Cultura hacker: uma faca de dois gumes?

Por Letícia Lopes

 

No último milênio, o avanço da tecnologia da informação fomentado pela globalização foi evidente por toda a sociedade. A acessibilidade de objetos eletrônicos como smartphones, computadores e tablets permitiu a comunicação instantânea e facilitada entre os indivíduos em todo o mundo e criou um novo formato para a difusão de informações.

 

Usuários de redes sociais como Facebook, Twitter e Instagram, diariamente, por vontade própria, alimentam os seus perfis com informações e fotos da vida pessoal, confiando no fato de que esses dados estarão seguros e disponíveis apenas para pessoas com autorização, como amigos ou outros usuários da plataforma. Entretanto, nem sempre isso acontece, especialmente quando alguns indivíduos utilizam do seu conhecimento sobre rede, programação e informática e, inesperadamente, conseguem acesso à esses dados sem autorização. Após isso, eles possuem a capacidade de manipular e usarem os dados obtidos da maneira que desejarem. Essas pessoas são muitas vezes chamadas de hackers.

 

Entretanto, isso ocasiona na generalização errônea do termo, trazendo a ideia de que todo hacker é um invasor de rede com intenções maliciosas. Ainda que a popularidade do termo seja em grande parte negativa, é preciso entender que nem todos os hackers tem o objetivo de ir contra o sistema e invadir a privacidade dos indivíduos. Para entender melhor o “mal-entendido”  é necessário entender a história dos hackers.

 

Embora apenas recentemente os hackers tenham ganhado mais atenção da mídia, esse grupo de pessoas existe desde 1870, quando os jovens tentaram burlar sistemas telefônicos, que eram a base do meio de comunicação “auge” da época. Em 1950 termo hacker foi oficializado pelo grupo “Tech Model Railroad Club” do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Os indivíduos do grupo era conhecidos por exercerem a atividade de “hackear” e a partir disso, o termo hacker ficou cada vez mais conhecido.

 

Enquanto nos anos 60 os hackers eram restritos às universidades, nos anos 70 o “Homebrew Computer Club”, que era um grupo formado por admiradores e usuários de computadores,  surgiu no Vale do Silício. O grupo se reunia a cada quinze dias e tinha a intenção de discutir ideias sobre seus projetos pessoais envolvendo a construção de computadores e troca de peças.

 

Mas foi nos anos 80 em que o termo hacker passou a ser visto de forma mais negativa, pois ocorreram as primeiras prisões envolvendo invasões de computadores, surgindo assim o termo cracker. Os crackers são pessoas com conhecimento acerca de informática, computação ou programação e, usam este conhecimento em atitudes maliciosas promovendo, por exemplo,  ataques e crimes cibernéticos. São formalmente conhecidos como ciber-criminosos. Nos anos 90 ocorreu a expansão da internet e a cultura hacker foi de fato difundida, entretanto, o termo hacker não deixou de ser interpretado por muitas pessoas de forma negativa.

 

É inegável, por exemplo, que os ataques cibernéticos promovidos pelo vírus WannaCry  no dia 12 de maio deste ano possuía intenções maliciosas e ilegais. O ato que foi promovido por hackers anônimos atingiu empresas privadas, aeroportos bancos e até mesmo hospitais públicos em todo o mundo. Especificamente esse acontecimento contribuiu para que o termo hacker fosse, novamente, visto com maus olhos. Mas é realmente culpa dos hackers o termo ser sempre relacionado com a ilegalidade?

 

O fato é: a culpa não é exclusivamente dos hackers.

 

É claro que ao mencionar isso, não quer dizer que estes cibercriminosos serão absolvidos de seus crimes. Certamente, precisam ser responsabilizados pelos seus atos como qualquer outro indivíduo. Todavia, é evidente que a mídia foca apenas na atividade dos hackers malignos e acaba ignorando os feitios, por exemplo,  dos white hat.

 

Os white hat são os hackers que realizam suas atividades respeitando os princípios da  ética hacker. Muitos deles são responsáveis por notificar empresas, sites e redes sociais sobre a vulnerabilidade na segurança das informações. Embora realizem um trabalho ético, esses hackers não ganham visibilidade na mídia e são muitas vezes confundidos com hackers maliciosos devido à generalização do grupo.

 

Uma prova de que a mídia não é equilibrada ao falar sobre hackers pode ser vista com o caso de Steve Jobs. O empresário e magnata americano, diretor executivo, presidente e cofundador da empresa Apple Inc,  fez parte do grupo Homebrew Computer Club e se relacionava constantemente com vários hackers. Logo, pode-se dizer que a troca de conhecimento possibilitada no clube fomentou para que hoje a empresa multinacional seja uma das líderes do mercado de eletrônicos. Portanto, graças à esse contato com os temidos hackers, que hoje em dia muitas pessoas conseguem realizar contato entre si de maneira instantânea e também  possuem acesso às informações distribuídas pelas mídias.

 

Em suma, é necessário expandir o termo hacker e desvincular seu significado apenas da ilegalidade. Para tal, a mídia precisa tomar providências em relação ao seu conteúdo, evitando transmitir apenas mensagens negativas sobre os hackers. É preciso entender que a cultura hacker deu origem à diversos problemas cibernéticos da atualidade, sendo vista como uma faca ameaçadora às plataformas sociais online, mas é importante relembrar que a faca que pode atacar é a mesma que pode proteger, ou seja, talvez o hacker temido por todos é aquele que irá conseguir manter a segurança de muitos.

1 comment

  • Helena Antunes

    Adorei seu texto, Let! Conversa com o meu e concordo muito com o que você expôs nele. O problema do mundo digital é que ele não tem fronteiras. Realmente, é necessária a criação de uma legislação específica para a criminalização de atividades ilegais através da rede, mas lendo seu texto, Letícia, lembrei muito de um caso que se assemelha aos hackers: os grafiteiros. Se a gente parar para pensar, o caso da Primavera Árabe, por exemplo, em que os hackers conseguiram burlar o sistema de vigilância dos estados ditatoriais e fornecer internet aos civis daqueles países, isso pode ser considerado um crime contra o governo, deslegitimando o poder do Estado. Mesmo assim, em um caso como esse, de um estado não democrático, sem liberdade de expressão, podemos ter a visão de que ir contra aquele sistema seria algo correto. Os grafittis têm essa mesma ideia: é uma prática considerada ilegal por grande parte da população, porém faz parte de uma cultura específica e representa um grupo que tem como ideologia base algumas premissas que vão de encontro às ideologias do sistema vigente, mais tradicional. Pensando dessa forma, assim como quem faz o grafitti e é segregado, os hackers merecem uma atenção extra, afinal não adianta ir contra os hackativistas, por exemplo. Essa briga que as grandes empresas estão comprando é infeliz e provavelmente não trará nada de positivo para nós, cidadãos comuns e usuários dessas plataformas online. Acho que o caminho é outro. Pra mim, tem uma frase no seu texto fundamental e que resume bem esse sentimento: “É necessário expandir o termo hacker e desvincular seu significado apenas da ilegalidade.”

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