Nem meu, nem seu

Nos infiltramos no grupo de Facebook “Eu quero, Eu tenho (UFMG/UEMG)” para entender as práticas de escambo online e como elas impactam a maneira com que compramos hoje.

Suponha que você tenha peças de roupa boas que não lhe sirvam mais, ou um móvel da casa que deseje trocar. Ou quem sabe você esteja precisando de aulas de reforço, mas não tem dinheiro para pagá-las. Algumas dessas situações soam bastante familiares, não é mesmo? Pensando em problemas assim, em diversas redes sociais e sites na internet emergiram grupos de troca entre usuários e Economia Solidária como uma alternativa ao comércio tradicional. Contudo, a proliferação e crescimento de grupos desse tipo apontam que a Economia Solidária não se restringe a um mero meio de sobrevivência para trabalhadores de baixa renda, indo muito além da geração de renda e do escambo.

E afinal, o que é Economia Solidária? Para a entendermos melhor, segundo o Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES), podemos defini-la entre três dimensões: econômica, cultural e política. A primeira se refere às atividades de produção, oferta de serviços, comércio, financiamento e consumo baseados na democracia e na cooperação. A ideia é de um sistema de autogestão, sem relação de patrões-empregados.

Culturalmente, é uma forma de consumo que prioriza produtos locais, saudáveis, que não degradem o meio-ambiente ou contenham transgênicos, em detrimento de produtos industrializados que sustentam grandes empresas. Assim, a prática visa transformar o paradigma da competição capitalista em prol da cooperação e da inteligência coletiva.

Sua terceira e última dimensão, de âmbito político, se refere à Economia Solidária como um movimento social, que luta por mudanças na sociedade quanto ao seu desenvolvimento. Essa mobilização defende um modelo de progresso que não esteja atrelado a grandes empresas ou latifúndios, bem como seus proprietários e acionistas, mas que seja construído por pessoas comuns e para a população em geral, a partir de valores sociais e democráticos.

Dentro dessa lógica, o próprio ambiente da Universidade nos proporciona ótimos exemplos de Economia Solidária. O principal deles é o grupo no Facebook “Eu quero, Eu tenho (UFMG/UEMG)”, que engloba e recebe estudantes e outras pessoas ligadas às duas instituições acadêmicas, contando atualmente com quase 6.400 membros. No grupo, usuários publicam postagens divulgando o que estão procurando e/ou oferecendo, muitas vezes sem envolver dinheiro, como produtos caseiros, livros, itens colecionáveis, móveis, utensílios ou roupas usadas.

Também são ofertadas formas de serviço como pagamento ou moeda de troca, como aulas particulares, consertos de peças, instalação e montagem de equipamentos, entre outras.

Mas será que os próprios estudantes que estão no campus frequentam ou sequer estão cientes destes ambientes de troca online? Fomos ao Centro de Atividades Didáticas II (CAD II) entrevistar alguns alunos para saber o que eles conhecem sobre Economia Solidária e nos trazerem suas histórias sobre o tema. Confira no vídeo abaixo.

Cópia de foto eduardoBuscando entender melhor essa dinâmica e como ela se aplica nos ambientes online, acompanhamos a movimentação do grupo “Eu quero, Eu tenho” durante uma semana, analisando as principais postagens e tipos de trocas realizadas entre os usuários. Após nossa observação, procuramos alguns dos principais integrantes do grupo para entrevistá-los e conhecer suas experiências com o “Eu quero, Eu tenho” e em outros espaços de Economia Solidária.

O primeiro deles é Eduardo Marchetti Motta, 28, formado em Economia pela UFMG, atualmente mestrando na Escola de Arquitetura. Ele nos conta que criou o “Eu quero, Eu tenho” junto a um amigo da Economia, inspirado em outros espaços de trocas virtuais, e hoje é o único administrador do grupo. De acordo com Eduardo, a criação do grupo se deu com o intuito de promover um local virtual que possibilitasse o encontro para trocas, mais especificamente voltado para a UFMG e UEMG, para garantir uma maior segurança e proximidade para alunos e funcionários das universidades.

Eduardo ainda ressalta que muito além de um simples espaço de trocas e convivência entre os universitários, grupos como o “Eu quero, Eu tenho” emergem como crenças em novas formas de se consumir, fora dos padrões do comércio tradicional. Confira essas e outras ideias do criador do grupo sobre suas origens, no áudio a seguir.


Ao longo da nossa semana de acompanhamento do grupo “Eu quero, Eu tenho”, também se destacaram as postagens de Ludmila Cioffi, 27, que geraram bastante repercussão entre os membros do grupo, e também fomos entrevistá-la. Ludmila é psicóloga e utiliza espaços públicos do campus da UFMG para alguns de seus atendimentos, ela também nos conta que entrou no grupo há poucos meses, mas que já participava de outros grupos de Economia Solidária na internet.

Cópia de foto ludmillaAs postagens de Ludmila no grupo costumam listar quais produtos e serviços ela está procurando e oferecendo, com opções de vários tipos: Bepantol caseiro, peças de roupas, pintura de cabelos, aulas de penteados e costura, mudas de plantas, capas de almofadas, sessões de terapia, massagem e acupuntura, miniaturas e artesanatos. Esses são apenas alguns dos itens e moedas de trocas que pintam por lá. E justamente essa variedade que garante tanto engajamento entre os usuários do grupo.

Segundo Ludmila, que já era ativa em vários outros grupos de troca, ela descobriu o “Eu quero, Eu tenho” por intermédio de uma paciente. Para ela, trocar roupas e acessórios entre amigas era algo comum, mas que limitava bastante suas possibilidades de conseguir o que desejava. Assim, o ambiente da internet proporciona uma maior acessibilidade a pessoas de lugares e perfis diversos, além dos nossos círculos sociais. Contudo, Ludmila ainda conta que, apesar do contato inicial ser pela internet, isso não significa que não haja interações ou estreitamento de laços entre os usuários, como podemos ouvir no áudio a seguir.

 

Durante nossa observação do “Eu quero, Eu tenho” e das experiências compartilhadas por Eduardo e Ludmila, notamos o quão evidentes são cada aspecto fundamental da Economia Solidária na configuração destes grupos, que vão além de simples espaços de escambo online. Tanto em seu funcionamento geral quanto no comportamento pessoal dos membros, esses grupos colocam o bem-estar e os valores de seus usuários antes do valor de mercado. Todos esses elementos agem em prol de uma economia colaborativa, feita por meio da cooperação entre as pessoas, em detrimento da competitividade.

Nesse modelo, os usuários são livres para determinar o custo dos próprios produtos e a maneira com que são pagos, inseridos em um ambiente onde os negócios são pautados primordialmente pelos interesses e necessidades humanas, e não por valores pré-estabelecidos pelo comércio. Se a economia tradicional que conhecemos muitas vezes parece estimar apenas o lucro e o dinheiro, não restam dúvidas que na Economia Solidária quem carrega o valor são as pessoas.

Além das conversas com os internautas, registramos algumas das coisas que vimos sendo trocadas e vendidas no grupo. Veja abaixo esse diário e fique de olho se algum dos seus entulhos poderiam parar por lá!

Cópia de Infográfico Lab Reportagem

Equipe

Ângelo Franco e Bruno Silvestrini.

4 comments

  • Richard

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