(In)visibilidade Indígena

Em 2012 as questões indígenas vieram à tona e ganharam grande repercussão nas redes e na mídia quando os povos Guarani Kaiowá sofreram diversas ameaças de despejo no Mato Grosso do Sul e encontraram pouco apoio governamental e social para sua luta pelo território. Auxiliados pelo CIMI (Conselho Indigenista Missionário) conseguiram ter visibilidade a partir das redes sociais, quando publicaram uma carta de ameaça de suicídio coletivo. No período, diversas pessoas substituíram seus sobrenomes no Facebook por “Guarani Kaiowá” em apoio a causa. A partir da data de publicação desta carta, 11.10.2012, fizemos uma análise  da repercussão dos principais jornais nacionais acerca das postagens e comentários no Facebook sobre indígenas; aproveitamos o destaque causado pela carta para ver como foram as postagens sobre os povos indígenas e que tipo de repercussão elas tiveram nesse período, já que esse tema é muito invisibilizado pela mídia. Pensamos em páginas de grande alcance e visibilidade nacional e internacional e escolhemos veículos jornalísticos, por divulgarem informações gerais e terem um público heterogêneo. A partir disso, escolhemos as três páginas jornalísticas com maior número de likes O Globo, Folha de SP e VEJA. Acrescentamos a esse grupo a página do O Tempo, que tem o alcance  menor, mas que também teve grande repercussão gerada por um texto de Walter Navarro, colunista semanal, à época. Os dados do Facebook foram extraídos pela ferramenta Netvizz. Os intervalos escolhidos para a coleta foram os mesmos: todos os posts entre 08/10/2012 a 30/11/2012, 53 dias, de acordo com a data de divulgação da carta dos Guarani Kaiowá: dia 11 de Outubro de 2012. A seguir, as análises feitas em cada página.   Jornal O Tempo O Tempo é um jornal regional de Belo Horizonte que, na época da mobilização Guarani Kaiowá, publicou um texto sobre a temática em uma de suas colunas semanais. O articulista Walter Navarro publicou em sua coluna, no dia 08/11/2012, um texto intitulado “Guarani Kaiowá é o c… meu nome agora é Eneas P…”, como o próprio nome sugere, de caráter altamente pejorativo, de incitação ao ódio aos Guarani Kaiowá e aos povos indígenas em geral. O jornal apagou a matéria online e publicou uma nota informando o afastamento do colunista. Extraímos no dia 17/05/2016 aproximadamente às 20h todo o conteúdo da página no mesmo período dos demais veículos (08/10/2012 a 30/11/2012) e notamos que não haviam postagens sobre as causas indígenas, correlato ao tema, só uma nota de afastamento do Walter Navarro, que gerou interações inéditas na página.

Nota de afastamento do colunista Walter Navarro

Nota de afastamento do colunista Walter Navarro

  Por se tratar da coleta de dados de maneira retroativa, podemos ter perdido muitas postagens, número de likes, shares e comments; o próprio texto do Walter Navarro, que pode ter gerado interações valiosíssimas para a análise, foi apagado pelo jornal. Nessa nota de afastamento, os comentários, em suma, elogiavam a medida tomada pelo jornal; outros reivindicavam e traçavam debates quanto á liberdade de expressão. Como os comentários não referenciavam diretamente às questões indígenas, mas sim ao ato do jornal, não nos prendemos muito mais a analisar aquilo que estava sendo comentado e nem o posicionamento do jornal.

Grafo das interações usuários-posts produzido pelo Gephi

Grafo das interações usuários-posts produzido pelo Gephi

  Por este grafo criado no Gephi, destacamos na extremidade superior esquerda um nó maior, de tom verde mais escuro, com várias arestas conectadas apenas a ele. Este nó é a nota de afastamento do Walter Navarro feita pelo jornal O Tempo. Como pudemos ver, várias pessoas (nós menores) que antes não interagiam com o jornal em nenhuma outra postagem no período analisado, teve essa nota como principal, e até mesmo, única motivação para interagir (arestas) de alguma forma com o veículo. Na próxima imagem é possível acrescentar mais dados a essa informação. O post não só atraiu novas interações como esteve no topo do ranking de curtidas e comentários no período coletado. Foram 730 curtidas, 589 comentários e 421 compartilhamentos.

Nesse gráfico temos à esquerda, a mensagem do post. Na linha inferior, o número correspondente às curtidas: quanto maior a barra, maior o número de curtidas. O degradê do verde é representado de acordo com o número máximo e mínimo de comentários em posts que a página teve, sendo branco = 0; e verde escuro = 589 (valor máximo encontrado). Vale o adendo de que foram coletados 1385 posts, 6199 likes, 1693 comentários, 25793 compartilhamentos distribuídos no total no período.

Porcentagem de comentários em post. Em destaque, o azul é a nota de afastamento do colunista.

Porcentagem de comentários em post. Em destaque, o azul é a nota de afastamento do colunista.

Esse post teve 34,79% dos comentários totais realizados na página no período, enquanto os outros foram dispersos em postagens aleatórias. Mesmo que a página do jornal O Tempo não tenha feito ou tenha apagado postagens com a temática indígena, os gráficos apresentados mostram como a temática estava em alta no momento e essa ausência de conteúdo não pode deixar de ser pensada como um dado significante, o que veremos na análise da Revista Veja.     Revista Veja A Revista Veja, ainda que não se esperasse muito dela pela sua má fama, ficamos assustadas com o resultado: no período coletado (11/10/2012 a 30/11/2012), não contém nenhum post no Facebook com relação a nenhum tipo de questão indígena. A única referência encontrada é na imagem da capa da revista (edição 14 de novembro de 2012) que leva Barack Obama como destaque e apenas uma pequena referência no canto superior esquerdo com a imagem de três índias e o texto: “ÍNDIOS: Uma pesquisa revela a realidade das tribos no Brasil”. Ou seja, a chamada não especifica sobre quais agrupamentos indígenas é a matéria e nem a mensagem do post faz nenhum tipo de alusão ou citação ao conteúdo da matéria ou às ocorrências que visibilizaram o sofrimento dos povos Guarani Kaiowá no período. Além disso, na mesma dimensão, no canto superior direito da capa, a imagem de uma mulher com a seguinte chamada: “CORPÃO: As dietas, exercícios e segredos das mulheres-bomba.” Entendemos que a falta de postagens representa um dado importante: revela que uma revista nacional de grande alcance não deu visibilidade a um assunto que foi polêmico na época de sua ocorrência, e que, além disso, é de grande importância social. A Veja se isenta de retratar a questão indígena, tratando-a assim como uma questão que não vale a pena mencionar, com menor importância. No entanto, comentários sobre a questão indígena surgiram em postagens de outros assuntos, chamando a atenção sobre a ausência do caso dos Guarani Kaiowá. Veja algumas dessas imagens na galeria.

Folha de SP   Na página do Jornal Folha de SP, após a extração de dados, utilizamos o filtro do excel na planilha de posts e procuramos pelas seguintes palavras: índio; indígena; guarani; Mato Grosso do Sul; funai; demarcação; selvagem. Dos 1221 posts, 13 abordavam o tema; desses, 7 referenciavam os guarani-kaiowá, seja de maneira direta ou indireta. Depois de tipificar as postagens, utilizamos o Tableau para destacar o engajamento das notícias filtradas perante todas as outras postagens do veículo, veja nas imagens seguintes. 

  Nesse gráfico os dados ficam mais claros. As colunas vermelhas são dados relativos aos posts com temáticas indígenas, e as verdes são os dados gerais da página. A primeira dupla de barras são os comentários feitos na página no período coletado, ou seja, dos 151.806 comentários realizados na página no período, 5.131 foram em posts de temáticas indígenas. Importante ressaltar que “engajamento” é a soma de todas essas interações: curtida, comentário e compartilhamento. Esses números são pequenos comparados às postagens de assuntos diversos. Mas para avaliar a visibilidade do tema indígena, seria necessário eleger outra temática e fazer a comparação. No entanto, podemos perceber que, ao contrário da revista Veja, a Folha de SP tratou da temática e não a invisibilizou. O Globo A página de O Globo foi a que mais encontramos postagens com conteúdos sobre indígenas. Dentre os 1.462 posts, coletamos através das palavras “índio”, “indígena”, “guarani” e “mato grosso do sul”, 21 postagens as quais separamos em tabelas, assim como foi feito com a Folha de SP. Nas tabelas abaixo você pode visualizar os dados gerais da página no período (08/10/2012 a 30/11/2012) e na segunda tabela, os dados coletados dos posts com conteúdos indígenas:

Nos gráficos de barra você pode ver a comparação do engajamento entre os posts em geral de O Globo (azul), e aqueles filtrados com conteúdos indígenas (vermelho). Entende-se por “engajamento” a soma de curtidas, comentários e compartilhamentos.

Relação de O Globo com a Folha de SP No gráfico abaixo temos a relação das postagens feitas com a temática nas duas páginas, 13 na página da Folha e 21 na do Globo.

A partir deste gráfico, podemos confirmar o caráter mais nacional do jornal O Globo em relação ao Folha de SP, que é mais focado nos assuntos do estado de São Paulo. O maior engajamento não significa que o jornal O Globo deu maior visibilidade ao assunto, mas que é mais acessado e tem maior alcance dos usuários no Facebook. Comparando os dois jornais, percebemos que ambos trataram a temática durante o período de tempo  analisado, e o número de postagens (13 na Folha e 21 no Globo), é aceitável se pensamos na ausência de posts dos outros veículos. Veja na galeria algumas dessas postagens.

O ano do período de análise (2012) dificultou os resultados, análises e aprofundamento dos estudos de interações; entretanto, o resultado sobre a proposta de identificar qual a visibilidade dos indígenas trouxe descobertas interessantes. Como a demissão do colunista Walter Navarro provocada por sua opinião sobre a temática, que mostra a dimensão de importância da causa; a vigilância dos internautas na ausência de posicionamento da Veja, questionando o veiculo sobre seu silêncio e o número significativo de postagens da Folha de SP e do O Globo, confirmando a repercussão do tema.  

Equipe

Alessandra Giovanna, Fabíola de Paula, Helena Merlo e Selene Machado