Cultura participativa e narrativa transmídia: um estudo de caso sobre o BuzzFeed e a Netflix

Antes de falar sobre cultura participativa é necessário entender o processo em que esse conceito é baseado, o que Henry Jenkins intitula “Convergência midiática”. O autor afirma que esse fenômeno passa pelo encontro entre novas e velhas mídias, pela alteração do fluxo entre produtos e consumidores, mas acima de tudo Jenkins defende a convergência como “uma transformação cultural, à medida que consumidores são incentivados a procurar novas informações e fazer conexões em meio a conteúdos de mídia dispersos”

Definida essa transformação entre o modo como os consumidores reagem a determinadas informações e conteúdos, a cultura participativa busca desfazer esses locais tão bem definidos entre produtores e consumidores, ao entender que ambos estão em interação e estão a todo tempo pautando os assuntos e sendo pautados. Essa interação nasce de uma participação mais ativa da audiência, que molda cada vez mais a forma como os conteúdos são ofertados e os diferentes elementos que são criados a partir da vontade que determinado público tem em consumi-lo.

É a partir disso que produtores tentam implementar cada vez mais narrativas transmídia, que é a capacidade de contar histórias em diferentes plataformas e formatos. Jenkins (2008) afirma que, “uma boa franquia transmidiática trabalha para atrair múltiplas clientelas, alterando um pouco o tom do conteúdo de acordo com a mídia”. Esse conceito é utilizado como um novo modelo de negócio, já que se apropria dessa “cultura de conexão”,  no marketing digital  ele  tem  a finalidade de estreitar as relações entre público e empresa. Analiso a seguir estratégias transmidiáticas utilizadas pelo BuzzFeed e pela Netflix.

O BuzzFeed é uma empresa de notícias norte-americana criada em 2006, por Jonah Peretti, que nasceu com o objetivo de criar conteúdo viral para a internet. Ela se destaca por estar presente em multiplataformas, como Website, Facebook, Snapchat, Youtube e outras; além de ser mundialmente conhecida com escritórios espalhados pelas Américas (Norte e Sul), Europa, Ásia e Oceania. Os conteúdos que se destacam em suas plataformas são investigações jornalísticas, testes, listas, entre outros. O site no Brasil foi inaugurado em 2013.

Buzzfeed Brasil [Reprodução/BuzzFedd Brasil]

O Buzzfeed constrói suas narrativas fazendo uso de diversos formatos muito presentes na Internet. As notícias mesclam textos com imagens, gifs, links para outros sites e vídeos.

O programa da Angélica ofendeu japoneses e descendentes brasileiros de uma só vez [Foto: Reprodução/Buzzfeed Brasil]

Além disso, por estarem presentes nas mais diversas plataformas, seus conteúdos estão muitas vezes relacionados com temas que bombaram em outras redes sociais, como o Facebook.

As reações às notícias sobre as falas de Taís Araújo e do Bruno Gagliasso são MUITO diferentes [Foto: Reprodução/Buzzfeed Brasil]

Na matéria acima, o Buzzfeed constrói sua reportagem em torno de comentários em duas notícias veiculadas na página do G1 no Facebook.

É possível observar também uma diferença de conteúdos abordados nas plataformas da empresa. Quando se fala sobre as redes sociais da companhia no Brasil, o conteúdo encontrado no Facebook é majoritariamente composto por listas e testes; no Instagram há uma presença forte de cartoons, a iniciativa do YouTube do BuzzFeed BR ainda está no início, mas no americano vemos uma presença consolidada de séries como The Try Guys e Worth It.

A Netflix é uma plataforma de streaming criada em 1997 por Reed Hastings e Marc Randolph, a empresa surgiu como serviço de entrega de DVDs pelo correio e hoje é o principal serviço de TV por internet no mundo. No fim de 2016 a empresa possuía 93,8 milhões de assinantes, estando presente em 190 países.

A plataforma faz amplamente o uso de storytelling, que pode ser definido como uma narrativa transmidiática, para cativar sua audiência. Isso pode ser observado nas estratégias de marketing usadas nas divulgações de algumas de suas séries, que buscam ampliar o universo das produções.

Para promover a segunda temporada de Stranger Things, a Netflix lançou um jogo para IOS. A narrativa é baseada na primeira temporada, na qual um delegado é encarregado de encontrar o garoto perdido. A plataforma de streaming, lançou também em seu twitter um teaser com a participação de Chiquinha, personagem do seriado “Chaves”; e uma playlist com a trilha da série no Spotify.

Netflix lança jogo da série Stranger Things para IOS [Foto: Reprodução/Blog do Iphone]

Essas estratégias também podem ser vistas na série House of Cards. Com as eleições presidenciais de 2016, a Netflix lança em suas redes sociais, para divulgar a quarta temporada da série, dois vídeos sobre a “campanha eleitoral” de Frank Underwood para a presidência do governo americano. A empresa faz uso de outras duas iniciativas para divulgar a temporada, na primeira a plataforma pagou por espaços em redes sociais de jornais e revistas famosos no Brasil; a segunda foi a criação de um site para a campanha eleitoral de Frank Underwood, no qual são disponibilizadas ferramentas de interação com o público.

                      [Foto:Reprodução/Internet]

 

Tanto no BuzzFeed quanto na Netflix pudemos observar como as narrativas transmidiáticas são de grande uso e importância para as empresas de conteúdo atuais. O BuzzFeed consegue com êxito construir narrativas que mesclam diversos formatos em um único texto, mas também segue o que Jenkins pontuou a respeito de uma franquia transmidiática de sucesso, pois altera a forma como o conteúdo é transmitido de acordo com a mídia. Já a Netflix faz uso das narrativas transmídias ao ofertar cada vez mais elementos do universo de suas séries ao público. Em ambas as empresas, é possível notar a cultura participativa pautando suas ações. A  imersão nas redes sociais e a presença ativa do público molda os conteúdos ofertados por elas, tanto em relação aos temas abordados quanto à quantidade de elementos disponibilizados acerca desse tema.

Tayrine Vaz

1 comment

  • Maria Gabriela

    Ei Tay! Adorei o seu post e a escolha dos objetos, e acho que esses fenômenos culturais próprios da internet, como os sites de listas e as plataformas de streaming mesmo, são incríveis pra se pensar os conceitos de cultura participativa. Eu só fiquei esperando uma pontuação sobre um aspecto próprio do Buzzfeed que penso ser bastante relevante nesse contexto da cultura participativa mas que acho que você escolheu não abordar nesse momento.
    Muitos dos posts do Buzzfeed são publicados com a marca do Buzzfeed Community, ou seja, não são produzidos pela equipe editorial do Buzzfeed. Essa é a forma que o público tem de produzir conteúdo utilizando a plataforma e as funcionalidades do Buzzfeed livremente (uma vez que se crie um login no site, é claro). Nisso, dá pra pensar bastante sobre o conceito de produtividade textual de John Fiske, uma vez que os já leitores/consumidores do conteúdo do Buzzfeed podem apropriar-se como quiserem (dentro das diretrizes do site, que não restringem muita coisa) da linguagem e da estética já comum àquele meio e aquelas pessoas para produzir seu próprio conteúdo e compartilhá-lo com outros leitores.
    É claro que há a problemática do lucro que o site tira dos cliques nesses conteúdos produzidos por membros do Buzzfeed Community, através da publicidade que é também veiculada nas páginas desses conteúdos. Mas isso é um aspecto econômico que não creio que seja pensado pelos membros do Community antes de postar algo no site. Acho que se apropriar de um site que se utiliza com frequência para produzir conteúdo, seja porque o site não está “dando conta” de cobrir assuntos de seu interesse, por curiosidade de descobrir como funciona tal plataforma ou simplesmente pela vontade de produzir e assinar um conteúdo, é um ótimo exemplo de como as audiências podem pautar e até direcionar de certa forma a própria indústria.

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