#MasterChefBR: Repercussões no Twitter e YouTube

O programa

No ar no Brasil desde 2014, MasterChef é um talent show originalmente produzido pela BBC do Reino Unido. Exibida pela Rede Bandeirantes, a versão brasileira do programa inglês encontra-se atualmente em sua terceira edição, iniciada em 15 de Março de 2016. O modelo da série consiste em um reality show de culinária em que aspirantes a se tornarem chef de cozinha competem para tornarem-se grandes chefs do país – além do prêmio em dinheiro, o participante vencedor ganha um curso em renomada instituição francesa.

Com 21 candidatos pré-selecionados, o programa tem apresentação de Ana Paula Padrão e tem sua bancada de jurados formada por três dos maiores chefs do cenário gastronômico brasileiro: Erick Jaquin, Paola Carosella e Henrique Fogaça. A cada semana, os participantes passam por provas e situações diversas em que os jurados avaliam suas habilidades culinárias e escolhem os mais aptos para continuar na corrida pelo título.

A grande popularidade do programa garante posições importantes nos rankings de audiência, registrando, em altos picos de visualização, momentos de liderança em relação às grandes emissoras brasileiras. Além dos altos índices de popularidade entre os telespectadores, o programa apresenta grande repercussão entre internautas, apresentando-se como tema de discussão em várias redes, como o Twitter e o Facebook.

 

A análise

Para a análise selecionamos o episódio 9 exibido no dia 10 de maio de 2016. Por meio da hashtag #MasterChefBR no Twitter, foram coletados os dados de 120 mil tweets, feitos por 31 mil usuários, durante a transmissão do programa, das 21 horas do dia 10/05 às 4 horas do dia 11/05. Para a coleta foi utilizado a ferramenta TCAT-DMI.  Juntamente a esses dados, selecionamos os cinco vídeos postados no canal do programa no Youtube referentes ao próprio episódio dividido em partes de cerca de 25 minutos cada.

Após a análise, o capítulo escolhido mostrou-se ser um “episódio médio” ou seja, um capítulo “comum” no curso do programa, que não foi marcado por eventos extraordinários que poderiam gerar repercussões polêmicas ou discussões mais específicas, como quando ocorre provas mais complexas, eliminações de personagens populares, ou quando o formato do espisódio se difere dos demais, no caso de capítulos de estreia ou final de temporada. O desafio do episódio selecionado consistia em se dividir em dois grupos – denominadas de equipe azul e equipe vermelha – e preparar um cardápio ovolactovegetariano para agradar o cantor convidado Renato Teixeira, a equipe perdedora dessa prova foi para a prova de eliminação onde prepararam carne de coelho.

A partir do processamento visual dos dados nos softwares Gephi e Tableau observaremos a articulação do público que assiste o programa e utilizam o Twitter ao mesmo tempo, como segunda tela, em um movimento de compartilhar, reagir e produzir conteúdo sobre o que é dado na tela da televisão. Também analisaremos qualitativamente essa participação em tempo real, promovida pelo Twitter, com o que é dito em um momento posterior no Youtube.

 

#MasterChefBR: a repercussão no Twitter

A partir dos dados extraídos, foram gerados grafos que mostram a repercussão do episódio e a participação do público em um “episódio médio” ou seja, um capítulo “comum” no curso do programa, que não foi marcado por eventos extraordinários que poderiam gerar repercussões polêmicas ou discussões mais específicas, como quando ocorre provas mais complexas, eliminações de personagens populares, ou quando o formato do espisódio se difere dos demais, no caso de capítulos de estreia ou final de temporada ou quando há eliminação dupla   onde podemos observar os principais assuntos que movimentam o uso da hashtag, além dos usuários mais expressivos.

 

Hashtags secundárias

Frequência das hashtags mais utilizadas

O grafo acima mostra as hashtags mais utilizadas, juntamente com a #MasterChefBR. A primeira #EquipeAzul, usada 858 vezes, refere-se à divisão de equipes durante a prova realizada no episódio e à torcida a referida equipe. A segunda diz respeito ao participante Nuno Codeço que era um dos apontados para eliminação no episódio contra a participante Vanessa Vagnotti, a #FicaNuno teve uma frequência de 756 vezes, já a #FicaVanessa 333 vezes, entretanto, o participante eliminado foi Nuno – o uso das hashtags pelo público não influencia a decisão dos jurados na eliminação, serve apenas como mecanismo de engajamento.

 

Quantidade de tweets por tempo de coleta.

 

Redes de usuários

A análise estatística se deu por meio do software Gephi, que, ao exibir uma rede de interações entre usuários, nos permite identificar pontos de destaque e distinguir vertentes discursivas. O programa gera um grafo, em que cada usuário está representado por um nó, ou seja, um ponto, e as interações entre esses usuários são representadas por uma aresta, ou seja, uma flecha que liga dois nós. Num grafo, esses elementos se encontram dispersos segundo um critério de afinidade entre eles, de forma que uma interação ou um possível alinhamento discursivo os aproximam e a falta destes os distancia.

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Grafo que mostra os usuários que mais tweetaram.

 

Como o grafo nos permite visualizar, o usuário “_xarpy” tem o maior grau de saída, ou seja, quantidade de interações que partiram dele. Ao analisar o perfil do usuário identificamos um grande número de tweets feitos em sequência, a maioria contendo apenas a hashtag e algumas letras aleatórias, e outros com a #FicaFabio, referente ao participante Fábio Nunes. Isso se deve à premiação que o programa promoverá ao usuário mais engajado, aquele que mais tweetar utilizando a hashtag vai ganhar um troféu personalizado e um convite para assistir à gravação da final do programa.

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Grafo de menções por grau de entrada

O perfil mais mencionado, que teve seu perfil marcado por outros usuários, nos tweets coletados é o do próprio MasterChef Brasil, que aparece no grafo em vermelho, com 8650 menções. O segundo mais mencionado  — 8135 menções  — é o @cleytu, perfil humorístico com 610 mil seguidores, que tweeta, dentre outras coisas, memes do programa. Destaca-se também os dois perfis @itspedrito — 82,3 mil seguidores e 2947 menções — e @luanlovato — 378 mil seguidores e 2912 menções — ambos também humorísticos.

O recorte acima exemplifica bem o teor da maioria dos tweets gerados pelo programa e os que mais movimentam a hashtag na rede social, que são comentários humorísticos e memes. Abaixo alguns tweets humorísticos gerados durante a exibição do programa pelos usuários citados acima.

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Tweet do usuário @cleytu.

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Tweet do usuário @itspedrito.

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Grafo de replies por grau de entrada

Os nós roxos maiores representam os tweets feitos pelo perfil do programa que são os que tem o maior número de replies. Percebe-se que a quantidade de replies por tweet mostra-se equilibrada. O tweet com o maior número de replies do episódio analisado foi o que indagava os usuários qual dos participantes apontados para a eliminação deveria ficar, convocando os usuários a usar a #FicaVanessa ou #FicaNuno.

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Tweets mais retuitados

Durante o tempo da coleta, houve um total de 63.269 retweets. Abaixo, um gráfico gerado no Tableau mostra a relação dos 20 mais frequentes: o mais popular, publicado pelo usuário @cleytu, foi replicado 530 vezes. Confira na galeria os demais tweets.

 

Os cinco tweets mais retuitados são: dois do usuário @cleytu, um com 530 RTs e outro com 518; um tweet do perfil oficial @masterchefbr, com 436 RTs; um tweet do usuário @pqpvoces, com 426 RTs e outro do perfil @naosouzica, com 420. É importante observar que a imagem dos tweets foi capturada cerca de um mês após a coleta dos dados, então os números de retweets e likes irão variar devido à repercussão que os tweets atingem depois da exibição do programa. Recortando os cinco tweets mais reproduzidos, podemos ter uma noção das diversas formas que a discussão assume: todos os tweets possuem viés humorístico e possui mídia imagética, estática ou gif animado, sendo um deles produzido pelo próprio perfil do programa.

A presença de um tweet “oficial” entre os tweets mais populares mostra o peso e relevância que o perfil institucional do programa possui na discussão, produzindo conteúdos específicos e exclusivos para a rede (apropriam-se do conteúdo da televisão, mas são diferentes do exibido no programa) e que dialogam com o público de forma humorosa e completamente integrada com o restante da discussão. Além da produção de conteúdo específico para o Twitter, vale ressaltar que a hashtag ao redor da qual a discussão se desenvolve não surge de forma completamente espontânea: desde a primeira temporada ela vem sido proposta e estimulada pela emissora e é usada não apenas no Twitter, mas também durante a exibição do programa na televisão.

No geral, essa manifestação cômica é traduzida principalmente como memes, e essa forma de apropriação acontece de distintas maneiras. Entre os exemplos recortados, podemos perceber a recontextualização de acontecimentos do programa, como a revalorização semântica das reações diferentes entre os times, feita por meio de legendas; a resignificação de conteúdos não relacionados ao tema, criando links através das hashtags e outras menções, como é o caso do gif postado por @cleytu, que não é um conteúdo vindo do programa.

Essas manifestações cômicas adquirem, ao longo das temporadas do programa, atributos muito característicos e tornam-se conhecidos por isso. Além da repercussão imediata que ocorre durante a exibição do programa e logo depois, os tweets ainda reverberam por mais dias dentro e fora da rede – vide o número de RTs que o tweet recebeu depois do período da coleta, que chega a ser quase 6 vezes maior que o coletado.

 

Master Chef Brasil no Youtube

Os episódios do Master Chef Brasil costumam ser disponibilizados pela própria emissora em canal oficial no Youtube no dia seguinte à exibição televisiva. A possibilidade de assistir ao programa on demand agrega uma nova configuração de espectatorialidade, com suas próprias particularidades de recepção que se diferenciam daquelas da transmissão ao vivo. Partindo-se da hipótese de que essas mudanças podem afetar a maneira como os espectadores interagem com a narrativa no ambiente digital, faremos uma análise quantitativa dos comentários no mesmo episódio analisado no twitter.

É interessante notar que a Rede Bandeirantes disponibiliza o conteúdo do programa on-line, em uma plataforma pertencente a um grande conglomerado de mídia, ao qual pertence o YouTube. Nesse ponto, sua estratégia se diferencia, por exemplo, da Rede Globo, que busca sempre monetizar seu conteúdo on demand, disponibilizando-o apenas em plataforma própria de acesso restrito. Dessa forma, a Band se utiliza de uma rede de usuários já estabelecida no YT e outras redes sincronizadas.

O episódio em questão se encontra fragmentado em cinco partes, que não correspondem aos blocos do programa, de cerca de 20 minutos cada. O primeiro vídeo possui 213 comentários, o segundo 179, o terceiro — em que é revelado o resultado da primeira prova — foi comentado 400 vezes, o quarto 170 e, por fim, o quinto e útlimo vídeo — em que se revelam os eliminados — 484 vezes, perfazendo um total de 1446 comentários. A coleta foi realizada com o YouTube Data Tools, no modo de extração de informações e comentários,  em 24 de maio de 2016, às 20h30.

Como o episódio publicado no YouTube é dividido em 5 partes, os dados de comentário foram condensados para gerar a visualização. 

Grafo que mostra a relação dos comentários ao longo do tempo

Esse grafo permite visualizar a forma como a discussão é mais aquecida logo que o vídeo é postado, no dia seguinte ao da exibição – o que mostra um hábito curioso dos usuários no canal do Masterchef, que seria próximo ao da lógica televisiva de exibição – e se estende de forma menos intensa ao longo do tempo.

 

Seção de comentários: redes de discussão

A primeira operação feita no Gephi foi mesclar os cinco grafos que foram gerados a partir dos vídeos separados. Dados do grafo obtido:  
Quantidade de nós: 620 (usuários)
Quantidade de arestas: 522 (interações entre usuários, por meio de likes, menções e respostas)

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Grafo criado a partir da coleta de comentários no Youtube, usado o grau de entrada (que considera o número de likes, menções e respostas recebidos)

Essa visualizacão permite encontrar comentários que geraram alguns focos de discussão e exemplificam as formas que a discussão toma. Abaixo, alguns exemplos dos usuários destacados, que foram também destaque do comentários no YouTube – o algorítimo da rede destaca não apenas os comentários que geram mais discussão, considerando também outros fatores, como tempo de postagem.

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Captura de Tela 2016-06-21 às 20.22.50

Há uma diferença na maneira como as conversas se formam no Twitter e no YouTube. Neste, há uma tendência maior a se formarem tópicos de discussão, possivelmente por uma série de fatores como o número maior de caracteres, a possibilidade de envolver mais usuários em uma mesma conversa, uma menor lógica de reprodução indefinida de um mesmo discurso (como acontece com os retweets).

 

Duas redes, duas conversas

Vale ressaltar que a comparação é dificultada pela discrepância quantitativa da base de dados de cada rede — a quantidade de comentários no YouTube representa cerca de 1% da quantidade de tweets com a hashtag #MasterChefBR. Isso faz com que tendências que se apresentam como nuances no caso do episódio online se tornem muito mais visíveis no caso do microblog. Numa visão geral, indentifica-se que os comentários no YouTube são afetados pelo fato de muitos usuários já saberem o desfecho do episódio, as saídas e os destaques da edição em geral, seja por terem assistido à transmissão ao vivo, por terem lido portais de notícias ou até mesmo por lerem os outros comentários antes de assistir aos vídeos.

No Twitter, por outro lado,  a discussão, como ocorre de forma mais imediata, inicia-se a partir de pontos mais factuais e explora acontecimentos mais isolados do espisódio, como uma reação de algum participante ou sua fala específica. Essas divergências entre a forma de discussão são claramente influenciadas pelo meio em que elas ocorrem. Como o hábito de uso de uma rede é diferente da outra, a forma da mensagem, seu conteúdo e suas repercussões acontecem de maneira distinta, ainda que seja a partir de um mesmo objeto.

 

Celso Haddad, Natália Trindade e Túlio Pagnan
são alunos do curso de Comunicação Social da UFMG.