Na palma da mão: as novas formas de criar e consumir notícia

A explosão das tecnologias móveis e sem fio no século XXI traçou novos rumos ao jornalismo. Se antes era necessário estar em uma redação física, com profissionais contratados e especializados e dispor de uma aparelhagem de alta qualidade para capturar imagens, hoje é possível redigir, editar, filmar, fotografar e publicar a partir de um único dispositivo.

A consolidação digital e os mais diversos aparelhos, como gravadores, câmeras digitais e, posteriormente, os smartphones, reconfiguraram o fazer jornalístico e permitiram a entrada do jornalismo móvel. Tal prática, segundo Fernando da Silva, caracteriza-se pela mobilidade física e informacional, condições potencializadas pela portabilidade, onipresença e mobilidade dos dispositivos.

Apesar de nos referirmos ao jornalismo móvel como o processo concebido pós meios digitais, essa prática traça caminhos desde os anos 60, acompanhando uma perspectiva histórica e midiática. Desde a fase analógica até a fase atual, chamada de “era pós-PC”, essa prática se demarca pelas influências do telégrafo sem fio e das técnicas possibilitadas por aparelhos móveis analógicos, aparatos digitais e pelas tecnologias de alta velocidade de processamento.

É na “era pós-PC” que o jornalismo móvel atinge seu auge. As potencialidades e a mobilidade da produção se ampliaram, graças à expansão dos serviços em nuvem e da criação de aplicativos, os quais permitem, ainda, maior conectividade e subversão da noção espacial. Esse contexto foi viabilizado, como expõe Silva, pela emergência dos dispositivos portáteis com memória flash como os tablets, smartphones e e-readers; sincronização de arquivos através de aplicativos multiplataformas como iCloud e Dropbox ou de acesso em nuvem como o Google Drive para produção on-line;  aplicativos (apps) dinâmicos para acesso, produção/edição ou geolocalização e distribuição de conteúdos; e  crescimento e aperfeiçoamento da banda larga móvel 3G e 4G.


A indústria da tecnologia expande ainda mais a noção do jornalismo móvel, ou “mojo” (mobile jornal) — termo introduzido a partir de 2005 para designar o trabalho dos repórteres do Gannett Newspaper, nos Estados Unidos — com os diversos acessórios que aprimoram a experiência portátil. Microfones portáteis, câmeras acopláveis e tecnologias de óculos interativos, como o Google Glass, aumentam as possibilidades do fazer jornalístico e a velocidade da produção e circulação das informações.

Os smartphones e as tecnologias originárias da “era pós-PC” possibilitam uma sociabilidade baseada em uma dimensão virtual, criando o que Manuel Castells denomina de “Sociedade em Rede”. Pensando a produção jornalística, essa sociabilidade se amplia quando os dispositivos maximizam o papel do receptor, o qual tem a relação com o emissor alterada no contexto da mobilidade. Isso porque o emissor passa demandar atualizações mais constantes ao consumir notícias e redes sociais em dispositivos móveis e pode participar da produção jornalística (via WhatsApp ou por outros meios de interação), contribuindo com conteúdos e informações que podem se transformar em notícias de repercussão.

Há, ainda, que se pontuar a reconfiguração na forma de consumir notícia, também possibilitada pelos dispositivos móveis. Além do jornalismo feito por dispositivos móveis, destaca-se o jornalismo feito especialmente para smartphones, os quais são pensados, desde a estrutura dos blocos de texto até a estética nas interfaces como tablets e celulares.  Assim, como exposto por Silva, “(…) temos uma relação estreita entre o jornalismo móvel na produção e no consumo de notícias cuja análise podemos encaminhar através da lente da mobilidade”.

 

Letícia Almeida

4 comments

  • Thaís Boges

    O jornalismo móvel (aliás, toda forma de produção) com certeza é uma tendência promissora, já que o consumo por meio dos dispositivos móveis cresce cada dia mais. Se compararmos as formas de consumo algum tempo atrás, quando comprávamos revistas e dependíamos de internet banda larga para acessar qualquer portal online, com a forma que consumimos informações hoje, “on the go”, independente do local e com fácil acesso devido à internet móvel, é possível perceber que os dispositivos facilitam e que o jornalismo móvel se encaixa de forma muito coerente nessa realidade.
    Nessa reflexão, penso muito também na forma de produção. É claro que, com as possibilidades oferecidas pelos dispositivos e pelo acesso, também é cada vez mais fácil produzir e veicular informação. Ao mesmo tempo, que informação é essa? Cada vez mais vejo a informação volátil, instantânea e, muitas vezes, sem apuração. Na corrida de “quem fala primeiro”, a qualidade (e até mesmo a veracidade) daquela informação pode ser facilmente posta em cheque.
    Admiro muito o trabalho do Joe Sacco, um jornalista e quadrinista que publicou diversos livros a partir de sua experiência e cobertura em guerras e zonas de conflito. Fico pensando, às vezes, como seria a produção dele se ele recorresse ao aparto “mojo” atual e produzisse para portais, e não para livros. Acredito que a informação não seria a mesma, já que sua produção está muito vinculada à uma experiência holística da situação.
    É claro que, nessa perspectiva, não estamos abordando o jornalismo “corriqueiro”, aquele que precisa estar pronto antes da deadline do dia. Mas é um contraponto que considero interessante para análise.
    Ao mesmo tempo, vejo o aspecto muito positivo do maior acesso a informações variadas e acompanhamento de desdobramentos importantes para o momento na produção acelerada a partir do jornalismo móvel.

    • leticiaalmeida

      Até mesmo o jornalismo factual, do dia a dia, pode e desfruta desses recursos e é legal pensar que os dispositivos móveis muitas vezes até facilitam essa produção. Um exemplo pertinho da gente é o BH nas Ruas e como usamos o tempo todo o celular para apurar, escrever, editar e publicar as notas que tinham que ser postadas rapidamente pra que a gente desse o furo ou, pelo menos, não perdesse o “time”.

  • Leticia Lopes

    Acredito que o jornalismo móvel ainda possui um potencial de crescimento enorme. A prática em si é surpreendente não só pela sua rápida difusão a nível mundial, mas principalmente por ser bastante acessível já que grande parte da população possui smartphones, computadores e tablets, que são os aparelhos que hospedam o jornalismo móvel. É inegável que esse fenômeno foi primordial para a circulação de informação instantânea e, a transmissão de conteúdo dos meios de comunicação passou por uma revolução. Entretanto, no decorrer da leitura fiquei questionando se o fenômeno que aprimorou a instantaneidade da mídia jornalística, não foi o mesmo que causou um colapso nos meios de comunicação tradicionais, resultando na demissão de diversos profissionais das redações e das empresas de comunicação. Seria o jornalismo móvel o responsável pela famosa “crise do jornalismo”?
    Penso que alguns meios de comunicação estão sendo considerados obsoletos pela drástica diminuição do seu uso e, talvez, o motivo para essa queda seja devido ao fato de que os meios como jornal impresso, revista, rádio e televisão não fornecem a instantaneidade e mobilidade que o jornalismo móvel possibilita. Em outra disciplina (Projetos B1) precisei ler o livro “O Fim da Televisão” e, embora o título carregue uma determinada ideia, a narrativa se desdobra de forma contrária, alegando que a televisão, tanto o aparelho em si como seus canais, não morrerão tão cedo. E um ponto icônico sobre isso é que para manter o seu público consolidado e atrair as novas gerações a TV está se apropriando de recursos presentes no jornalismo móvel, como a conexão com a internet, se tornando assim uma “smart tv”.
    E por ai surge outro questionamento: Será que para sobreviverem, os meios tradicionais precisarão de recursos do jornalismo móvel?

    • leticiaalmeida

      Nunca tinha me questionado sobre a relação entre o jornalismo móvel e a crise jornalística mas, particularmente, acho que não tem a ver. Primeiro porque o jornalismo móvel diz muito mais sobre o fazer jornalístico do que o conteúdo da notícia: ele modifica a forma de produzir a matéria mas não o que é produzido. E isso justifica também o meu segundo ponto, que entra naquela questão da crise da narrativa jornalística e não do jornalismo em si.
      Outra coisa que penso também é que, sim, o dispositivos móveis ganharam certo protagonismo na forma de consumir notícia mas acho forte pensar os outros meios como obsoletos. Na nossa bolha consumimos notícias no celular mas ainda há quem goste do jornal impresso e o próprio jornal impresso sustenta o jornalismo. Acho um bom exemplo o caso do Bhaz, um portal online que tem a maior parte dos acessos vindos de celular mas que, todos os dias, posta a capa dos principais jornais impressos da cidade.
      E sobre o último ponto, acho que eles só não precisaram como já estão fazendo isso e acredito que otimiza muito a produção da notícia e até a propagação dela.

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