O Big Brother do futuro: Estamos caminhando para uma sociedade de vigilância?

Thaís Henriques

O avanço da tecnologia da informação caminha ao lado de praticidades, conquistas científicas e sociais. O processo de geolocalização, de comunicação e de disseminação de informações são apenas uma parte dos recursos computacionais que utilizamos diariamente. Fazemos uso da internet e de aplicativos para ir e voltar do trabalho, para nos comunicarmos com família e amigos, para fazer pesquisas e ler notícias, além de buscar lazer e entretenimento.

Essa diversidade de recursos usufruídos por tantas pessoas frequentemente passa por um processo de coleta de dados pessoais dos usuários, visando a melhora do produto ofertado. Produtos do Google e Facebook, por exemplo, coletam informações e dados dos usuários e isso não é novidade para ninguém. Em seus termos de serviço eles deixam bem claro que armazenam nossas informações pessoais, o que fazemos e o que criamos, como coisas que pesquisamos, sites que visitamos, vídeos e fotos que fazemos upload.

A coleta e uso desses dados permite a criação de serviços cada vez melhores e mais personalizados, podendo cada vez mais satisfazer nossas aspirações computacionais e tornar nosso cotidiano cada vez mais conectado, fluido e prático. Já imaginou termos casas inteligentes, carros que dirigem sozinhos e assistentes virtuais que organizam nossas rotinas? Nenhuma dessas coisas está muito longe de acontecer.

Tudo isso parece muito bom, se não fosse a viabilização de um sistema de vigilância, no qual tanto os sites e apps quanto instâncias governamentais podem ter acesso à informações pessoais dos usuários.

Casos como de Chelsea Manning, Julian Assange e Edward Snowden exemplificam o tipo de vigilância que pode acontecer através da internet e da coleta de dados. Julian Assange tornou público uma série de documentos sigilosos envolvendo diversos casos e países e criou o portal WikiLeaks, destinado a veicular postagens de fontes anônimas, documentos, fotos e informações confidenciais, vazadas de governos ou empresas, sobre assuntos sensíveis. Após divulgar uma grande massa de documentos secretos do exército dos EUA, reportando a morte de milhares de civis na guerra do Afeganistão por militares norte-americanos, Assange virou inimigo dos Estados Unidos e perseguido político. Suas informações pessoais, assim como as informações do WikiLeaks foram intimadas pelo Governo Americano à empresas como Google e Yahoo.

O caso de Julian Assange não se diferencia muito dos demais perseguidos políticos acusados de ciberterrorismo e outros crimes computacionais. A coleta de dados pelos portais aliada à ausência de legislação clara sobre o assunto permite essas situações de perseguição e vigilância. Isso dá prerrogativa para que governos ditatoriais persigam iniciativas de resistência e se mantenham no poder, como aconteceu com Muammar al-Gaddafi na Líbia e acontece com o governo de Bashar al-Assad na Síria.

O maior problema é que os dados coletados não são apenas de pessoas perseguidas, das quais governos intimam informações. Os portais coletam dados e metadados de todos os usuários e armazenam-os da mesmo forma. Dessa maneira, estamos sempre sujeitos à vigilância.

O governo chinês está com uma iniciativa de classificar seus 1,3 bilhões de cidadãos, medindo e privilegiando a “confiança” de cada indivíduo, buscando construir uma cultura de “sinceridade”. O projeto está programado para funcionar em 2020, quando o comportamento de cada um dos cidadãos chineses e pessoas jurídicas (incluindo empresas e outras instituições) será classificado. As pessoas receberão pontos a partir de suas linhas de crédito, habilidades para cumprir com contratos, características pessoais, comportamentos e preferências. Assim, o cidadão será avaliado a partir de seus boletos, contratos, redes sociais e a lista continua. É como se você recebesse pontos baseados na sua conta no Facebook, o que você publica no Youtube, o que você assiste no Netflix, quem você dá match no Tinder…

A China está criando um sistema de investigação e modelamento de comportamentos, instaurando um sistema de vigilância que rastreia todos os passos de sua população e, além disso, os avalia. Ela está criando sistemas de privilégios e “listas-negras”, cujos critérios de classificação coagem os indivíduos a comportamentos e modos de pensar padronizados.

Essa cidade futurística à la “Big Brother” seria a vanguarda do futuro de todo o planeta? Estamos olhando para um futuro de constante vigilância?

Essas são perguntas que apenas o futuro pode nos responder.

3 comments

  • leticiaalmeida

    Essas discussões sobre vigilância me deixam bastante intrigada, principalmente porque penso que somos nós mesmos que fornecemos esses dados de mão beijada E existe essa linha tênue, como você abordou no texto, da automatização e personalização das coisas a partir dos nossos dados serem vistas com bons olhos mas, ao mesmo tempo, viabilizarem um controle sobre nossas vidas. Lembro que em uma das apresentações dos seminários, a Fredu comentou que após os atentados de 11 de setembro a questão da vigilância se intensificou sob a máscara de segurança para que outros episódios semelhantes aos ataques não acontecessem. Isso me fez pensar que, de alguma forma, o 11 de setembro foi conveniente pro Estados Unidos pois, sob o manto de proteção, eles poderiam viajar muito mais pessoas e ter acesso a muito mais informações.
    Eu, sinceramente, não consigo imaginar o desenrolar e o desdobramento desse cenário, mas achei muito pertinente o que Guilherme comentou aqui em cima, comparando essas novas tecnologias e práticas ao desenvolvimento do cinema e fotografia, vistos com maus olhos por grupos resistentes, tal como é agora com essas novas práticas – nunca tinha pensado por essa perspectiva.
    Acho sim que, até um certo limite, a coleta de dados nos beneficia, principalmente – pensando no dia a dia – no que diz respeito às compras e ao consumo, mas, como colocado mais acima no comentário, ela também nos invade, então… uma faca de dois gumes.
    Concordo com o Guilherme que uma possível solução é uma regulação em ambientes digitais, mas a pergunta que faço é a mesma: que instância é apropriada para isso?

  • Guilherme Augusto

    As discussões acerca da vigilância são de suma importância, ainda mais em uma sociedade cada vez mais digital e conectada como a nossa. Uma questão interessante do texto é justamente a vigilância digital utilizada e justificada por esferas do poder. Isso em um cenário no qual nem a própria legislatura das mídias digitais são compreendidas e assimiladas em sua integridade – os tais “Termos & Condições”, aos quais nós simplesmente aceitamos sucessivamente. E tudo isso está muito em consonância quando Lawrence Lessig diz que “code is law”, ou seja, que o código de programação dos sites e redes sociais estariam associados a uma legislação própria, baseada em regras desenvolvidas por programadores e, em geral, atendendo a interesses das empresas. Desse modo, de fato não é possível medir até que ponto estamos cedendo informações para determinadas empresas e instituições. Também talvez não seja possível saber para quê elas serão usadas. Apesar disso, discordo dos tons alarmistas que associam todas essas transformações às mudanças tecnológicas, que provavelmente irão ocasionar em uma mudança social e cultural. Além do mais, se formos olhar para outros momentos decisivos da história, como quando a fotografia, o cinema, o rádio ou a televisão eram novidade, certamente será possível identificar grupos resistentes a suas utilizações, que negaram as mudanças promovidas. Talvez seja esta mesma sensação que nos acomete quando pensamos em uma sociedade completamente automatizada e digitalizada. A própria ideia de vigilância carrega uma conotação negativa, mas também pode significar segurança – como nas câmeras, por exemplo. Olhar para todas estas novidades e nega-las também me parece uma maneira retrógrada de enxergar a realidade na qual estamos inseridos. Uma solução plausível seria exigir uma maior regulação dos ambientes digitais, mas quem é a instância apropriada para isso? Ainda estamos engatinhando. O Governo chinês, historicamente, flerta com decisões autoritárias e essa espécie de sistema de avaliação de fato parece ultrapassar alguns limites. No entanto, também precisamos questionar a que nível este tipo de mecanismo já é usado pelas instituições públicas. Até mesmo no Brasil.

  • Guilherme Augusto

    As discussões acerca da vigilância são de suma importância, ainda mais em uma sociedade cada vez mais digital e conectada. Uma questão interessante do texto é justamente a vigilância digital utilizada e justificada por esferas do poder. Isso em um cenário no qual nem a própria legislatura das mídias digitais são compreendidas e assimiladas em sua integridade – os tais “Termos & Condições” aos quais nós simplesmente aceitamos. E tudo isso está muito em consonância quando Lawrence Lessig diz que “code is law”, ou seja, de que o código de programação dos sites e redes sociais estariam associados a uma legislação própria, baseada em regras desenvolvidas por programadores e, em geral, atendendo a interesses das empresas. Desse modo, de fato não é possível medir até que ponto estamos cedendo informações para determinadas empresas e, acima de tudo, para quê elas serão usadas. Apesar disso, discordo dos tons alarmistas que associam todas essas transformações às mudanças tecnológicas, que provavelmente irão ocasionar em uma mudança social e cultural. Além do mais, se formos olhar para outros momentos decisivos da história, como quando a fotografia, o cinema, o rádio ou a televisão chegaram, certamente será possível identificar grupos resistentes a suas utilizações. Talvez seja esta mesma sensação que nos acomete quando pensamos em uma sociedade completamente automatizada e digitalizada. A própria ideia de vigilância carrega uma conotação negativa, mas também pode significar segurança – como nas câmeras, por exemplo. Olhar para todas estas novidades e nega-las também me parece uma maneira retrógrada de enxergar a realidade na qual estamos inseridos. Uma solução plausível seria exigir uma maior regulação dos ambientes digitais, mas quem é a instância apropriada para isso? Ainda estamos engatinhando. O Governo chinês, historicamente, flerta com decisões autoritárias e essa espécie de sistema de avaliação de fato parece ultrapassar alguns limites. No entanto, também precisamos questionar a que nível este tipo de mecanismo já é usado pelas instituições públicas.

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