Nada se cria, tudo se remixa

A cultura remix é um termo disseminado por Lawerence Lessing – um dos maiores defensores da internet livre – para caracterizar um grupo que permite e encoraja a criação de novos trabalhos a partir de coisas/trabalhos prontos. É uma cultura presente nas artes desde a primeira metade do século XX, junto com o modernismo, popularizou com o uso na música, através dos DJs, mas atualmente, graças a acessibilidade que a tecnologia permite, é um meio de produção facilmente de ser encontrado, utilizado muitas vezes até por pessoas que não conhecem profundamente o termo.

A maior discussão em torno do remix é acerca dos direitos autorais sobre o autor da obra que foi remixada. Muitos Djs foram criticados e até processados sob acusação de roubo/plágio por remixarem a música. Uma das principais lutas do Lawerence Lessing era que isso não ocorresse, pois significado estrito de remix é transformação e não apropriação de um objeto/obra. Lessing também é um dos fundadores do Creative Commons, que é um fundação não-governamental sem fins lucrativos que visa disseminar obras com licenças criativas que permitem cópia e compartilhamento que uma maneira que possibilita artistas a remixarem. A organização foi fundada em 2001 com o apoio do Domínio Público e as licenças foram lançadas em 2002.

Ao contrário do que muitos pensam, o remix não anda junto com o plágio. O plágio é uma apropriação autoral e intelectual da obra como um todo, enquanto o remix deseja transformar a obra. Um fator que distancia ainda mais o remix do plágio é que para a compreensão completa da intenção do autor é necessário que o espectador conheça a obra original. “Se entendemos o remix como uma reinterpretação ou uma alegoria a outro texto, que por consequência demanda uma leitura de seu espectador […].” (COSTA, 2007, p. 83).

No mundo da arte é muito comum presenciar obras que assemelham entre si, principalmente obras de diferentes autores, mas pertencentes a um mesmo movimento artístico. Um hábito muito comum que percebo em muitos artistas é a procura de inspiração para iniciar alguma obra. Coletar material de referência é parte de ambos os processos de criação. Após essa coleta referencial é que o artista desenvolve a obra, devolve toda inspiração com pitadas autorais e criativas em forma de produto final. “[…] trabalhar com imagens advindas de universos díspares, dando a elas um espaço de convivência, de conversação.” (LEÃO, 2016, p. 37). É de certa forma, nesse momento cria-se uma espécie de remix – mais comedido.

A criação no meio digital potencializa esse método de criação. Em um meio onde ‘copiar e colar’ fica mais acessível, a busca e troca de inspirações fica ainda maior. As tendências visuais possuem uma presença muito mais marcante com a produção e disseminação no meio digital.

A partir disso a reflexão que faço é de como o remix está presente no nosso cotidiano – principalmente após o digital – de um certo modo silencioso e não discutido em vários campos que o utilizam e fazem dele um processo de criação. Atualmente percebo o remix como uma técnica muito importante do meio criativo e discutida menos do que o necessário.

Vale a pena ler/ver:

https://www.ideafixa.com/oldbutgold/pintor-faz-um-remix-da-historia-da-arte-em-sua-obra

Referências

COSTA, Maria Teresa Tavares. Control+C: Autoria na rede. 2007. 124f. Tese (Mestrado em Comunicação e Semiótica) – Pontifícia Universidade Católica. São Paulo, 2007. 

LEÃO, Lúcia. A arte do remix: uma arqueologia dos processos de criação em mídias digitais. Rumores, v. 10, n. 20, p. 26 – 45, jul./dez., 2016.

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