Destino: ElDorado

O metrô de Belo Horizonte existe desde 1986, mas só atingiu funcionamento total em 2002. A linha vai do Bairro Água Branca, no município de Contagem, até o Bairro Venda Nova, em Belo Horizonte. Em uma extensão de 28,2 km, o metrô conta com 19 estações. A conclusão de mais duas linhas está prevista para 2017, uma ligando o Barreiro à Estação Calafate e outra subterrânea, com a conexão da Savassi à Estação Lagoinha.

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Em outubro de 2013, percorremos o trajeto do metrô de BH em busca de uma resposta. O que se vê pela janela do metrô? O resultado você confere abaixo.
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A estação do metrô não costuma ter o mesmo movimento das paradas de ônibus. Por esse mesmo motivo, não é de se estranhar a vaga melancolia que parece tingir as estações aos finais de semana.

Foi em um domingo que decidi tomar o metrô. Sem rumo, sem destino. Só um unitário. Só uma ida. O Sol erguia-se em tom de veraneio no céu aberto. As nuvens escondiam-se no azul infinito, sem cobrir luz ou calor. Caminhei até a estação mais próxima: Minas Shopping. Passara por uma recente reforma na área externa por conta da implantação do Leroy Merlin nas redondezas, então a entrada ainda tinha aquela impressão de novo, de fresquinho.

O som da catraca era desritmado, vago, em uma melodia distante e pausada. Quase não se viam atores nesse musical. O trânsito descompassado era um contraste com o movimento externo à estação, tumultuado pelo vai e vem de quem aproveita o final de semana para fazer compras com a família.

Aguardei não mais que 20 minutos pela chegada do primeiro trem. Ou metrô. Aqui em BH nunca ouve um consenso. Dizem que mineiro não perde o trem, então fica assim: trem.

Recolhi-me em uma cadeira do canto, acomodando-me sobre o plástico já quente do sol. As portas se fecharam, e logo o canto dos trilhos ressoou no nostálgico compasso marcado. Ouvi de olhos fechados. A madeira golpeada pelo estalido metálico do trem parecia clamar por tempos passados, parecia evocar uma memória que não me pertencia. Abri os olhos. A luz do Sol cortava a paisagem verde com força. Tive de comprimir um tanto a expressão para focar do lado de fora da janela. O mato alto tomava conta da beira da estrada e, antes que eu pudesse registrar o cenário que se abria ao redor dos trilhos, fui tomada por uma escuridão assustadora. Saltei para longe da janela, demorando a compreender que se tratava de um túnel. Era apenas isso. Um túnel.

A Estação José Cândido chegou como um alívio. Rostos sem nome entravam lentamente no vagão, ocupando as cadeiras mais próximas à janela. Mas talvez houvesse pouco a ser visto. Ao invés do verde estonteante que há pouco vislumbrara, notei pelo vidro sujo um campo negro, envolto na fuligem que parecia contornar o vagão em que eu me sentava. O mato queimado revelava a infertilidade de uma terra sem uso. Na escuridão das cinzas, amontoados de lixo constituíam verdadeiras muralhas. O ar fétido pairava sobre os paredões, tornando a viagem tensa.

A Estação Santa Inês passou mais rápido do que eu pudera prever. O intervalo de concreto não fora suficiente para quebrar o clima fúnebre que a viagem adotara. Cansada da escuridão da paisagem, virei-me para observar a outra extremidade do vagão. Exibia por sua janela a mesma monotonia monocrômica. Esperei. E qual foi minha surpresa ao ver esse mundo fundir-se em tons arrebatadoramente acobreados.

Horto. Notei a lagarta mecânica, cor de cobre, faceira e cruel. Estacionada sem rumo, encarava-me de seu pátio descoberto, envolto na poeira amarelada daquele depósito de velharias. Engoli em seco. A suntuosidade daqueles velhos vagões, esquecidos pelo tempo, era inquestionável. Ao seu redor, montanhas de minério acumulavam-se em caçambas sem nome, sem face. Fruto de extração violenta, as pedras eram postas sem cerimônia sobre os vagões. O trem andou, escapando enfim do olhar faceiro daquela lagarta. A cidade, Câmara Municipal e logo o Boulevard. Era a Estação Santa Tereza, em um clima completamente diferente do anterior. Casas, prédios, e vias chafurdadas de carros se sobrepunham na paisagem acinzentada da cidade, trançando pela malha urbana em curvas e viadutos envelhecidos.

A Estação Santa Efigênia chegou antes que me desse conta da passagem do tempo. Na via metroviária, muros decoravam-se com a inscrição indecifrável em tinta e cores vibrantes. Uma pessoa, solitária, rosto encoberto, acrescia às inscrições sua própria marca. O som do spray era audível de dentro do metrô. Agitava a lata, deixando que a esfera interna atingisse as laterais de metal, e logo voltava a pintar, a colorir formas estranhas se desvinculadas de seu contexto. O lixo voltava a aparecer, em ferro e cinzas, mais e mais muros tingidos erguiam-se em direção ao centro de BH.

A canoeira dá-nos boas vindas à Estação Central. Distraí-me algum tempo com a arquitetura do prédio principal. No amarelo-e-branco da pintura estavam claros os anos e reformas pelas quais passara ao longo do tempo. Cumprimentava-nos, austera, histórica. Não podia ver o relógio, mas sabia que estava lá, no alto da torre, sinalizando a tarde que já passava corrida. O entra e sai do vagão ainda era escasso, mas notei o número crescente de pessoas que se acumulavam nas cadeiras. Fora da estação, a urbanidade reduz-se lentamente, até alcançar a estação Lagoinha. Escura, envolta por casas e construções não finalizadas. As pessoas são substituídas por máquinas. O cinza pelo ônix reluzente. Os edifícios por muros caídos. E as árvores, pelas torres elétricas.

Carlos Prates, Calafate e Gameleira. A paisagem contínua revela píeres de concreto e uma viagem por cima das árvores. As copas verdes deixam-se salpicar por raras flores de ipê. Os muros riscados, as curvas sinuosas, e a secura do cerrado estendem-se por todo o trajeto em identidades alternantes que continua pela Gameleira e Vila Oeste. O trem logo mergulha em um vórtex verde, mato alto, mato baixo, mato queimado. Marcas de que o cuidado já fora deixado de lado. A beira do barranco oscila. Terra rola em mato, prende-se na vala e entope o rego d’água. Que ajunta e passa rápido na viagem de trem.

Assustei-me com a entrada repentina do Sol. Tingira o vagão de amarelo, laranja e dourado, tudo de uma vez. A cobertura metálica do trem refletia a luz com tal intensidade que fui obrigada a fechar os olhos por um instante. Em minha mente, éramos uma grande serpente dourada, cortando mato e trilho, seguindo rumo algum, e nenhum, pela linha solitária do metrô de BH.

Quando finalmente pude abrir os olhos novamente, deparei-me com o visual pós-apocalíptico das torres e chaminés industriais. Os tons metálicos e enferrujados exalavam nuvens de inteiriço sufocamento. O trem, agora cheio, saía da Cidade Industrial, carregando rostos e feições cansadas. Notei os cartazes de gentileza urbana que dançavam presos aos postes internos do vagão. O plástico, agora dourado, refletia o Sol nos rostos dos passageiros que, incomodados, esforçavam-se para encontrar um lugar para si. O tumulto aumentou, e era impossível fitar do lado de fora da janela. A pressão que fazia dentro do vagão parecia aumentar a cada trilho passado, e a ansiedade já se esboçava em seus rostos. Amontoaram-se em um movimento compassado em direção às portas. Ansiedade. O Sol queimava do lado de fora, em põe-não-se-põe indeciso. O trem para. As portas deslizam em uma preguiça arrastada. Estavam chegando. Para alguns, em casa, para outros, no trabalho. Para mim, em El Dorado.
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Durante a viagem, aproveitamos para fotografar o que era visto pela janela. As fotos foram sincronizadas e colocadas em um mapa de acordo com a localização:


Visualizar Trajeto Metrô BHem um mapa maior

Créditos

Repórteres Jéssica Malta, Kelly Cardoso e Laura Ribeiro


Fotografia, Infográficos Jéssica Malta, Kelly Cardoso e Laura Ribeiro

3 comments

  • Terezinha Silva

    Boa reportagem, meninas.
    Bom texto, infográficos e mapa. Senti falta de ver/ouvir gente no metrô, na abertura da matéria. Fiz outras sugestões pontuais, que envio por e-mail.

  • Amanda Almeida

    O texto ficou muito bem escrito, meninas.
    Geralmente gosto de ver rastros da percepção do repórter no texto, mas não sou muito fã desse tipo de narração, baseada unicamente na vivência de quem a escreve. Acho que isso vai muito de gosto mesmo, cada um tem um diferente. Mas mesmo não sendo o tipo que eu prefiro, não dá para negar que está bem redigido.
    O relato foi só de uma menina? O texto inteiro está bem coeso, por mais que vocês possam ter dividido a apuração, não dá pra notar, porque segue a mesma linha desde o início.
    As fotos e os infográficos ficaram muito bons também.
    Mas um ponto a se considerar é que a realidade do metrô em um domingo é muito diferente daquela vivenciada às 07h de uma segunda ou às 18h de uma sexta, por exemplo.

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