Dados e vigilância: o que sabem de nós mesmo sem dizermos

Thaís Borges

Todos já ouvimos os casos: estava conversando sobre uma viagem aleatório com amigos. Passado algum tempo, entrei no Facebook e lá estava: uma propaganda de um hotel no destino do tópico de conversa.

Já aconteceu com todos nós.

Fato é que, por mais que casos assim assustem, eles nos ajudam a colocar em pauta a reflexão acerca dos dados.

Um volume imenso de dados é produzido todos os dias. De fato, mais de 90% dos dados disponíveis foram produzidos nos últimos 2 anos!

Novos conceitos, como Internet das Coisas, Big Data e Transformação Digital nos mostram que uma nova era, em que a tecnologia está cada vez mais inerente em nossas vidas, não só é uma tendência, como já está acontecendo.

Essas novas formas de coletar, estruturar e usar os dados causam reações adversas: alguns veem nisso o futuro, outros encaram com medo.

Por exemplo: o Facebook sabe quando você vai começar a namorar. Em um post publicado do Cientista de Dados da rede, Carlos Diuk, ele revela que as análises de dados feitas pela rede com usuários que alteraram seus status de “Solteiro(a)” para “Em um relacionamento sério”, foi identificado que, nos 100 dias anteriores à alteração, a média de posts aumenta bastante.

A partir do novo status de relacionamento, no entanto, as médias de postagem caem abruptamente, como podemos ver no gráfico divulgado:

Facebook: Single X in a relationship

Ah, e não é só isso. Eles sabem, também, que você gosta de estar em um relacionamento. Isso porque, segundo as investigações feita com esse grupo de pessoas que passou de solteiro para namorando, embora haja uma diminuição das postagens, o conteúdo delas passam a ser de temas mais positivos.

Facebook Single X in a relationship postive posts

Esse caso, apesar de curioso (e até engraçado), mostra que o Facebook está muito interessado em descobrir todos os padrões de comportamento possíveis dos usuários. Os dados sobre relacionamento foram curiosos e trouxeram muito engajamento para a rede, mas a verdade é que os dados explorados vão muito além disso.

Todos os dias, expomos diversos dados sobre nossas vidas na internet: status de relacionamento é um deles, mas podemos pensar em idade, gênero, pessoas com quem convivemos, cidade que moramos — e vários outros dados de localização —, trabalho, interesses. Enfim, o volume de informações sobre nós mesmos é gigantesco.

Isso, em grande escala, faz com que um enorme volume de dados não estruturados estejam disponibilizados. Isso é uma parte do que chamamos de big data.

O grande interesse das corporações (empresas, governos, indústria) é estruturar esses dados, ou seja, organizá-los e sistematizá-los, de forma a obter informações de interesse. E aí que entramos em questões de vigilância.

Em primeiro lugar, as empresas estão coletando dados nossos através de seus recursos, seja smartphones, computadores, TVs ou até mesmo geladeiras — sim, qualquer aparelho “inteligente” e conectado à internet pode ouvir suas conversas, ler suas mensagens, vasculhar seus arquivos salvos, gravar vídeos, ver quais aplicativos você baixou, em quais anúncios ou posts clicou, dentre várias outras formas de coletas de dados.

Isso desperta várias questões sobre privacidade. É claro que, mesmo não lendo, tendemos a concordar com os termos de uso, que sempre incluem a autorização de coleta de dados — como localização ou acesso à câmera, por exemplo — como justificativa para funcionalidade do aplicativo e até mesmo para a personalização da experiência. Mas até o Google já admitiu que “espiona” seus usuários mesmo sem o consentimento deles.

Além do mais, o fato de termos momentos aleatórios (ou mesmo todos os momentos) da nossa vida disponíveis para empresas não só assusta, como desperta a desconfortável sensação de vigilância, e por fim levanta questões éticas, morais e legais.

 

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