Cultura da convergência e a relação entre público e produtor

Em seu livro “Cultura da convergência”, Henry Jenkins, discute o fenômeno da convergência através de uma ótica cultural e social que não nega a técnica, mas não a favorece em detrimento de fatores subjetivos. Com base nos capítulos referentes à leitura obrigatória para o seminário sobre “Cultura da convergência”, exponho e analiso a partir de agora a discussão promovida pelo autor e exposta por mim e pelos meus colegas de grupo, no referido Seminário.

Na introdução de “Cultura da convergência”, Jenkins, inicia-se sua discussão relatando um acontecimento, a proliferação midiática de uma “brincadeira” feita por um jovem no início dos anos 2000, no qual esse rapaz se apropriou de uma personagem de um desenho animado infantil e criou uma série de imagens chamada “Beto é do mal”. Nas imagens, a personagem aparecia ao lado de figuras conhecidas, que possuem reputações ruins, mas Henry destaca uma imagem, a fotografia em que Beto, a personagem em questão, está ao lado do terrorista Osama Bin Laden. O autor relata que as imagens percorreram países, fronteiras culturais e chegou até uma manifestação antiamericana em Bangladesh, onde essas imagens foram disseminadas pelo mundo ao aparecerem na cobertura jornalística que a rede midiática CNN, fazia do acontecimento.

A partir desse exemplo, Jenkins afirma “(…) cultura da convergência, onde as velhas e as novas mídias colidem, onde mídia corporativa e mídia alternativa se cruzam, onde o poder do produtor de mídia e o poder do consumidor interagem de maneiras imprevisíveis”. O autor introduz assim, uma das principais argumentações de seu livro. A convergência é estudada e entendida por ele como uma transformação cultural na medida em que produtores e consumidores interagem de maneiras complexas e que através do incentivo à busca de informações, criam conexões em meio a conteúdos diversos.

Jenkins, em sua discussão ainda aborda o que ele chama de “falácia da caixa preta”. Segundo ele, grande parte do discurso contemporâneo sobre convergência considera que em algum momento todo o conteúdo de mídia estará presente dentro de uma única caixa preta, nas salas de estar das pessoas. A convergência, sendo assim, apenas um processo de transformações tecnológicas. No entanto, o autor explica que as transformações tecnológicas e mercadológicas podem representar aspectos presentes na convergência, entretanto, esta não deve ser compreendida apenas como um processo que une diferentes funções dentro de um mesmo aparelho como propõem alguns estudiosos, mas sim como um fluxo de conteúdos que acontece através de múltiplas ferramentas midiáticas nas quais o público busca e cria experiências de entretenimento.

Nesse sentido, o autor propõe como tripé de seu trabalho a discussão dos seguintes conceitos: convergência dos meios de comunicação, cultura participativa e inteligência coletiva. Entretanto, atento-me em suas definições de cultura participativa. A cultura participativa, segundo Jenkins, representa uma transformação cultural da relação entre produtores e consumidores de mídia que antes ocupavam papéis separados no desenvolvimento dos produtos culturais midiáticos, mas que, contemporaneamente, participam dessa elaboração a partir de um conjunto de regras que ninguém consegue compreender inteiramente. Mas pode-se afirmar que tem modificado aquilo que as pessoas consumem. “(…) A convergência altera a lógica pela qual a indústria midiática opera e pela qual os consumidores processam a notícia e o entretenimento (…)”. Essas afirmações exemplificam-se quando o autor cita franquias midiáticas mundiais como Harry Potter, American Idol, Matrix, entre outras. Discutirei, no entanto, a franquia Harry Potter.

Harry Potter surgiu como uma série de livros infantis e ao ser tornar um “fenômeno mundial”, foi adaptado e transformado em uma série de filmes e, posteriormente, em roupas, acessórios e até mesmo parques temáticos. Essa convergência, ou melhor, transformação de uma série de livros infantis em diferentes produtos midiáticos está diretamente relacionada à relação e a influência do público com o produto. O público que era considerado submisso passa a ter voz, a escolher e até mesmo criar novas fontes de entretenimento. As grandes corporações perceberam essa mudança de panorama, e a grande maioria, buscou se adaptar e a proporcionar ao seu público aquilo que ele desejava. No entanto, à luz do exemplo das imagens “Beto é do mal”, percebe-se que nem sempre a relação entre publico e produtor é livre de conflitos, bem vista ou aceita, deliberadamente, por ambas as partes.

A Warner Bros, detentora dos direitos autorais de Harry Potter, aproveitou-se do desejo de seu público para produzir mais e mais produtos e mesmo assim não foi capaz de controlar o seu público. Os fãs da franquia passaram a se apropriar do produto e a criar novos conteúdos e novos produtos. Um exemplo disso é o filme independente “Lord Voldemort: Origins of the heir”, que está com previsão de lançamento para o final deste ano. Os produtores da obra, fãs da história, conseguiram permissão da Warner para produzir o filme, no entanto, a obra não pode ser comercializada e ficará disponível de forma gratuita no YouTube.

Portanto, pode-se entender que a cultura da convergência não ocorre dentro de aparelhos. A convergência acontece dentro dos cérebros de consumidores e nas suas interações sociais com os outros, cada indivíduo constrói a partir das informações extraídas dos fluxos midiáticos, a sua própria história. A convergência é mais do que apenas mudanças tecnológicas, a convergência representa uma modificação nas relações entre tecnologias, produtores, públicos, mercados, gêneros e mídias. A convergência, ou melhor, a cultura da convergência refere-se a um processo e não a um ponto final.

 

Para assistir o trailer do filme “Lord Voldemort: Origins of the heir” acesse: https://www.youtube.com/watch?v=BhRLRD8FXGQ

 

Referências bibliográficas:

JENKIS, Henry. Cultura da Convergência. 2.ed. São Paulo: Aleph, 2009.

http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-131178/. Acesso em < 10/09/2017>

http://emais.estadao.com.br/noticias/tv,filme-sobre-voldemort-ganha-autorizacao-da-warner-afirmam-diretores,70001822209. Acesso em <10/09/2017>

 

 

6 comments

  • Helena Rodrigues

    Acho muito interessante a chance que temos de relacionar os estudos feitos em disciplinas como “Processos de criação em mídias digitais” e “Comunicação e cultura”. Ao pensar o termo cultura e ao considerar que convergência é apenas uma de suas adjetivações possíveis, acredito que ela realmente se apresenta como um processo que diz de formas de ser, ver e estar no mundo, nas práticas sociais e no compartilhar de sentidos.

    Cultura, como propôs Raymond Williams, é experiência ordinária. Gosto de considerar isso, porque ao olhar para a cultura participativa e para a cultura fã, tento imaginar os processos que cada indivíduo passou, subjetiva e interpessoalmente, para ressignificar, de maneira criativa, o que recebe.

    Nessa perspectiva, ao analisar os fãs de Harry Potter, por exemplo, também creio ser necessário romper com a ideia de que eles são aqueles fracos e dominados que consomem passivamente aquilo que fortes e dominantes produziram. Com as mudanças culturais e tecnológicas advindas do gradual processo da cultura da convergência, fãs precisam sim ser vistos como sujeitos que, ao se apropriarem de seus produtos de fascínio e os investirem de sentidos que satisfaçam seus próprios interesses, criam, inclusive, culturas próprias.

    Culturas próprias essas que têm criações visuais, sonoras, fotográficas e enciclopédicas autênticas e desenvolvidas por meios próprios de produção, distribuição e exibição. Culturas próprias essas que também fazem incorporações do popular, ao mesmo tempo que são alimentadas por práticas cotidianas. Esse é um novo olhar que ambas disciplinas me proporcionaram: um olhar que tenta deixar de lado juízos de valor para buscar sentidos apropriados que levam determinados grupos a construções conjuntas bem singulares.

  • Guilherme Pivotto

    Dentro dessa cultura da convergência do Jenkins, na matéria de Comunicação e Cultura analisei um texto de uma orientanda dele, Ana Elena Krauskopf, em que ela analisa o contexto de apropriação e resignificação da cultura global. Esse negócio da convergência eu concordo que está mais para a recepção do público do que para a tecnologia. Um produto cultural pode ter muitos subprodutos ou pode ele mesmo ser uma série de mídias, objetos etc, que te ajudam a construir algo além do que o contexto principal de uma história, mas se não tiver a apreensão do público torna-se quase que insignificante. No texto da Krauskopf, que inclusive fala sobre a cultura do Tecnobrega, o que esqueci de citar, ela diz que o universo criado em torno do estilo musical é até mais significante para o público do que a própria música. O que um fã gosta mesmo de fazer com seu produto favorito é participar, absorver ao máximo aquilo que o produto oferece, compartilhar com outros fãs e poder criar coisas novas em cima daquilo. Assim como pe o caso desse trailer, muito bacana por sinal e muito bem feito, das origens do Voldemort que é todo fan made. A cultura fã extrapola os limites da indústria cultural e, da carência de produtos, nascem outras coisas que às vezes são até melhores que aquilo que os grandes produtores podem oferecer. Outro fator da convergência que o Jenkins fala é da falácia da caixa preta, o que é bem real, apesar de algumas vezes a tecnologia parecer que vai se juntar numa coisa só, como os smartphones, sempre lançam alguma coisa nova que complementa as outras, feito computador pessoal que assimila com celular, que conecta com smart TV, que conecta com plataforma de games, etc. Tudo é um processo mesmo, que se complementa e gera ações infinitas dos leitores.

  • Tayrine Vaz

    A relação entre público e produtor e como as empresas estão atentas às preferências dos consumidores, me traz à memória nossas discussões na aula de Comunicação e Cultura (sobre cultura fã), sendo que na minha opinião essa relação mostra-se bastante controversa e permeada de interesses econômicos. Como Jayne explícita no texto, algumas empresas percebem no maior interesse dos fãs em experienciar o universo de determinada produção, uma oportunidade para expandir seu lucro, a partir disso elas tanto criam novos produtos, quanto se apropriam de elementos feitos pelos fãs.
    Acredito que a Netflix seja um bom exemplo para falar sobre essa produção (feita de acordo com os conteúdos disponibilizados na plataforma), que tem como objetivo promover e gerar engajamento dos fãs com as séries, e para isso a plataforma faz uso de diversos dispositivos. Para impulsionar a segunda temporada de Stranger Things, a Netflix criou um jogo para IOS (a narrativa é baseada na primeira temporada), lançou um teaser no twitter com a participação da Chiquinha, além de ter disponibilizado a trilha sonora da série em uma playlist no Spotify. Enquanto a Netflix buscou criar novos produtos para complementar esse universo “Stranger Things”, existem empresas que se apropriaram dos elementos produzidos pelos fãs. Em alguns casos essa apropriação é feita de forma negativa, o que acaba afastando-os das comunidades e colocando-os na lógica da comercialização.
    Ana Carolina Vimieiro, em “O legado dos estudos culturais para as pesquisas de cultura digital: Uma introdução aos conceitos de cultura participativa, produtividade textual e produsage”, explicita esse fenômeno ao apresentar o caso da série Star Trek que solicitou aos seus fãs estórias que seriam incorporadas na antologia “Star Trek: Strange New World”, entretanto, para participar da antologia os fãs precisariam “se afastar dos discursos familiares das comunidades de fãs”.
    Com esses dois exemplos, vejo que essa relação mais próxima entre público e empresa, própria dessa cultura participativa, apesar de ser muito positiva, não pode ser encarada como algo desprovido de interesses, pois vemos que mesmo quando as empresas estão interessadas em estreitar laços com os públicos, as dinâmicas da cultura digital ainda são dominadas por elas.

  • Pedro Maurício

    Acredito que a ideia da convergência midiática exposta por Henry Jenkins serve para compreender as mudanças na relação do público com os meios de comunicação. Uma vez que nos últimos anos a informação passou a circular de modo mais intenso pelos distintos sistemas midiáticos, provocando a participação ativa dos consumidores que alternam entre vários canais em busca das melhores experiências de entretenimento. O autor inclusive aponta o smartphone como um exemplo característico desse momento, visto que o aparelho desvincula-se da condição única de telefone e se transforma em um instrumento com múltiplas possibilidades de produção. O pesquisador norte-americano, no entanto, enfatiza que a proposta de convergência descrita no livro não é pautada pela tecnologia, mas embasada em um paradigma culturalista que pode ser verificado nas interações sociais e nas relações dos indivíduos com os equipamentos eletrônicos. Como é o caso dos jogos de realidade alternativa (ARGs) que fornecem aos participantes uma experiência interativa entre complexas histórias que combinam o fictício e a realidade. Origina-se, desse modo, um universo ficcional (formado também por filmes, livros e outros) interconectado por distintos meios de comunicação, cujo sentido só é completamente assimilado no momento em que o objeto é explorado totalmente. A experimentação de outros conteúdos além do “original” promove uma apreensão melhor e uma visão diferenciada dos assuntos que o envolvem. É nesse ponto que, segundo Jenkins, “as velhas e as novas mídias colidem” e se complementam. A convergência, portanto, concede poder ao público que está exigindo cada vez mais o direito de participar estreitamente da cultura.

  • Aline Rodrigues

    Há controvérsias. Não há como negar nosso papel participativo nas novas mídias digitais, porém, se olharmos para o assunto com as lentes da vigilância, segundo as definições de Zygmunt Bauman, percebemos que, com a publicação e consumo excessivo de dados pessoais estamos criando uma necessidade de exposição na rede. Essa atitude muitas vezes acontece sem uma reflexão crítica. Ou seja, talvez possamos pensar em uma certa manipulação provocada pelas redes sociais e o forte vínculo que criamos com elas a partir de nossas mediações. A grande dúvida do autor, no livro Vigilância Líquida, é justamente: aonde vamos chegar com essa produção infinita de conteúdo e qual nosso limite ético para consumi-lo?

  • Marcus Vinicius

    Percebo que o desenvolvimento das tecnologias e a convergência das mídias permitem que o público receptor também participe do processo de criação daquilo que consome. Como a Jayne aponta no texto não existe mais um consumidor passivo de conteúdos, cada vez mais as pessoas atuam como co-produtoras de conteúdos midiáticos. Vejo isso com um olhar positivo pois dá mais dinâmica às mídias. Estamos acostumados a dizer que somos manipulados a todo o momento pelas mídias. Agora, nesse novo contexto, temos a possibilidade de sair do papel de manipulados para adotar uma postura mais participativa como aponta o texto do Jenkis.