“Marina” e a cultura da convergência jornalística

O livro “Cultura da Convergência”, escrito por Henry Jenkins, é um marco dos estudos sobre o fenômeno da convergência e da transmidialidade. Logo na introdução, já é apresentado um novo paradigma para se entender as transformações que os processos citados causaram.

Como exemplo da “cultura da convergência”, ele menciona a história envolvendo uma montagem de Osama Bin Laden e Beto, personagem do seriado Vila Sésamo, feita em 1998 por um humorista americano e postada na página “Beto é do Mal”. A sátira ganhou repercussão mundial, viralizando pela Internet. O improvável, no entanto, foi o registro feito por repórteres da CNN que, em 2001, fotografaram uma multidão raivosa em Bangladesh marchando em passeata pelas ruas, gritando slogans antiamericanos e agitando cartazes com Bin Laden e Beto.

A partir dessa situação, propõe-se pensar quantos foram os circuitos pelos quais as imagens de “Beto é do Mal” viajaram do Photoshop à rede mundial de computadores, do quarto do humorista à gráfica em Bangladesh, e dos pôsteres levantados pelos manifestantes às casas de pessoas do mundo inteiro. Ademais, também afirma-se ser preciso considerar como parte da circulação dependeu de estratégias empresariais e até de táticas de apropriação popular.

Para esse quadro, Jenkins logo chama atenção “as velhas e as novas mídias colidem, onde mídia corporativa e mídia alternativa se cruzam, onde o poder do produtor de mídia e o poder do consumidor interagem de maneiras imprevisíveis”. A cultura da convergência é, portanto, complexa e contraditória. Nela, três conceitos fundamentais precisam ser considerados, são eles convergência dos meios de comunicação; cultura participativa; e inteligência coletiva.

Por todo o exposto, a mudança de paradigma citada passa pela compreensão de que a convergência não é apenas uma transformação tecnológica, mas também cultural. Nela, consumidores são incentivados a procurar novas informações e a fazer conexões em meio a conteúdos midiáticos dispersos; pessoas comuns assumem controle de mídias; e muitas coisas fluem por múltiplas plataformas de mídia. Além disso, nesse cenário, mídia corporativa e alternativa coexistem, fortalecendo-se mutuamente na medida em que suas discordâncias conduzem a redefinições face a cultura popular americana.

Como ele acredita que a convergência transforma cada consumidor e suas interações sociais, para compreender a remodelagem da relação consumidor/produtor de mídia, é preciso observar experiências (principalmente dos primeiros). Para isso, ao longo do livro, Jenkins estuda casos das franquias de maior sucesso da história midiática recente para pensar, inclusive, a narrativa transmídia, reflexo da cultura da convergência. Como as reflexões feitas são voltadas, em sua maioria, para campanhas publicitárias e/ou produtos de entretenimento, proponho voltarmos à matéria “Marina” (como sugeriu a professora em sala de aula) para pensar em como aplicar as estratégias apontadas pelo estudioso para práticas jornalísticas.

“Marina” (pode ser acessada por meio deste link https://www.em.com.br/especiais/cidademarina/) é um conjunto de reportagens desenvolvidas pelo jornal Estado de Minas que conta a história de uma cidade planejada por Niemeyer que nunca saiu do papel. A informação, articulada entre formatos como vídeos, fotos e textos, é apresentada em uma única plataforma e, portanto, único endereço eletrônico.  Nele, o usuário pode navegar e, aos poucos, descobrir desdobramentos da narrativa presentes em cada uma das reportagens disponibilizadas.

Nesse sentido, “Marina” pode, então, ser considerada uma narrativa transmídia por conseguir construir a história contada utilizando diferentes recursos e permitindo que o público consuma a informação na ordem que quiser. Acredito que, mais à frente, talvez façamos análises no jornalismo similares àquelas feitas por Jenkins em propagandas e produtos de entretenimento. E, talvez, consigamos enxergar na matéria em questão um certo pioneirismo no que diz respeito a narrativas transmídias feitas por jornais mineiros. “Marina” pode ser um bom início para essa nova forma, permitida pelos meios digitais, de contar uma história jornalisticamente.

2 comments

  • miguel.tiberio

    Muito legal a história da cidade! Também acho que pode realmente ser um pioneirismo para as narrativas transmídias mineiras .
    É bastante interessante a questão da convergência também ser uma revolução cultural e como as grandes empresas e produtoras da indústria cultural estão utilizando isso para lucrar mais. Hoje em dia está cada vez mais comum a produção de spin-offs, livros, quadrinhos, séries e jogos quando algum filme, por exemplo, faz muito sucesso. Os produtores sugam até a última gota e continua dando certo por causa da demanda. Atualmente quando a gente gosta de algum produto cultural, só consumir ele é muito pouco, tem-se a criação de vínculo emocional com aquilo e por meio do impulso ou da vontade de se encaixar no grupo social/fan base, é normal nós consumirmos e até comprarmos tudo relacionado (como uma espécie de totem para provar para nós mesmos ou para os outros o quanto gostamos daquilo), mesmo que seja “ruim”/mal feito.
    Em relação ao assunto do jornalismo transmidia em si, eu fico muito pensativo sobre os limites e capacidades desse modelo. Lembro que quando fui apresentado ao Uol tab, fiquei totalmente perplexo, o dinamismo e o próprio nível de interação dos consumidores com as matérias são incríveis. Pelo menos eu me senti muito mais instigado (e repetindo as animações exaustivamente, confesso). Um ponto que também penso muito é se o sucesso desse modelo de jornalismo estaria restrito aos grandes veículos, tendo em vista a quantidade de produtores necessários e o provável alto custo de produção e programação.

  • miguel.tiberio

    Muito legal a história da cidade! Também acho que pode realmente ser um pioneirismo para as narrativas transmídias mineiras .
    É bastante interessante a questão da convergência também ser uma revolução cultural e como as grandes empresas e produtoras da indústria cultural estão utilizando isso para lucrar mais. Hoje em dia está cada vez mais comum a produção de spin-offs, livros, quadrinhos, séries e jogos quando algum filme, por exemplo, faz muito sucesso. Os produtores sugam até a última gota e continua dando certo por causa da demanda. Atualmente quando a gente gosta de algum produto cultural, só consumir ele é muito pouco, tem-se a criação de vínculo emocional com aquilo e por meio do impulso ou da vontade de se encaixar no grupo social/fan base, é normal nós consumirmos e até comprarmos tudo relacionado (como uma espécie de totem para provar para nós mesmos ou para os outros o quanto gostamos daquilo), mesmo que seja “ruim”/mal feito.
    Em relação ao assunto do jornalismo transmidia em si, eu fico muito pensativo sobre os limites e capacidades desse modelo. Lembro que quando fui apresentado ao Uol tab, fiquei totalmente perplexo, o dinamismo e o próprio nível de interação dos consumidores com as matérias são incríveis. Pelo menos eu me senti muito mais instigado (e repetindo as animações exaustivamente, confesso). Um ponto que também penso muito é se o sucesso desse modelo de jornalismo estaria restrito aos grandes veículos, tendo em vista a quantidade de produtores necessários e o provável alto custo de produção e programação.

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