Ficção [re]mixada: do luto por Sherlock aos crossovers

Maria G. Lara

Lawrence Lessig, advogado e criador da licença Creative Commons, define a cultura remix como uma evolução da cultura de massa em relação ao modos “read only” em vigor anteriormente. A cultura remix é esse cenário permeado pela tecnologia digital em que as possibilidades de apropriar-se dos produtos culturais e remodelá-los à sua maneira é perfeitamente possível para a maioria de nós. Outra característica que torna o remix o que ele é, é a premissa de que seus consumidores conheçam de algum modo as obras originais – caso contrário, o valor de remix se perde.

Quando pensamos em remix, automaticamente nossos pensamentos se voltam para a música, em especial o hip hop e a EDM, com seus samples e pick-ups e DJs. Justamente por essa fácil associação é que não me interessa falar sobre o remix musical aqui. Ao invés disso, eu quero pensar agora sobre o fenômeno dos fandoms. A definição mais popular para “fandom” no Urban Dictionary diz o seguinte:

The community that surrounds a tv show/movie/book etc. Fanfiction writers, artists, poets, and cosplayers are all members of that fandom. Fandoms often consist of message boards, livejournal communities, and people.

Os fandoms são, talvez, a forma mais expressiva da cultura participativa de Jenkins, e suas produções, o conteúdo chamado de fanmade, são grandes exemplos da produtividade textual de John Fiske. De acordo com Brown Scott, a primeira comunidade a ser considerada um fandom foi a dos fãs de Sherlock Holmes, dos livros de Conan Doyle. Na época em que o detetive mais famoso do mundo foi “morto”, em  1893, manifestações públicas de luto foram realizadas por seus fãs, e as primeiras obras de fanfiction foram criadas por eles entre 1897 e 1902. Os fãs de Westerns, de fantasia do tipo sword and sorcery e de ficção científica também foram grandes fandoms do século XX e foram responsáveis pelo surgimento de outra grande expressão da cultura fã: os zines.

Todas essas comunidades surgiram de gostos comuns por determinados produtos culturais e apropriaram-se deles, os ressignificaram, descontruíram e produziram conteúdos da forma como acharam apropriado. O slogan da Apple que Lessig usa para definir o que é fazer um remix – “rip mix, burn” – cabe perfeitamente para descrever a forma como se dão as produções fanmade.

Poderíamos parar o raciocínio nos primeiros fanzines e já justificar a cultura remix enquanto parte da cultura fã e vice-versa, mas os fandoms nunca parecem satisfeitos com os próprios modos de produção.

A Internet 2.0, grande facilitadora da cultura remix, também impulsionou as produções fanmade. Nos anos 2000, grandes sites surgiram centralizando esses trabalhos, sejam os que foram criados para propósitos menos específicos, como o Tumblr e o Deviantart, ou espaços criados com o principal intuito de compartilhar esses produtos, como o Fanfiction.Net e o Archive Of Our Own. O Archive, ou AO3, se apresenta aos visitantes como “A fan-created, fan-run, non-profit, non-commercial archive for transformative fanworks, like fanfiction, fanart, fan videos, and podfic” e enumera: são mais de 26.530 fandoms, 1.331.000 usuários e 3.472.000 trabalhos postados na plataforma.

Indo ainda além, outra forma de fanwork que se popularizou na internet foram os crossovers. Talvez uma das melhores formas de se falar de um remix entre obras de ficção seja usando os crossovers. O site Fanlore define crossover como “a fanfic in which two or more fandoms are combined in some way”, embora o conceito possa estender-se para fanarts, fanvids, qualquer tipo de conteúdo fanmade.

Selecionar elementos e personagens de dois ou mais mundo ficcionais completamente separados e “costurá-los” num crossover é para a ficção o que um mashup é para os remixes musicais (não que os remixes musicais não estejam presentes na cultura fã de obras de ficção, como essa paródia demonstra).

Desenho digital de Plumbum, usuária do Deviantart.

Voltando às origens dos fandoms, se misturarmos Sherlock Holmes, sci-fi e westerns o que teremos será um dos maiores fandoms crossover da internet: o SuperwhoLock, um encontro entre os mundos das séries da BBC Sherlock e Doctor Who e da série da CW Supernatural. Sherlock, baseada nos livros de Conan Doyle mas trazendo Holmes numa roupagem mais moderna, foi lançada em 2010; Doctor Who, um fenômeno de ficção científica com grandes saltos no espaço-tempo, está no ar com idas e vindas desde 1963; e Supernatural, uma espécie de western sobrenatural, teve seu primeiro episódio lançado em 2005. As três séries certamente não foram pensadas para coexistirem, muito menos foi planejada pelos produtores a fusão que ocorreu quando os fandoms encontraram-se na internet.

O fenômeno dos fandoms não é novo e não parece que vá acabar tão cedo, uma vez que parece um movimento natural que fãs procurem outros fãs para compartilhar daquilo que lhes concerne – e a internet parece ser o espaço ideal para isso.

A cultura dos fandoms e os produtos fanmade são por essência resultado do ato de se apropriar e ressignificar objetos que, quase sempre, são produzidos visando um sentido hegemônico. Sem que se deem conta, os fãs remixam suas séries, jogos e livros preferidos o tempo todo, seja criando memes que só serão compreendidos por outras pessoas que compartilham daquele repertório, escrevendo fanfics que inserem seus personagens preferidos num universo diferente ou compondo paródias.

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