Da inovação à banalidade: a vulgarização da colagem

Por Guilherme Augusto 

 

O Romantismo foi o movimento que revolucionou o mundo das artes. Da pintura à literatura, as mudanças ocorreram na intenção de evocar um novo espírito de liberdade, de originalidade e de imaginação. A quebra da tradição clássica foi de suma importância para a modernidade, pois os autores adquiriram independência de criar coisas novas a partir de suas próprias visões de mundo – deixando a criatividade fluir – , e também a partir dos contextos sociais, políticos e pessoais, além de possibilitar a inovação, inclusive, dos meios de produção e da forma como a arte era divulgada e exposta. O conceito de romantismo diz respeito a uma nova tendência moderna de individualismo e de subjetividade humana. O artista, é claro, não poderia ficar de fora; não sendo mais coagido a apenas reproduzir modelos tradicionais, ele se vê livre para criar a partir do inesperado, transformando em arte objetos que antes nunca seriam assim considerados.

 

Nesse contexto de nascimento da modernidade, surgem as colagens, processo que Liev Manovich caracterizou como sendo pertencente às Novas Mídias. Na verdade, a colagem como processo técnico surgiu com os calígrafos japoneses do século XII, que desde então já usavam pedaços de papel e de tecidos para criar fundos para os seus poemas. Entretanto, o termo colagem, no que representa hoje – arte que contribui para diversos processos de criação (VARGAS E SOUZA, 2011) – , surgiu como um exercício da vanguarda modernista, mas que hoje está presente nas mais básicas atividades das mídias digitais como um todo.

 

Na história da arte, a primeira menção à colagem é feita a partir do cubismo, movimento surgido em Paris aproximadamente em 1903. Até ali, a arte seguia os preceitos do Naturalismo: uma forma mais fiel de reproduzir a realidade, utilizando a perspectiva, a lógica e até a matemática para dar ideia de espaço e criar ilusões de ótica. O surgimento do romantismo coincidiu, também, com a Revolução Industrial, momento em que o conhecimento de outras culturas tornou-se maior devido à facilidade de locomoção e até mesmo de divulgação de informações, com o nascimento dos jornais e dos primeiros aparelhos de telefone. Observando esse panorama, é possível entender o porquê de a mudança ter sido tão significativa e ter alcançado tantos âmbitos da sociedade. O contexto e a situação foram totalmente favoráveis ao artista e à sua elaboração do novo, do autêntico, do pessoal e do inovador. O mundo estava mudando, e não poderia ser diferente para o homem que a acompanhava.
Um exemplo da mudança da cópia para o autêntico é Pablo Picasso. Misturando desenhos com pedaços de papel e de tecidos de outra cor, ele busca criar novas figurações a partir de elementos que antes compunham algo totalmente diferente. Juntando diversos pedaços soltos, é possível criar algo totalmente novo. No quadro Guernica, a justaposição de imagens, traços, formas, materiais e elementos rompe as fronteiras entre a pintura e a escultura para dar a impressão de obra multidimensional, deixando o público ainda mais impressionado frente ao horror e a feiura advindos da guerra que destruiu uma cidade inteira. É difícil acreditar que a obra teria o mesmo impacto se tivesse sido feita com técnicas diferentes; a junção de texturas, cores monocromáticas e relevos diferentes leva o espectador a se aprofundar ainda mais na análise.

 

Tal análise leva a perceber que a técnica da colagem não se faz presente apenas na composição física da tela, já que são vários os recortes do contexto pós-bomba feitos pelo pintor. Em um canto, uma mãe chora a perda do filho; a sua frente, um touro quase se choca à sua face ao fugir dos horrores causados pela bomba; em outras partes, há braços e pernas soltos, pessoas mortas, desfiguradas ou desesperadas. As formas fragmentarias e descontinuadas representam uma sociedade multifacetada, de diversos significados e possibilidades, onde tudo acontece ao mesmo tempo, mas não da mesma forma para todos. No caso do quadro, cada personagem ali presente sentiu os horrores da guerra e suas consequências de uma maneira diferente da outra. A composição feita pelo artista, a junção de todos esses contextos numa coisa só, mostra, simultaneamente, as perspectivas múltiplas por meio das quais o artista representa o caos do mundo ante o horror da guerra. Dessa perspectiva de observar o processo das colagens não só como técnica de junção de materiais diversos, mas também de junção de ideias e de contextos, é difícil não relacionar esse método ao que Bakhtin chamou de intertextualidade, ou seja, um mosaico de citações e ideias de outras obras que o autor já teve acesso se fazendo presentes na criação de sua nova produção. Apesar de a intertextualidade ser um termo usado no mundo literário, não deixa de ser um conceito que se aplica ao mundo das artes.

 

Assim como um texto literário, ou até mesmo no teórico, uma obra de arte também é a união não só das vivências do artista, como é, também, a memória de outras obras de outros artistas a que ele teve acesso durante a vida. Guernica é o compilado de memórias que Picasso tem do acontecido, mas é também o que o contaram, o que ele leu nos jornais e o que ele ouviu nos rádios. É pintura, mas é também escultura, desenho e colagem.
Dessa forma, é impossível não perceber a revolução que a independência da arte, demonstrada, aqui, através do advento da colagem, causou no mundo. Na época das vanguardas modernistas, elas foram fundamentais na consolidação da expressão autoral. Hoje, contudo, ela passou a ser mais uma das coisas que o advento da tecnologia e da internet transformou em corriqueiro. Qualquer celular, tablet ou notebook, por mais simples que seja, possui a função de copiar e colar. É fácil procurar artigos científicos e selecionar diversos trechos para compor um novo texto; é fácil salvar imagens e organiza-las de outra forma. Mais uma vez, a tecnologia mostrou a sua força. Ela cria a destrói na mesma proporção.

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