Feminismo pra mim é…

DSC_0078

imagem projetada de Correio Braziliense

Como propósito do trabalho final de Produção de Texto, optei por retratar a forma como mulheres, inseridas na luta feminista, viam o movimento e suas potencialidades.

Para isso, foi feita uma sessão de fotos, na qual foi pedido a cada uma que escolhesse uma foto que representava o feminismo para ela, e essas imagens foram projetadas sobre as mesmas, enquanto elas dançavam, sorriam, se divertiam. Seguem ao longo do texto.

11313186_10206466422686718_4796273398015332785_o

imagem projetada do filme Thelma e Louise

“Estou tendo uma dificuldade imensa de pôr em palavras o meu apreço por ‘Thelma e Louise’. Sabe quando você assiste uma coisa e ela toca bem fundo, em temas que às vezes a gente não sabe nem explicar? Pois é. Talvez o ponto chave seja a questão toda da sororidade, do amor entre mulheres, mesmo. É talvez uma das coisas mais lindas que eu acho que o filme sintetiza: unidas nós somos mais fortes, nós nos protegemos, e a gente carrega o fardo uma da outra quando ela não aguenta mais. Especialmente quando falamos de machismo, e machismo esse que se manifesta em todos os níveis… desde forma mais “leve” ou sutil ou na situação seríssima que leva a todos os eventos do filme. Às vezes me sinto meio Louise. Cansada do tanto de injustiças que acontecem e da lógica como nosso mundo funciona, e tentando encontrar alguma força, alguma segurança, algum conforto. Tinha esse frame salvo no meu computador e acabei tirando a foto com essa cena, que acho uma das mais catárticas e até bem-humoradas do filme. Bem, é isso. Feminismo para mim está muito ligado à ideia de empatia.Talvez cada pequena ação feminista que façamos signifique uma fissura nesse sistema patriarcal. E de pouquinho em pouquinho, vamos caminhando na direção de um mundo mais justo.” (Maria Luísa Marques, 22 anos)

O movimento feminista, nos últimos anos, vem recebendo grande adesão do público jovem. Segundo pesquisa da agência Expertise, realizada em fevereiro de 2014, uma em cada três mulheres no Brasil se considera feminista ou muito feminista.

O ciberativismo, nesse sentido, contribuiu muito fortemente para que as ideias e ações do movimento se espalhassem e ganhassem força. Aliando a lógica de troca de experiências ao partilhamento de conhecimentos, conversas, grupos, o feminismo consegue prover informações, empoderamento, aceitação, diálogos e apoio para as mulheres que a ele recorrem. Facilita denúncias de casos abusivos, propaganda inadequada, cria um senso de pertencimento e comunidade. Foi desse mesmo ciberativismo que surgiu esse trabalho: foi o primeiro contato que as meninas aqui tiveram com a luta feminista enquanto movimento.

Mas o que esse feminismo de fato representa para as mulheres? Posso contar de várias experiências pessoais, das mais corriqueiras às mais graves, que vem à mente quando se fala de opressões de gênero. Minha mãe, apesar de possuir curso superior, receber menos que meu pai, que tinha nível técnico, minha irmã ser proibida de vestir shorts ou calças de ginástica em seu colégio católico, porque isso “provocaria os garotos”, eu mesma me privar de inúmeras coisas por medo do assédio, do que iriam falar em seguida, de como regulariam meu corpo.

O fato é que não existe apenas um feminismo. Existem ideias gerais, mas que são contempladas de maneiras diferentes por pessoas diferentes, dependendo da maneira como a mulher é, se entende no mundo, entende sua situação, etc.

A ideia então, ao fazer esse trabalho, foi a de pedir para cada uma das meninas que escolhesse uma foto que simbolizasse para si, de alguma forma, o feminismo. Elas foram fotografadas com essa imagem projetada nelas, e além disso, fizeram relatos sobre o que o feminismo representa para cada uma.

Sobre a luta cotidiana, Ana Guerra, 21 anos, diz: “Vejo o feminismo como uma experiência diária, e como tal, é um movimento muito mais multifacetado, dinâmico e orgânico do que eu esperava que seria quando tive meus primeiros contatos, com 15 anos. Acho que meu feminismo tem se mostrado cada vez mais resistência, e é essa minha palavra chave. Resistimos cotidianamente quando existimos juntas, quando nos vemos na outra e a vemos além de nós mesmas. Nesse sentido, é difícil delimitar um relato sobre o feminismo do que reconhecê-lo em ações que se desenrolam no cotidiano. Penso no feminismo quando me entendo como mulher lésbica, quando passo a compreender minha identidade racial. Penso no feminismo quando vejo a força de mulheres que lutam todos os dias pelo seu espaço e sua sobrevivência todos os dias, seja no ambiente doméstico, no trabalho, na universidade, nas ruas. E é nesse exercício diário que me sinto experimentando o feminismo e conhecendo suas diversas possibilidades.”

DSC_0040

imagem projetada de Adie’s Sketchbook

De fato, como dito por ela, o feminismo vai adquirindo novas dimensões à medida em que é vivido, aprendido, dialogado. Como experiência pessoal, digo que àprimeira vista, o movimento pareceu radical, estridente, agressivo e desorganizado. à medida que fui compreendendo sua importância, no entanto, pude constatar o quanto é comum serem feitos discursos no sentido de deslegitimar as pautas de luta.

Com isso, as meninas e mulheres aprendem a se proteger, a sinalizar quando há algo de errado, a ter poder de agência. O empoderamento acontece nesse sentido: de fazer com que elas saibam o que fazer, sintam-se acolhidas,

Raíssa Galvão, 19 anos, diz que “Feminismo me ensinou que eu não devo nada a ninguém por ser mulher. Uma das primeiras vezes que entrei em contato com o feminismo foi logo depois de passar da fase adolescência confusa e cheia de um sexismo velado que eu ainda não entendia. A partir daí, aprendi os conceitos maravilhosos de auto aceitação, respeito ao próprio corpo e, principalmente, independência. A sociedade ensina as minas que elas devem só se sentir especiais quando tiverem aprovação masculina e se livrar dessa falácia é um passo enorme. Uma vez que a gente entende e absorve que precisa ser suficiente só pra si mesma e, além disso, não dever delicadeza, prontidão e donzela-em-perigo para os caras, o empoderamento é imenso. É um processo que diminui a insegurança constante que eu sinto mais e mais. Nenhuma moça é obrigada a ter seus corpos tratados como domínio público, aguentar cantadas e, pior ainda, machismo de amigos próximos, com ideias tipo friendzone e ser-um-dos-caras. A gente não deve nada a eles. E, como já disse a maravilhosa Amy Poehler, tu não é obrigada a rir se o menino disse alguma coisa que não é engraçada.”

DSC_0057

imagem projetada de Pupillas

A pretensão é de que a liberdade chegue a todas. Que a inclusão seja plena nos direitos iguais: negras, pardas, brancas, de qualquer orientação sexual, independente de idade ou situação econômica. De fato, o empoderamento infantil tem sido alvo de grande preocupação, já que traz já na primeira idade, para as meninas, uma noção de valor que vai contra os valores sociais hegemonicamente ensinados: de que a elas estão reservados papéis mais frágeis, sensíveis, comportados e submissos.

“Era meu filme favorito. Mulan era o que eu queria ser, era a coragem que o mundo não me deixava – por ser uma menina – ter. Meu deus, ela acordava despenteada, que nem a gente acorda, sabe?! E em meio a dezenas de filmes, eu escolhi esse pra ser meu. Hoje as coisas fazem sentido. Não deixo de lado todas as controvérsias que esse filme envolve, mas não posso deixar de reconhecer o que ele significou pra mim. Enfim, uma garota podia desobedecer! Algo naquilo de abaixar a cabeça me incomodava em outros filmes – eu pensava: por que diabos ela não fala? Por que diabos ela não pode fazer? Não posso negar que me doeu vê-la humilhada por ser uma mulher. Todavia, quando ela volta… Meu deus, que mulher! Eu era Mulan. E ainda sou, eu acho.” Marina Fonseca, 21 anos.

DSC_0024

imagem projetada de Carolina Porfírio

“O sonho da mãe era uma menina, quase uma boneca, espécie de princesa
Que realizaria todos aqueles sonhos que o destino havia levado de soslaio
E que jamais poderiam ser recuperados
Ser médica, advogada, quem sabe um dia
Mãe de família, com certeza
Boa mulher, modelo social
Mas a filha cresceu assim, inquieta
Não se acomodava muito bem com certas questões
Achava que a profissão princesa já estava desgastada no mercado
Num descompasso, as inquietações, que eram poucas, tornaram-se excessivamente numerosas
Centenas de milhares, coisa inexplicável
Ficou chata
Coisa da puberdade, diziam
Logo passa
Não passou
E suas inquietações tantas encontraram inquietações outras, daquelas que também não conseguiam ser modelo social
Boa mulher
Mulher boa
E foram, assim, se unindo numa espécie de amizade
Sororidade, numa quase idêntica sonoridade
Logo passa, disseram
Não passou
Mais que dobrou
E as antigas inquietações se transformaram, amadureceram, multiplicaram
Tomaram forma, cor, textura, desejo, pulsão
Nome próprio, identificação
A mãe aprendeu a aceitar e se aceitar com o que lhe prometeram nascer para ser princesa
E que acabou não sendo
Promessa não cumprida
O amor e a luta colocaram em compasso o que se havia desunido
Um compasso imperfeito de gerações distantes
E que, de tão distantes, tornaram-se mais próximas
Por assim dizer”

(Isabelle Chagas, 19 anos)

DSC_0082

imagem projetada de Hannah Höch

Além disso, foi elaborada uma playlist colaborativa com as meninas que participaram do trabalho fotográfico, contando com músicas que tem por tema o feminismo ou a condição feminina. Nela, só há músicas cantadas por mulheres.

Por fim, um relato pessoal que foi transformado em quadrinhos, sobre entendimento e entrada no feminismo. A conclusão que se tira das entrevistas coletadas, dos relatos e conversas, é que o movimento vem ajudando efetivamente a essas mulheres no sentido de entenderem seus papéis sociais e entrarem em constante negociação e disputa de sentido com os mesmos. Fica a consciência de que a condição feminina há que ser considerada e há de ter suas demandas atendidas, para que a sociedade não machuque mais nossas mulheres e meninas, seja com discursos ou ações.

CSC_0009

Clique para ver em tamanho completo

 

Equipe

Ana Luísa Mayrink