O ciborgue em tempos líquidos

Warlen Valadares

Somos todos ciborgues, é o que afirma a teórica americana Donna Haraway. Segundo ela, o homem contemporâneo é um ser híbrido, uma mistura entre o biológico e a máquina. É difícil não concordar com Haraway quando pensamos em próteses, marca-passo e coração artificial, por exemplo, frutos da microeletrônica associada à medicina. Medicamentos, vacinas, anabolizantes, cirurgias plásticas e transplantes de órgãos remodelam nossos corpos, processo não muito diferente da reconfiguração de uma máquina. Se ainda não somos robôs, que podem ser desmontados e remontados, é inegável que, graças à ciência, rompemos certos limites impostos pela biologia e tornamos o corpo mais resistente a bactérias e vírus, velhos inimigos naturais, o que fez a expectativa de vida aumentar como nunca antes.

Além disso, nossa grande dependência de objetos tecnológicos, como o insubstituível smartphone, que para muitas pessoas já se tornou uma extensão do próprio corpo, evidencia o processo de fusão entre a “carne” e a tecnologia. Ferramentas digitais de criação e divulgação de conteúdo, redes sociais, GPS, motores de busca virtual, aplicativos de mensagem e e-commerce seduzem com a promessa de facilitar a vida e aos poucos nos dominam. É quase impossível escapar. Como as relações humanas na modernidade líquida se tornaram tão superficiais, utilitárias e mediadas por essas tecnologias, quem ousa fugir delas é como se nem existisse. Seja por pressão de amigos, trabalho ou até mesmo pela necessidade de buscar aprovação do outro, a maioria de nós está mergulhada e presa nesse ecossistema midiático.

Se, por um lado, todas essas ferramentas são extremamente úteis, cabe aqui uma breve reflexão sobre seus possíveis efeitos colaterais. Assim como o ciborgue, apresentado nos filmes de ficção científica a partir dos anos 1980, grande parte do aparato tecnológico atual surgiu graças ao militarismo. Governos interessados em desenvolver estratégias de vigilância e controle sobre os indivíduos, tanto cidadãos comuns quanto inimigos, se esforçam para capturar, processar e armazenar dados de bilhões de pessoas. Tudo em nome da segurança, principal tema na agenda global após os atentados terroristas de 11 de setembro, mas já presente no período da guerra fria. Dos satélites às smart TV’s, qualquer objeto conectado a web é um potencial espião.

Inegavelmente, agências de inteligência, como a NSA, e grandes corporações capitalistas usam métodos questionáveis e até ilegais para obter esses dados. Contudo, o trabalho delas é facilitado pela nossa exposição voluntária na rede. Do inocente botão “curtir” ao compartilhamento da localização, estamos sempre deixando rastros que podem ser identificados e monetizados por inúmeras empresas. Abrimos mão da privacidade em troca dos supostos benefícios trazidos pelas redes sociais, como nos alertou o filósofo Zygmunt Bauman em seu livro Vigilância Líquida.

Ainda que o futuro da humanidade não seja apocalíptico, como apontam alguns teóricos, vale questionar a serviço de quem e de quais interesses trabalham essas organizações, afinal nenhuma tecnologia é politicamente neutra. E em que medida nós mesmo estamos operando como agentes de vigilância e controle quando, por exemplo, avaliamos as postagens dos outros nas redes sociais ou quando expomos na internet os supostos deslizes cometidos por alguém? Corremos o risco de atingir um estágio de perfeita vigilância em que o indivíduo terá sua liberdade e privacidade perpetuamente sequestradas.

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