Jornalismo Automatizado: o Jornalismo das coisas?

Por Gabriel José

No livro “Comunicação ubíqua: Repercussões na cultura e na educação“, Lúcia Santaella apresenta a Internet das Coisas como “uma expressão atraente e popularizada de um complexo tecnológico amplo de redes inteligente ubíquas, que envolvem, entre outros recursos, comunicação máquina a máquina com dispositivos conectados à internet”. Enquanto o professor Carlos d’Andréa e a então mestranda da UFMG, Silvia DalBen, no artigo “Redes sociotécnicas e controvérsias na redação de notícias por robôs” analisam as mudanças na rotina jornalística e das relações entre o público, os jornalistas e a mídia geral, após os avanços tecnológicos e o advento da internet, culminando no surgimento do Jornalismo Automatizado. Seria então o Jornalismo Automatizado, um exemplo da aplicação da Internet das Coisas atualmente?

Vale ressaltar que esse texto não busca responder a pergunta introduzida anteriormente e sim trazer dados, conceitos, estudos e opiniões que convergem e divergem sobre esse tema, resgatando textos e discussões levantados na aula de Processos e Criações em Mídias Digitais, com a professora Fernanda Duarte.

Apesar de já existir há muito tempo – a primeira aplicação de um software NLG (Natural Language Generation) no Jornalismo foi em 1994, desenvolvido no Canadá para produzir notícias acerca da previsão do tempo – a prática do Jornalismo Automatizado só passou a ganhar mais repercussão, quando grandes jornais como o LeMonde, Los Angeles Times, The Washington Post e agências como a Associated Press passaram a fazer parcerias com empresas especializadas em Jornalismo Automatizado, como o Narrative Science, Automated Insights e a criar seus próprios softwares como o Quakebot. No meu caso em particular, meu primeiro contato com algo parecido foi com o jogo de simulação de futebol, FIFA14, em que o modo carreira possuía um painel de notícias, onde as reportagens eram feitas de acordo com seu desempenho pessoal.

Enquanto isso, a Internet das Coisas está ganhando cada vez mais espaço, sendo aplicada em empresas em diversos casos – como monitoramento de equipamentos ou na entrega de produtos através de transportadoras – e também em situações cotidianas, como com o surgimento de casas inteligentes onde os aparelhos possuem certa autonomia para operarem, demandando menos esforço do usuário.

O editor chefe da agência de notícias Press Association, Pete Clifton, disse para o jornal Press Gazzete, citado na matéria do Jornal Nexo, ao ser indagado sobre a utilização de softwares de automatização de notícias pela empresa que: “Eles tomarão o lugar de jornalistas de verdade? Claro que não. Um robô não irá cobrir um grande incêndio ou um grande caso jurídico”. Realmente, de praxe, as notícias criadas por algoritmos são de temas mais rasos, como esportes, clima, etc. mas como citado pela Silvia DalBen em sala de aula, algumas aplicações, utilizando de recursos da Internet das Coisas, já estão ultrapassando esses limites, como no caso do software criado para noticiar furacões nos Estados Unidos e que sem nenhuma intervenção humana, noticiou um incidente em primeira mão. Posteriormente, com a intervenção de um jornalista humano, a notícia foi acrescidade de informações mais apuradas e complexas.

Estas possibilidades jornalísticas que surgiram com o avanço da tecnologia, dialogam com o texto “Cidade e mobilidade. Telefones celulares, funções pós-massivas e territórios informacionais” em que o André Lemos diz: “Na atual fase da mobilidade e das redes sem fio, estamos imersos no que alguns autores identificam como uma nova relação com o tempo, com o espaço e com os diversos territórios. Trata-se de formas de compressão espaço-temporal, de desencaixe, de desterritorialização, de espaços líquidos, de novos nomadismos”. No caso do jornalismo, essa reconfiguração permite que o jornalista não precise estar presente durante um acontecimento para que ele possa ser noticiado, como no caso do The Washington Post que cobriu as Olimpíadas do Rio, através de um Twitter que produzia seus conteúdos de forma instantâneas e automatizadas.

Por fim, mesmo com polêmicas geradas por declarações como a do professor de Ciências da Computação da Northwestern University e Chief Scientist do Narrative Science, Kristian Hammond, que previu de forma errônea, em 2012, que em cinco anos um robô ganharia o Pulitzer, é necessário entender a importância das possibilidades criadas pelo Jornalismo Automatizado e pela Internet das Coisas, lembrando que mesmo com o avanço da tecnologia, o jornalista humano continua indispensável, ou seja, a automatização vem pra facilitar processos e não para substituir pessoas.

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