Movimento LGBT em BH: caminhada histórica de luta, resistência e folia

A cultura LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais) sofre historicamente com estigmas sociais. Durante muitos anos, os espaços voltados para tal público – anteriormente denominados ‘GLS’ (gays, lésbicas e simpatizantes) – eram segregados dos demais espaços e vistos como promíscuos. Na atualidade, embora a LGBTfobia ainda faça parte do cotidiano, percebe-se que esse grupo social vem se impondo e mostrando que existe e resiste. A população LGBT está presente nos mais diversos espaços sociais, garantindo cada vez mais voz perante a sociedade.

Em Belo Horizonte a realidade não é diferente. A capital mineira conta atualmente com os mais diferentes eventos culturais e sociais voltados para um público cada vez maior. Tal diversificação comprova um valor político, sobretudo no que tange às questões de combate a preconceitos e de incentivo ao empoderamento.

A capital mineira se destaca pela diversidade de movimentos culturais e sociais. Tendo como inspiração culturas externas e adaptando-as para a realidade local, hoje a cidade conta com um espaço voltado para o público LGBT que pouco se esperava há poucos anos.

Nesta reportagem, o LabCon traz um panorama geral sobre a cultura LGBT na cidade e seu crescimento. Iniciando por um breve histórico, a abordagem também passará por eventos culturais tradicionais – como festas -, as novidades que estão chegando e a importância do papel dos movimentos sociais.

Histórico

Nossa equipe conversou com Dolly Piercing, uma das drag queens mais tradicionais de Belo Horizonte. Piercing tem 39 anos, é assumidamente homossexual desde os 13 e trabalha como drag desde os 18. 

Dolly contou que muitas influências externas fizeram parte da construção da realidade LGBT em Belo Horizonte. Tomando como referência o transformismo – movimento da década de 1980 bem próximo às atuais drag queens – e com uma roupagem simultaneamente extravagante e tímida, as festas eram bem diferentes do que são hoje.

“Era bem divertido. Era uma festa quase infantil, num sentido em que as pessoas iam todas caprichando no visual, era um evento”, lembra. Embora toda a extravagância ocorresse em tais espaços, é importante ressaltar que eram limitados e distantes de outras festas da cidade.

Dolly se apresenta em festas e eventos desde 1995 (Arquivo Pessoal)

Dolly se apresenta em festas e eventos desde 1995 (Arquivo Pessoal)

Dolly também ressalta que a atual inserção com o “mundo real” – isto é, o mundo LGBT passar a fazer parte do cotidiano da população – é um dos principais ganhos que o meio teve nos últimos anos.

“Eu acho legal as conquistas que as pessoas tem tido socialmente. Todos os tipos de gay, englobo lésbicas, travestis, transexuais, bissexuais. Eu acho legal ver os meninos namorando numa praça de dia, sendo chamados de viado e não estar nem aí. Isso é bom porque é menos sofrimento”, disse Dolly.

Confira a entrevista completa com Dolly Piercing:

Casas noturnas, bares e praças localizados sobretudo na região Centro-Sul da capital mineira são historicamente espaços ocupados pela população LGBT. É imprescindível citar as Praças Raul Soares e da Liberdade, locais públicos, ao ar livre e de histórica resistência desse grupo. Bares e casas noturnas também fizeram parte de suas rotinas nas décadas de 1990 e 2000, normalmente isolados dos meios não-simpatizantes. Destacam-se boates como Miss Pig, A Lok@, Gis, Anda e Estação 2000 e bares, como Al Khemya, Estúdio da Carne e Villa Paraty.

Festas e Produção Cultural

Pelo fato de Belo Horizonte se destacar na diversidade e na imensa produção cultural, a demanda criada pela comunidade LGBT faz com que, cada vez mais, existam festas, eventos e acontecimentos voltados à essa comunidade. Sempre com o intuito de celebrar a diversidade, a alegria e às vezes até com um cunho político, as festas vêm ganhando espaço e adeptos.

Começando pelo roteiro mais tradicional de casas noturnas e bares, lugares como dDuck dClub, Fifty Bar, Royalty, Josefine e Bar da Cácia, a cada dia que abrem, formam-se imensas filas em suas portas, atraindo grande número de pessoas que vão atrás de diversos atrativos, que vão de shows ao vivo a festas temáticas.

Outra presença marcante também no cotidiano de festas da capital mineira, são as grandes produtoras, que realizam festas que acontecem semanalmente ou em edições anuais. Nomes já renomados como White Emotion, Black Extravaganza, DiLatte, @bsurda, Eleganza e Priscilla, fazem a cabeça dos festeiros de plantão, e, mesmo que atendam a gostos e nichos diferentes da comunidade LGBT, garantem a festa.

Sempre com convidados, Dj’s e performers locais e internacionais, muita música, bebidas e se apresentando de forma temática, tais festas já têm lugar cativo no calendário belorizontino. A palavra de ordem costuma ser a inovação. No que diz respeito às tendências de produção cultural, encontramos o coletivo Toda Deseo, o bloco carnavalesco Garotas Solteiras e o reality VRÁ – A batalha de Drags.

Toda Deseo

Coletivo fundado em 2013, tem como princípio dar visibilidade às questões de identidade de gênero por meio de intervenções artísticas e culturais em espaços públicos da capital mineira. Formado por artistas mineiros, o coletivo Toda Deseo já é presença carimbada em eventos culturais de Belo Horizonte, seja com espetáculos como “No Soy un Maricón” e a mais recente produção “Um bonde chamado Deseo”, ou com  o Campeonato Interdrag de Gaymada.

Arquivo Pessoal

Arquivo Pessoal

Garotas Solteiras

O bloco de carnaval “Garotas Solteiras”, idealizado em 2015 e desfilando pela primeira vez já no carnaval de 2016, foi batizado a partir de uma tradução livre de “Single Ladies”, canção homônima da cantora estadunidense Beyoncé.

O bloco adicionou a pauta feminista e LGBT ao carnaval de rua de BH. Além disso, propõe releituras carnavalescas de cantoras como Beyoncé, Lady Gaga, Valesca Popozuda, Anitta, entre outras. Sucessos das chamadas “Divas do Pop” são cantados em ritmo de axé, samba e batuque.

Reprodução/Facebook

Reprodução/Facebook

 

VRÁ – A Batalha das Drags

O reality show norte americano “RuPaul’s Drag Race” inspirou um grupo de produtores a fazer uma versão belorizontina. Ainda em fase de produção, o VRÁ vai contar com a participação de personalidades locais. Uma das intenções é quebrar tabus e preconceitos a respeito da cultura LGBT e da rotina desses artistas. A produção busca, de forma “bem brasileira e bem alternativa, eleger a melhor drag queen no quesito figurino, maquiagem e empoderamento em uma série de provas” como informou Isabelle Gee, participante do reality.

Confira a entrevista completa com Isabelle Gee:

Movimentos Sociais LGBTs

Com pautas progressistas e reivindicações como maior participação política e social desses grupos, além de atos contra a LGBTfobia, os movimentos vem ganhando força e já chegaram à política institucional.

Frente Autônoma LGBT

Criação: 2016

Objetivos: Cidadania, respeito e dignidade

Atuação: Atos, seminários e debates em BH.

Ato organizado pela Frente em combate a violência contra a população trans (Divulgação)

Ato organizado pela Frente em combate à violência contra a população trans (Divulgação)

 

Transvest

Criação: 2015

Objetivos: Projeto artístico-pedagógico de combate à transfobia e inclusão de travestis, transexuais e transgêneros na sociedade.

Atuação: Sediado no Edifício Maletta, oferece cursos pré-vestibulares, de idiomas, de fotografia, estudos sobre as culturas LGBT, formação de Drag Queens e atividades que fomentem a visibilidade das identidades trans. entre outros.

 

O Transvest foi o grande vencedor do prêmio Beagá Cool de melhor projeto social (Divulgação)

O Transvest foi o grande vencedor do prêmio Beagá Cool de melhor projeto social (Divulgação)

 

Muitas – Pela Cidade Que Queremos

Criação: 2016

Objetivos: Coletivo  de ativistas de diversas causas de BH, entre elas LGBT e Queer.

Atuação: Ocupar as eleições de 2016 com pautas progressistas e concretas da cidade, apresentando candidaturas populares e cidadãs. 

Divulgação/Cidade que Queremos

Divulgação/Cidade que Queremos

 

GRUPO

Arthur Carvalho, Rodrigo Salgado e Victor Acácio

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