do Monte, 4 anos, que passou por um transplante de médula óssea, mas ainda precisa de doação de plaquetas.  Uander disse que estava tranquilo para ajudar o menino: “Tirar sangue eu já estou acostumado, não doar, mas tirar é normal. É tranquilo. Eu fico um pouquinho tenso porque a mulher mostrou uma bolsa ali que só Deus (risos), mas é tranquilo.” Também prometeu continuar com a boa ação: “Continuo sim (a doar). Depois eu faço o cadastro ali e pretendo doar medula também, se for preciso. Se tiver como.”

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Imagem: Capanha do Nicolas nas redes sociais / Reprodução

Pouco tempo depois, a copeira Iolanda Braga de Morais, de 43 anos, saiu da sala de doação. Essa foi a segunda vez que Iolanda doou sangue. Na primeira, ela viu pela TV que os estoques estavam baixos e resolveu ajudar. E garante: não dói nada.

O ato de solidariedade passa de pai pra filho. É o caso do alpinista de 59 anos, João Batista Tomé, que é figurinha carimbada no hemominas e já perdeu as contas de quantas vezes já doou. E brinca: “É a primeira vez que eu dôo. Hoje”.

Como fazer para doar?

Para quem também quer fazer a sua parte, é importante ficar atento aos requisitos que o doador deve cumprir. Ele deve ter entre 16 e 69 anos (doadores menores de idade deverão preencher um documento no site da fundação e pegar autorização com seu responsável legal), além de estar com boa saúde.

As mulheres devem ter um intervalo mínimo de três meses entre suas doações. No caso dos homens, o intervalo deve ser de dois meses. As exceções são os que possuem mais de 60 anos. Nesses casos, somente poderão doar os que fizeram a sua primeira doação antes de se tornarem sexagenários. Após essa idade, o intervalo entre as doações é o mesmo para ambos os sexos: seis meses.

Pessoas que vacinaram recentemente e querem ser doadoras devem ficar atentas, pois cada vacina possui um período específico de inaptidão. Diferentemente do que muitos acham, pessoas que já tiveram hepatite podem doar, desde que a doença não tenha ocorrido após completarem 12 anos.

Mulheres que usam anticoncepcionais podem doar normalmente. A única recomendação é que não o façam durante os primeiros dias do ciclo menstrual, pois nessa época o fluxo alto pode ocasionar uma baixa nos níveis de hemoglobina. O prazo de recuperação após a doação também é bem tranquilo. Recomenda-se apenas que o doador não pratique exercícios físicos mais intensos no dia que doar. Para ingerir álcool, deve-se aguardar 12 horas após doar. Não se deve fumar no período de doação, nem fazer uso de medicamentos no dia.

Existem muitos mitos em torno da doação de sangue, mas a verdade é que ela não emagrece e nem engorda, muito menos vicia. Como já foi comentado, a dor não é nada que se compare ao prazer de ajudar quem está precisando. Nos raros casos em que o doador passa por uma queda de pressão ou desmaio, a recuperação é rápida e natural. Os interessados em fazer parte dessa corrente podem consultar o hemocentro mais próximo ou ligar no número 155, escolher a opção 8 e agendar a sua doação. Salvar vidas é mais fácil que parece.

Equipe

Maria Dulce Miranda e Victor Cordeiro