Lagoa, Santa

São cinco horas da tarde de um sábado. O fim de um dia ensolarado se aproxima, e faz-se uma tarde excepcional, perfeita para aproveitar ao ar livre. Obviamente, a orla da Lagoa central de Lagoa Santa parece um formigueiro de gente. Moradores e frequentadores de fins de semana entrecruzam-se no vai e vem de caminhantes pelo calçadão da orla. Há quem caminhe, há quem corra, há que passeie. Alguns dão uma voltinha de bicicleta, aproveitando o vento fresco que bagunça as árvores. No gramado ao lado do horto, um grupo de adolescentes se reúne ao som de um violão, enquanto do outro lado da lagoa uma equipe está encarregada da montagem de uma estrutura de palco para um show que começa logo mais a noite. O fim de tarde também agrada ao mais aventureiros, que pegam seus caiaques e pranchas de Stand-up Paddle e remam até o centro da Lagoa, onde existe uma ilha artifical, feita de garrafas pet. A lagoa é democrática, é de graça e é, sem sombra de dúvidas, a peça central do lazer oferecido na cidade.

E assim tem sido. Desde as primeiras descobertas do suposto poder curativo de suas águas até os dias de hoje, a cidade cresceu em volta – literal e figurativamente – dessa tal Lagoa, santa.

Lagoa Grande de Sabarabuçu

De acordo com estudos geológicos realizados em sua bacia, foi graças a um represamento natual do Córrego do Bebedouro, há mais de 6200 anos atrás, que a lagoa foi formada. No entanto, as primeiras citações acerca da lagoa que se tem conhecimento datam de 1747, quando o Frei Antonio de Miranda, de Sabará, recebeu notícias de um certo tropeiro-viajante que, ao estabelecer-se no entorno de uma certa Lagoa Grande de Sabarabuçu, teve suas feridas curadas pelas “águas milagrosas”.

24x30 (4)O tropeiro se chamava Felipe Rodrigues, e foi a “pedra fundamental” da cidade que ali seria formada. Rodrigues teria chegado à região por volta do ano de 1733, trazendo no corpo “setenta e duas gomas abertas” de uma eczema. Após tentar tratar as feridas de maneiras mais convencionais, foi somente depois que se estabeleceu junto ao sangradouro da Lagoa Grande e lavou-as por dois meses com as águas da lagoa, que conseguiu cura-se do mal.

A virtuosidade das águas da lagoa foi explicada mais tarde pelo médico italiano, Dr. Antonio Cialli, que, após realizar experimentos, constatou que aquelas águas continham em si “os dois mais utilíssimos minerais que costumam impregnar as águas, como eram o vitríolo e o aço, aquele volátil e em pequena quantidade, e este em maior porção (…) pelo vitríolo é que todas as queixas cutâneas haviam de se curar. Nas queixas internas (…) havia o aço de mostrar o prodigioso efeito de suas excelências”.

A notícia do suposto poder curativo das águas não demorou a se espalhar. Logo, outros enfermos que não encontraram alento na medicina tradicional da época, vieram banhar-se nas águas virtuosas da Lagoa Grande. Há registros, inclusive, de que a água era levada em barris para Lisboa, onde era vendida por seus potenciais curativos. Segundo o histórico detalhado sobre a Lagoa Santa feito pelo historiador Cleito Ribeiro, a prática teve de ser proibida pelo rei, porque já estava causando prejuízos na concorrência com as águas de Caldas.

E foi justamente essa espécie de peregrinação pelas “águas milagrosas”, que propiciou o povoamento do que, mais tarde, seria a cidade de Lagoa Santa.

Misticismo

Ao longo dos anos, acabou caindo por terra a teoria do poder curativo das águas. Restou, no entando, uma espécie de misticismo em torno da pequena cidade. Na década de 1920, funcionava na cidade o Hotel Inglês, que hospedava turistas de todos os lugares do mapa, que buscavam descanso e relaxamento. “De manhã, o hotel organizava passeios de charrete em volta da lagoa para os hospedes” conta a arqueóloga Rosangela Albano. “Eles já sabiam que as águas não eram milagrosas. Mas vinham pela tranquilidade”.

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Lagoa Santa, por Tarsila do Amaral

O encanto da lagoa atraía figuras como os pintores Tarsila do Amaral e Alberto da Veiga Guignard, ambos com belos quadros que retratam a cidade, e o poeta modernista Mário de Andrade. Veja o relato de Mário:

“Na Lagoa Santa, em Minas Gerais, na noite de natal, cantam os carrilhões e o coro dos frades debaixo d’água, numa catedral que era o edifício grande de uma cidade que nosso senhor afogou, mas os moradores estão vivendo”.

Nesse trecho, Andrade se refere a uma lenda antiga que circula na cidade, que atribui os poderes curativos das águas à uma igreja que ali estaria submersa. E dizem que, dependendo do ângulo e da hora observados, pode-se enxergar um cruzeiro de prata brilhando no meio da lagoa.

 

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Ocupação

A população local passou por um crescimento significativo nos último 50 anos. Isso se deve principalmente à conversão da cidade num dos points da capital mineira. A partir da década de 1930, a cidade começou a ser ocupada por belo-horizontinos endinherados. Nessa época começaram a serem construídas casas de campo em parte da orla da lagoa. Mansões, com todos os luxos e confortos que produziam um contraste gritante com as demais construções da cidade.

“A lagoa era dividida entre ricos e pobres” conta Marilene Mariano, cidadã lagossantense. O apogeu da ocupação da elite na cidade se deu na década de 1950. Nessa época, a orla da lagoa era salpicada por trampolins, cada casa de campo tinha o seu. Os trampolins eram privativos, e ficavam trancados. Se estendiam, conectando a beira da lagoa à um ponto mais fundo, alguns metros à frente. “A gente logo queria fazer amizade com eles, pra poder usar os trampolins”, diz Marilene.

Os endinherados das casas de campo frequentavam o Iate Clube Lagoa Santa, localizado às margens da lagoa. Era comum, durante esse período, ver barcos a vela cortando a lagoa, bem como a prática de esqui aquático.

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Foi na década de 50, também, que a orla da Lagoa sofreu mais uma ocupação volumosa. Desde 1935, funcionava em Lagoa Santa o primeiro núcleo industrial para produção de aviões e hidroaviões do Brasil. Posteriormente, a fábrica foi absorvida pelo Ministério da Aeronáutica e se tornou o que hoje é o Parque de Material Aeronáutico de Lagoa Santa (PAMA-LS). Em 1953, a Marinha cedeu à Aeronautica um trecho da orla da lagoa, onde foram construídas residências para abrigar os oficiais da FAB que estavam lotados para servir no quartel. Dessa forma, ainda se mantém.

Degradação

Passados os “anos dourados”, a Lagoa começou a amargar o preço de uma exploração sem planejamentos e essencialmente predatória. Durante os anos 70, uma série de fatores trouxeram a Lagoa para um cenário de degradação irreversível.

“Na década de 70 os políticos acharam que era uma boa ideia despejar caminhões de áreia em um trecho da lagoa e fazer uma praia” conta Rosângela Albano. “E era tudo uma questão de modismo. ‘Se Lagoa da Prata tinha praia, por quê Lagoa Santa não poderia ter?’” diz.

E assim foi. Eram caminhões e caminhões de areia. Pelo menos um por mês. Nos fins de semana, chegavam de dez a vinte ônibus lotados com turistas, em sua maioria vindos de BH. E, obviamente, tudo o que podia acontecer de ruim, acontecia. Mortes por afogamento, brigas, roubos, sujeira, assoreamento da lagoa. Isso, sem contar com o fato de que a água da Lagoa estava longe de ser própria para banho. Isso porque, durante muitos anos, o esgoto das casas de campo e até mesmo da Vila Militar, eram despejados diretamente na Lagoa. O índice de coliformes fecais é alto até os dias de hoje.IMG_2978

Na década de 80, foram tomadas as primeiras medidas do poder público para preservação da Lagoa, e a praia tinha que acabar. “Nós [a prefeitura] tivemos que comprar uma briga muito grande com os comerciantes locais. Ninguém aceitava o fim da praia, achavam que teriam prejuízos.” Diz Rosângela, que foi designada pela prefeitura para acabar com a praia. “Tínhamos que deixar fiscais pra impedir que os ônibus estacionassem. Demorou mais de um ano para que parassem de chegar ônibus com turistas”.

Mais ou menos na mesma época, entre as décadas de 60 e 70, Lagoa Santa passou por um surto de esquistosomose – conhecida como xistose. A doença é transmitida por um caramujo que vive nas margens da lagoa, dentro da água. Os alvos mais vulneráveis eram os pescadores, que sentavam-se à beira d’água, vara em punho e pés para dentro da lagoa. Exatamente onde moravam os caramujos. A esquistosomose matou muitos lagoassantenses e infectou outros tantos. Inclusive muitos dos que frequentavam a praia da Lagoa.

Por fim, uma das maiores perdas sofridas pelo habitat da Lagoa se deu no ano de 1979. A vegetação natural da lagoa era formada pelo junco – planta aquática que crescia na parte de dentro das margens. O junco era, inclusive, essencial para a manutenção do ecossistema da lagoa. Em 79, observou-se a extinção total e irreverísvel do junco. Não se sabe com precisão o motivo dessa extinção repentina. Uma das teorias discutidas é de que alguém, inadvertidamente, tenha soltado tilápias na lagoa, peixe que se alimenta, justamente, do junco.

Daí pra cá, os trampolins das casas também acabaram. Como não se podia mais nadar na lagoa e fora proibido o uso de barcos a motor, eles já não tinham mais uso. A prefeitura, então, por volta de 1985, retirou todos os trampolins – exceto um, o único que restou, dentro da Vila Militar. Hoje, ao observar a lagoa, é possível enxergar, no lugar onde muitos trampolins já estiveram, apenas os tocos de madeira que lhes davam sustentação. É uma imagem melancólica, há que se admitir. Não há um lagoassantense que tenha nadado de um trampolim na lagoa, que não tenha boas memórias desse período.

 

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Hoje em dia

Outros tempos, outra cidade, outra lagoa. Quem vê a lagoa pela primeira vez hoje em dia, custa a enxergá-la nas fotografias antigas. Lagoa Santa passou, recentemente, por um processo de grande expansão. Inflada de prédios e pessoas, as demandas da cidade para com a Lagoa, mais uma vez, se alteraram.

A prática de esportes ao ar livre é amplamente estimulada, e a extensão da lagoa – quase 7 quilômetros – a torna ideal para uma caminhada leve ou uma corrida rápida. Tanto de manhã quanto no fim da tarde, a calçada da orla é repleta de caminhantes e corredores. Ao longo do perímetro da lagoa, foram colocadas três conjuntos de aparelhos de ginástica para uso da população. Constantemente pode-se ver, também, caiaques, stand-up pladdles e pequenas velas navegando.

Em 2014, a Seleção Brasileira de Remo que irá competir nos Jogos Olímpicos escolheu Lagoa Santa como local de treinos até a competição. Isso se deve ao fato de que a lagoa central tem condições similares as da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, onde acontecerão as provas em 2016. De acordo com a prefeitura, foram realizados estudos para checar a qualidade das águas antes que os treinos começassem, atestando-a como própria para banho.

A apropriação da lagoa para eventos culturais gratuitos também é uma tendência crescente. Tanto quanto a prefeitura como grupos e coletivos independentes buscam espaços na orla para realizar eventos de pequeno e médio porte. O Iate clube Lagoa Santa, por exemplo, que após a década de 60 passou anos abandonado e em ruínas, foi reformado pela prefeitura em 2011, e hoje seu grande gramado é usado por eventos como o Festival Mamute, um festival gratuito de música autoral independente. Assim como ele, outros tantos seguem o mesmo caminho, como o Festival de Cultura Regional, produzido pela prefeitura e o Pique-nique Literário, voltado para o público infantil. Artistas como Lenine, Vanessa da Matta, RAPadura e Marcus Vianna já se apresentaram tendo como cenário, a tal Lagoa Grande.

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Quase trezentos anos separam a cura das feridas de Felipe Rodrigues, em 1733, de 2015. Muitos mitos caíram por terra, outros tantos surgiram. Os múltiplos usos da Lagoa e seu entorno ao longo dos anos mostram que mesmo que relação entre a cidade e a lagoa se reinvente com o passar do tempo, a Lagoa Grande nunca perde a centralidade na vida citadina. E, mais importante, há uma preocupação crescente por parte da população em preservar o local, o que, até a década de 80, não existia. É imperativo que essa preservação seja efetiva para que, quem sabe, daqui a outros trezentos anos ela continue central, grande e santa.

Equipe

Luiza Lambert e Patrícia Campos