Identidade trans em pauta

Alunos da UFMG apresentam reportagem especial sobre nome social em seminário na Universidade

Reunião de pauta, prospecção, apuração, entrar em contato com as fontes, conseguir equipamento, lançar mão de diferentes mídias… O processo de produção de uma matéria pode ser um grande desafio, e foi sobre ele que os alunos Edson Nascimento e Larissa Costa discorreram no I Seminário Labcon: mostra de trabalhos produzidos, que ocorreu na quinta-feira (18 de agosto) no Auditório José Dias Bicalho na Fafich. A apresentação da dupla partiu de uma reportagem de sua autoria, intitulada Identidade: o papel do nome social das pessoas trans e desenvolvida como projeto final do Laboratório de Produção de Reportagens, ministrado pela professora Sônia Pessoa, no primeiro semestre de 2016.

Segundo a professora Sônia, a proposta era que os alunos escolhessem uma temática de seus afetos, na qual tivessem interesse em mergulhar. A pauta não deveria ser fria, no sentido de não tocar as pessoas que a lessem, e sim relacionada a uma temática social relevante, capaz de chamar a atenção dos leitores. Além disso, a orientação era de que a produção não fosse mídia-centrada, mas que explorasse as diferentes possibilidades dos textos verbo-audiovisuais.

No caso de Larissa e Edson, a ideia da pauta surgiu de uma atividade anterior do mesmo laboratório, para a qual os estudantes deveriam produzir um perfil multimídia. Aproveitando a oportunidade para dar visibilidade a uma personagem icônica de BH e à causa da diversidade sexual e direitos LGBT+, a dupla escolheu como personagem a atriz, bailarina e performer transgênero Cristal Lopez. Dentre os vários assuntos abordados na entrevista, foi a sua relação de orgulho e identificação com seu nome que motivou os alunos ao aprofundamento no tema e ao encontro com outros personagens para compor a reportagem.

Edson e Larissa

Edson Nascimento e Larissa Costa [foto: Bianca Leonel]

Construindo uma reportagem

Segundo a apresentação da dupla no I Seminário Labcon, encontrar e manter contato com sujeitos dispostos a depor foi um dos desafios da atividade. Nesse processo, as redes sociais foram grandes aliadas: as fontes não só se dispuseram a participar através de grupos de Facebook e amigos em comum, como também gravaram seus depoimentos via Whatsapp, além de pessoalmente. Essa flexibilidade do meio online permitiu contatar pessoas de outras regiões do Brasil, como São Paulo e Goiás, além de profissionais com conhecimentos sobre a temática abordada.

A falta de tempo, os prazos curtos e a complexidade do tema trouxeram muitos desafios para os alunos. Mas apesar disso, foi fácil notar o quão importante é, para as pessoas transgênero, tratar desse assunto. Para elas, o nome que escolheram carrega um valor afetivo, ideológico e identitário muito forte. “Não necessariamente temos uma relação de pertencimento com o nome que uma pessoa trans tem”, define Larissa. Como contou Edson durante o Seminário, o caso de uma das fontes é ilustrativo dessa relação de carinho e orgulho: no princípio do contato, ela ainda não havia assumido publicamente o nome, e, posteriormente, a partir do reconhecimento de seu nome pelo círculo de amigos próximos, passou a demonstrar maior segurança.

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Larissa e Edson durante a apresentação [foto: Bianca Leonel]

Entre dificuldades de como lidar com programas de edição e integrar diferentes mídias, Larissa e Edson apontaram também as especificidades da temática de direitos de minorias. Nesse sentido, Edson disse que a tônica foi “dar voz a essas pessoas, porque não é um discurso nosso”, além de respeitar a identidade de gênero das fontes e não ser invasivo nas entrevistas. No Brasil, há iniciativas que visam orientar comunicadores acerca de Direitos Humanos e minorias, como o Minimanual do Jornalismo Humanizado, do projeto feminista Think Olga, e o Manual de Comunicação LGBT, da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais.

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Método

Durante todo o processo, os discentes contaram com a orientação da professora Sônia Pessoa e o auxílio da estagiária docente Bárbara Caldeira, ambas com experiência em redação jornalística. Subvertendo as lógicas da sala de aula, Bárbara atuou como editora na negociação com fontes e articulação do projeto, para que os alunos tivessem uma vivência de produção.

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Etapas da produção de uma reportagem

A turma era formada por um grupo de alunos ainda inexperientes, vindos das diferentes habilitações do curso de Comunicação (Jornalismo, Relações Públicas e Publicidade e Propaganda). Apesar dessa diversidade parecer dificultar o desenvolvimento das reportagens, não foi essa a impressão da professora Sônia: “Foi muito interessante porque os olhares diferenciados de cada um desses alunos nos permitiu também trazer olhares diferenciados para a própria produção. Foi muito instigante porque a minha experiência […] pode dialogar com a inexperiência positiva dos estudantes, a curiosidade, os medos da produção, de lidar com a fonte, os desafios de não conhecer programas de edição e ter que aprender ali na hora, então tudo isso foi muito interessante e nos fez crescer muito no semestre”.

Professora Sônia Pessoa

Sônia Pessoa [foto: Bianca Leonel]

Além disso, os alunos tiveram um desafio a mais: eles não teriam acesso a equipamentos sofisticados. A produção de vídeo, áudio e texto verbal deveria ser feita com material mobile. Para a reportagem de Edson e Larissa, eles utilizaram uma câmera semi-profissional e um gravador de áudio de um telefone celular, culminando em um produto final com texto, fotos, vídeo, áudios e infográfico.

Recepção do Público

Ao fim da apresentação, os alunos foram parabenizados por colegas e docentes presentes no Seminário, que ressaltaram a importância de abordar temas como o do nome social de pessoas trans e elogiaram a qualidade do produto final. Segundo destacou a professora Joana Ziller, do Departamento de Comunicação Social da UFMG, outros estudantes de Jornalismo devem seguir o exemplo de Larissa e Edson, pois “são histórias muito ricas que a gente tem medo de chegar perto, mas costumam ser mais receptivas”. O fato de homens trans terem sido incluídos no rol dos entrevistados também foi apontado como positivo pelo público.

Auditorio Luiz Bicalho

Plateia durante o evento [foto: Ana Cláudia Maiolini]

Auditório Luiz Bicalho

[foto: Ana Cláudia Maiolini]

 

A formação humanitária dos estudantes de Comunicação Social foi outro tópico discutido pelos presentes. Para eles, apesar da inquestionável importância de ofertar disciplinas como Tópicos em Comunicação Social: Mídia, gênero e sexualidade, e até mesmo de torná-las obrigatórias, tais iniciativas não garantem o respeito aos Direitos Humanos por parte dos estudantes. A professora Sônia considera que esta deve ser uma preocupação não só do departamento do curso, mas também de cada um dos alunos ao longo de sua trajetória acadêmica, refletindo-a mais tarde no exercício profissional. Sobre isso, ela ainda deixou um recado para os estudantes que estão ingressando no curso de jornalismo e querem construir uma boa carreira acadêmica e profissional.

 

 Questão trans na UFMG

Na Universidade Federal de Minas Gerais, a Resolução 09/2015, aprovada em julho de 2015 pelo Conselho Universitário, determina o uso do nome social no âmbito da instituição. A medida é fruto do trabalho de uma comissão instaurada com o fim de discutir a questão trans na UFMG e apontar discussões e medidas a serem desenvolvidas na área. Em entrevista para a Agência de Notícias da Universidade, Marco Aurélio Máximo Prado, professor da Fafich e membro da comissão, disse que após esse importante passo a ideia “é formar uma nova comissão que pense outros mecanismos de inclusão, como uma política de ações afirmativas para pessoas trans que deveria atravessar todas as lógicas institucionais da UFMG.”

Por outro lado, o Ambulatório de Transexualidades do Hospital das Clínicas da UFMG, um dos poucos centros especializados nas demandas da comunidade travesti, transexual e não-binária no estado, se encontra fechado desde setembro de 2014. O Coletivo Mooca, que luta por sua reabertura, afirma que não foi dada justificativa convincente à comunidade LGBT pelo Governo de Minas Gerais, responsável pelo espaço. ■

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Cristal Lopez em vídeo produzido por Edson Nascimento e Larissa Costa

 

 

Equipe:

Ana Cláudia Maiolini
Bárbara Bianca Leonel
Beatriz Cordeiro Lopes
Isadora Ferreira
Olívia Binotto

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