Jornalismo móvel

A produção jornalística se transformou nos últimos 20 anos com a difusão da internet sem fio e dos aparelhos eletrônicos. Fatores como o incremento da tecnologia 3G/4G, a sofisticação dos dispositivos móveis e a popularização das redes sociais criaram um novo modelo de produzir notícias: o jornalismo móvel. Este é definido por Fernando Firmino da Silva (2015), no livro Jornalismo Móvel, como “uma modalidade de prática e de consumo de notícias através de tecnologias móveis (smartphones, tablets, celulares e outros dispositivos similares)”.

O autor propõe a divisão do jornalismo móvel em cinco fases: tele-analógica entre 1960 e 1970 (influenciada pelo telégrafo sem fio e pelos dispositivos sem conexão à internet); portátil analógica em 1980 (etapa de transição entre o móvel e o digital marcado pelo uso de gravadores analógicos portáteis); mobilidade expansiva em 1990 (pré-início do jornalismo digital com o surgimento de dispositivos digitais e envio de conteúdos por redes digitais de telefonia); ubíqua em 2000 (início do jornalismo móvel digital com a expansão das redes sem fio ubíquas e dos computadores portáteis) e, por fim, alta performance e era pós-PC em 2010 (fase vigente com as tecnologias de alta velocidade, definição e processamento, além da computação em nuvem e dos incontáveis aplicativos).

Essa nova categoria alcança atualmente na “era pós-PC” um caráter mais instantâneo com a mobilidade física e informacional, agregando novas dinâmicas às rotinas produtivas dos jornalistas. Os processos de apuração e compartilhamento de notícias modificam-se, desse modo, a partir da incorporação de inúmeros dispositivos com acesso a internet, sistemas operacionais dinâmicos, recursos multimídia, acessórios – como lentes, microfones externos, tecnologia vestível, dentre outros – e serviços de armazenamento em nuvem que possibilitaram criar e emitir conteúdos do próprio local do acontecimento.

Os repórteres adquiriram, neste contexto, uma nova linguagem narrativa e inovadoras possibilidades de trabalho a distância e transmissão ao vivo, o que elevou o exercício do jornalismo a uma capacidade multitarefa e polivalente. As novas mídias também desenvolveram novas formas de relação entre os produtores e os consumidores de notícias. Estes passaram a influenciar cada vez mais a pauta dos veículos de comunicação, a demandar atualizações contínuas e a participar, via redes sociais, da produção jornalística. Para proporcionar essa colaboração do público, as corporações midiáticas estão se reinventando com a adesão ou criação de aplicativos interativos, se aproximando da cultura de convergência.

À vista disso, o autor analisa o caso do Jornal Extra do Rio de Janeiro, que estabeleceu nos últimos anos uma série de iniciativas focadas no jornalismo móvel. Publicado pela Infoglobo (empresa de jornais do Grupo Globo), o veículo foi o primeiro do país a utilizar, a partir de junho de 2013, o aplicativo WhatsApp para receber conteúdos com teor jornalístico (mensagens de texto, fotos, vídeos e áudio). Experiência que integrou o projeto “Repórter 4G” e foi posteriormente adotado em outros veículos, como o Folha de S. Paulo.

O periódico já havia implementado, em 2009, o projeto “Repórter 3G”. Caso em que o jornalista trabalha equipado de dispositivos de fácil mobilidade (notebooks, smartphones, carregadores veiculares), apura as informações no próprio local do evento e produz as notícias sem a necessidade de retornar à redação. Firmino explica que esse “modelo também faz aparecer a noção hiperlocal (…), tendo em vista o desdobramento do jornalismo de proximidade com uma relação mais interativa com o público com pautas sendo construídas através da mobilidade do repórter pelos bairros e comunidades”.

Depois do pioneirismo do Jornal Extra, outras empresas midiáticas também aderiram ao jornalismo móvel. O Sistema Jornal do Commercio de Comunicação desenvolveu em 2013 o aplicativo comuniQ para que os leitores possam enviar informações, relatos e denúncias sobre problemas no seu bairro. Esses materiais são utilizados pelos jornalistas como fontes de referência e podem ser publicados nos cinco veículos do grupo. A Rede Globo Nordeste opera um aplicativo similar, o publiQ, que permite ao repórter a gravação e o envio de áudios, vídeos, fotos ou textos para o sistema de publicação do canal.

Diferente desses conglomerados midiáticos, a Mídia Ninja representa, segundo Firmino, “um caso ilustrativo da apropriação e remixagem das tecnologias móveis”. O padrão de jornalismo móvel produzido pela página inovou com as narrativas participativas e em tempo real que transformaram os smartphones em equipamentos de transmissão ao vivo via streaming, como ocorreu na cobertura dos protestos de junho de 2013 no Brasil.

O jornalismo móvel, portanto, vem conquistando relevância nas práticas jornalísticas por permitir que as informações atinjam uma ampla audiência mais rápido. Cada vez mais jornalistas, ativistas e repórteres cidadãos utilizam seus dispositivos móveis como poderosas ferramentas para produzir notícias de qualidade. Firmino, entretanto, questiona os limites éticos e de privacidade da aplicação de tecnologias no jornalismo, como o uso de drones e tecnologias vestíveis. Para ele é fundamental “olhar sobre as questões teórico-metodológicas no que se refere à necessidade de abordagem quanto à definição do conceito e sua operacionalidade”.

3 comments

  • Tayrine Vaz

    Concordo com Helvio sobre a questão das empresas não estarem atentas para as especificidades dos celulares, já que por vezes o conteúdo não é compatível com o mobile. Confesso que o conceito de jornalismo móvel (também conhecido como mojo) não era claro para mim, percebi também que não há um consenso sobre o assunto, li um pouco sobre o tema e descobri uma definição proposta por dois jornalistas móveis . Stephen Quinn e Ivo Burum escreveram um livro sobre jornalismo móvel e buscaram esclarecer principalmente o conceito, que segundo Quinn seria um jornalismo feito exclusivamente pelo celular, elementos como produção, reportagem, edição e legendas são produzidos por ferramentas do mobile. Logo em seguida, encontrei opiniões divergentes que afirmavam que o conceito de mobilidade estaria ligado ao jornalista, o profissional precisa ser móvel, não o equipamento.
    Apesar de compreender as dificuldades que alguns profissionais têm e teriam em produzir um conteúdo totalmente em mobile, me questiono se não seria essa a própria dificuldade em adaptar os conteúdos de sites para celulares, pois ao meu ver uma forma efetiva de você saber o que funciona ou não para um determinado dispositivo, é pensar tudo a partir dele.
    Outro aspecto que também achei interessante nas minhas buscas sobre o tema, foi a relação entre segurança dos profissionais e o trabalho jornalístico. Sobre a segurança dos profissionais, li relatos de jornalistas que explicam que fazendo uso apenas dos celulares, eles conseguem passar despercebidos em situações de risco, como aconteceu com Nick Garnett da BBC que cobriu confrontos entre policiais e imigrantes na Hungria, revoltas em Manchester, apenas pelo celular. Isso também pode ser observado em iniciativas brasileiras, como o Mídia Ninja quando cobriu os protestos de junho de 2013, que por aspectos como: uso de celulares, vasta rede de jornalistas e não serem um veículo tão conhecido pelo público na época, os profissionais conseguiam produzir in loco e transmitir informações, sem serem identificados como jornalistas.

  • Helvio Caldeira

    Gostei muito do texto, bem explicado. Enquanto futuro jornalista, me pego pensando em alguns detalhes que o profissional do campo deve se atentar em um contexto social marcado pelo móvel. Já que, agora, os portais têm pensado seus conteúdos para outras telas além da de um computador, por conseqüência, isso também recai sobre a forma como o jornalista constrói seu texto. Aqui, mais do que saber contar boas histórias, o profissional precisa conseguir narrá-las em poucas linhas (já que ninguém lerá um textão pelo smartphone). Além disso, imagens pesadas, gifs e vídeos não deveriam ser tão utilizados, penso eu, já que isso não é compatível com a leitura pelo celular.

    A impressão que fica é que muitos portais de notícia tem se utilizado do móvel para difundir as notícias, mas não têm se atentado a certos quesitos-chave inerentes ao aparelho como a questão da mobilidade, por exemplo. Normalmente, o sujeito que utiliza o celular o faz enquanto anda, dirige (embora não seja o indicado) e realiza as demais funções do seu dia-a-dia. Assim, pensar o jornalismo móvel como uma possível nova linguagem, mesmo que não apresente tantas diferenças em relação às demais formas comunicativas, me parece o primeiro passo para analisar o que funciona e o que não funciona no móvel. Mais que transpor os conteúdos, é fundamental entender as especificidades das pequenas telas na hora de criar.

  • Jayne

    O Jornalismo móvel representa não apenas uma mudança nas ferramentas midiáticas de produção da notícia, como também uma mudança na relação de consumo do público com a notícia. A utilização das tecnologias móveis, como destacado por Fernando Firmindo da Silva, no e-book “Jornalismo móvel”, modificou de forma considerável as rotinas de produção dos jornalistas nas redações e a forma como o público consume as notícias atualmente. Em uma era complexa, mutável, liquida e marcada pelo imediatismo, o número de notícias e matérias se intensificaram, na mesma medida em que, o tempo gasto para a sua produção foi reduzido. As tecnologias móveis permitiram que os jornalistas, fora das redações, pudessem escrever, editar e publicar suas matérias de qualquer lugar, a todo o instante. Nesse sentindo, como citado no texto acima, o jornalismo móvel através da utilização de smartphones, tablets, celulares entre outros dispositivos, possibilitou um espaço de maior liberdade para o surgimento e desenvolvimento do jornalismo independente. O Ninja Mídia é uma exemplificação de um grupo de jornalistas independentes que em 2013, cobriram em tempo real, diversas manifestações sociais. Dessa forma, percebe-se que essas ferramentas móveis, principalmente com os seus desenvolvimentos, permitiram que os produtores de notícias tornam-se independes de rotinas de produção especificas ou de equipamentos caros e complexos. Ademais, o jornalismo móvel representa uma importante estrutura para o jornalismo contemporâneo, que lida de forma tão intensa com o imediatismo, uma vez que o público quer a cada vez mais obter e consumir informações quase em tempo real, ou simultaneamente, com o acontecimento.

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