#ensaioBH – Tarot of Belo Horizonte

Qual é o papel da sorte na construção de sentido? A fotografia sempre foi caracterizada por retratar algo externo ao humano e, diversas vezes, depende da chance. Tony Chakar se destacou na última Bienal de Arte de São Paulo com sua obra “Of other Worlds that are in this one”, no qual ele utilizava software de reconhecimento de rosto para selecionar imagens de fotografias feitas por ele pelo celular. Para imagens – que muitas vezes não eram rostos, mas objetos como janelas ou calotas de carro – ele escrevia poemas. Mas, até que ponto é possível depender do acaso para narrar?

Tentando responder esta questão, propus um experimento. Até certo ponto inspirado no trabalho de Brandon Stanton, da página  Humans of New York, me lancei as ruas, me dirigindo a estranhos. Mas, ao invés de perguntar sobre suas vidas, lhes ofereci fazer uma leitura do tarot. Dependendo do tempo, fizemos de uma carta ou de três (passado, presente, futuro) e, juntos, tentamos entender o resultado.

Há três formas de entender o tarot. Alguns cartomantes consideram o baralho como medium de forças externas ao sujeito que estão cientes ou que interferem no rumo de suas vidas. Assim, as cartas se comunicam com o sobrenatural e, desta forma, conseguem expressar algo que foge de nosso entendimento. Para que isto corretamente, é necessário seguir os procedimentos adequados. Por ser uma visão do tarot como ritual, não poderia executá-la de forma tão casual como neste projeto.

A segunda, que pode ser entendida a partir de um diálogo com as ideias de Carl Jung, pai da psicologia analítica, consiste em entender que as 78 cartas do tarot consistem em representação de arquétipos e, portanto, todas as cartas são comuns ao nosso inconsciente coletivo e nos sabemos seu significado previamente. Então, eu peço a cada um para embaralhar as cartas enquanto reflete sobre determinada pergunta em relação a sua vida. Neste ato, as mãos iriam agir inconscientemente, organizando e selecionando as cartas segundo as respostas que nos mesmos sabemos, mas não reconhecemos. O baralho que utilizei, o Deviant Moon, tem como sentido exatamente revelar segredos obscuros, presentes em nosso inconsciente, constantemente representado pela figura da lua nas cartas.

Apesar disto, sou cético em relação a estas duas visões do tarot. Eu o entendo particularmente como uma proposta diferente. A seleção das cartas é completamente arbitrária e não segue nenhuma causa prévia, mesmo assim, ele continua a revelar aspectos de nossa vida de forma certeira. Isto ocorre porque o baralho que selecionei é uma obra artística e, portanto, suas ilustrações, apesar de possuírem significados particulares, possuem interpretações diversas e variadas, podendo ser sempre repensadas segundo a vida de cada leitor. Ao invés de simplesmente lhes responder o significado do livro de cada carta, eu peço a cada um que olhe e admire as ilustrações e que eles me digam o que eles pensam que significam. O Tarot não revela nenhuma história escondida, mas é uma ferramenta que nos permite construir narrativas para nossas vidas. Menos que um instrumento de adivinhação, ele deve ser entendido como um método para reflexão e meditação. Não devemos seguir seu resultados como uma mensagem certeira e absoluta, mas como uma autodescrição de nossas histórias.

Apesar de existir a séculos, sua popularização e o surgimento do tarot moderno só se consolidou no século XIX, com a publicação do Tarot Waite-Smith em 1910. De certa forma, ele é fruto do espírito da modernidade, da mesma forma que a fotografia. Afinal, o acaso não produz sentido, mas somos nós que criamos um para o acaso. E, é ao criar, que nos entendemos.

Caio Santos