Eu, robô?

Diversos filmes e séries de ficção científica contribuem para a visão do futuro construída no imaginário das pessoas. Isso se dá pelo fato de que vários conceitos e invenções tecnológicas retratados nas telas parecem estar muito próximos da nossa realidade. Próteses cibernéticas, androides, ferramentas que reproduzem ações humanas, realidade virtual; a lista é enorme.

Em Black Mirror, personagem conta com ajuda de software vivo para lidar com a falta do marido falecido [Foto: Reprodução/Internet]

A tecnologia mostrada em produções como a série Black Mirror não estará disponível tão logo quanto imaginamos. Pelo menos é o que afirmam os doutores Sérgio Fonseca e Dênis Franco, que participaram da palestra “Ciborgue: o fim dos limites versus dependência tecnológica”, realizada pelo evento Pint of Science,  que aconteceu em Belo Horizonte na segunda-feira, 15 de maio, na espeteria Filé Espeto & Cia. Na ocasião, Franco mencionou que não tem dúvidas de que o que acontece hoje será completamente obsoleto em dez anos, “entretanto, os aspectos da robótica, da cibernética e da inteligência artificial como imaginamos me parece muito distante”, explicou.

Fonseca, que atualmente é diretor da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG (EEFFTO), relacionou a dificuldade de maiores desenvolvimentos na área com o modo com o qual encaramos a tecnologia. “Infelizmente, nosso modelo de desenvolvimento e a nossa expectativa de atingir essa capacidade evoluída é baseada na ideia convencional que pressupõe que sistemas biológicos ajam como computadores. Computadores são bem inferiores a sistemas biológicos e são coisas de naturezas distintas. O modelo sobre o qual nós estamos construindo o futuro talvez não seja o mais adequado”, enfatizou o professor.

A palestra foi permeada por diversas perguntas do público, que aproveitou para tirar dúvidas – muitas delas sobre o futuro. “Seremos todos ciborgues?”, em certo momento, indagou uma participante, ao que Fonseca respondeu que certamente. “Todos nós somos, de certa forma, ciborgues. Já incorporamos próteses, de algum modo, à nossa identidade. Como exemplo, posso citar os óculos. Nós só não nos vemos como ciborgues porque essa prótese busca resgatar parâmetros de normalidade, e não aumentar as nossas potencialidades”, completou Franco.

Dênis também destacou que, apesar de já existirem sistemas capazes de realizar tarefas humanas específicas, como braços robóticos e carros autônomos, a ideia de criar uma inteligência artificial – tal qual a mostrada na série Westworld, por exemplo – é completamente utópica. “Ninguém sabe, até hoje, como o cérebro humano funciona, como surge a consciência. É comum que se faça comparações entre o cérebro e computadores. Mas esses sistemas são muito inferiores em termos de tomada de decisão e complexidade”.

Seriado Westworld explora relação futurística entre homens e máquinas. [Foto: Reprodução/Internet]

Sérgio, que teve seu primeiro contato com computadores em 1987, durante o mestrado no Canadá, afirmou que na sua juventude imaginava a tecnologia do futuro como a retratada na série de televisão – na qual eram mostrados implantes biônicos que davam ao protagonista poderes especiais, como força e velocidade. “Saí de uma adolescência com uma ideia muito distante da tecnologia, mas cheguei à fase adulta com um campo de visão mais aberto”.

Dependência tecnológica

Como a grande maioria dos usuários, Sérgio diz ser extremamente dependente de computadores e smartphones. “Acho que a tecnologia vai estar cada vez mais integrada às nossas vidas e nós estaremos cada vez mais dependentes dela, mesmo que não tenhamos consciência disso”.  Além do âmbito profissional, Fonseca conta que não consegue sair de casa sem seus aparelhos. “Quando vou viajar, por exemplo, sempre levo meu Iphone, Ipad e meu computador. Tenho mais computadores em casa que gente”, brinca.

Esse não é um hábito exclusivo do palestrante – o que sugere que, se o ciborgue ficcional ainda é distante, a integração com o mundo online é evidente. Letícia Aganetti Silva, de apenas 14 anos, afirma que usa o celular desde o momento em que acorda e que não consegue ficar muito tempo longe das redes. “Sinto que a tecnologia influencia muito a minha vida. Não fico mais de cinco horas sem meu celular e jamais esqueço meu carregador por aí”, afirma a garota, que foi ao local por se interessar pela temática.

Já Gilcelene de Brito Ribeiro, de 35 anos, contou que “a atual relação com a tecnologia não é imersiva, mas minha adolescência foi marcada pelo início da influência de computadores e o famoso bug do milênio dos anos 2000, que assustou muita gente. Tínhamos um medo muito grande de uma espécie de colapso nas comunicações e no fornecimento de energia. Muitas pessoas chegaram até a estocar comida. Nessa época, já era visível a influência que os computadores exerciam na vida das pessoas: uma falha poderia interferir nas questões mais básicas como alimentação”.

Aplicativo Adote Um Cara é considerado o app de relacionamento mais descontraído e bem-humorado do mundo [Foto: Reprodução/Internet]

“Já usei aquele aplicativo Adote um Cara e achei a experiência interessante, mas as pessoas não querem nada a sério, era só pela diversão. Eu não usaria de novo.” compartilhou Mariana Aganetti Silva, 20 anos, estudante de Ciências Biológicas. A jovem faz uso constante do telefone celular no trabalho e na faculdade, e, embora não esteja em muitas as redes sociais, conhece praticamente todas as mídias de interação. “Quando fui assaltada no mês passado, eu comprei o telefone no mesmo dia, porque não consigo ficar sem ele”, finalizou a estudante, que se considera obcecada por tecnologia.

Matéria produzida por Helena Antunes, Helvio Caldeira, Letícia Lopes e Stéphani Sales

para a disciplina Pauta e Apuração, sob supervisão do professor Nísio Teixeira.

3 comments

  • JP Viegas

    Interessante pensar que os professores citados na publicação não consideram “próxima” a chegada e o desenvolvimento efetivo da inteligência artificial. Eu penso de maneira totalmente oposta, de que isso já está batendo à nossa porta. Talvez não no nível de vermos robôs humanoides, como em A.I – Inteligência Artificial, mas em funções que se assemelham sim às funções do cérebro humano.

    A publicação relata que a tecnologia vista em Black Mirror pode não estar tão próxima, mas também tenho visões diferentes quanto à isso. A tecnologia já está visivelmente presente, mas o COMPORTAMENTO das pessoas ainda não atingiu o “status” Black Mirror. Em “Nose Dive”, por exemplo, faço uma grande analogia com o Instagram, que a cada dia é mais utilizado como um padrão de comparação entre pessoas. A interação em tempo real com os olhos já está disponível há alguns anos, no Google Glass, por exemplo.

    Retomando a questão da inteligência artificial: se hoje já estão sendo desenvolvidas ferramentas para que robôs exerçam o trabalho de jornalista, qual será o limite para o desenvolvimento desses sistemas daqui a 5, 10 anos? Acredito que a tendência seja, cada vez mais, que a automatização tome conta dos serviços da sociedade. O professor destacou que computadores são muito inferiores a sistemas biológicos. Será ? Os computadores hoje realizam funções de humanos com uma possibilidade de erro baixíssima, baseado em matemática. Coisas básicas, que antes exigiam uma pessoa para fazer (por exemplo: comprar/carregar um cartão de passagens de ônibus), podem ser desempenhadas por computadores. O exemplo mais avançado de inteligência artificial que temos hoje, e a cada mês se aprimora com a atualização dos smartphones são as “assistentes pessoais”, como a Siri. Esse futuro não está lá tão longe…..

  • larissafernandes

    “Todos nós somos, de certa forma, ciborgues. Já incorporamos próteses, de algum modo, à nossa identidade.”. Que trecho impactante! Interessante esse paradoxo que surge no texto: ao mesmo tempo que algumas projeções da ficção científica parecem bem distantes, tem outras que a gente já vive e nem percebe. Isso faz a gente se perguntar até que ponto as nossas “próteses” estão funcionando em organicidade com nossos corpos ou, na pior das hipóteses, afetando nossa saúde mental e física sem que a gente denote, já que muitas das “próteses” a gente nem lembra que tem…
    Eu, por exemplo, tenho dor no pescoço porque passo o dia todo com os músculos tensionados e projetados em direção à tela do celular.

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