O jornalismo no século XXI: mobilidade e transmidiatização

Stéphani Sales

Com a era digital e seus desdobramentos, não só os produtos tecnológicos sofreram mudanças. É evidente que o jornalismo também passou – e ainda tem passado – por reformulações. O uso de smartphones, tablets, aplicativos e redes sociais, tanto por jornalistas quanto pelos consumidores de notícias, altera a relação entre as duas partes e possibilita que diferentes formatos e estratégias narrativas sejam utilizadas. Entender formas emergentes de se fazer jornalismo é muito importante para se inserir nessa dinâmica em constante mutação.

O jornalismo móvel, como definido por Fernando Firmino da Silva, é caracterizado pelo uso de tecnologias móveis para a produção e consumo de notícias. No contexto atual, essa definição se torna mais complexa. Mais do que “informação transportada para os jornais e revistas, meios eletrônicos como rádios e TV” (SILVA, 2015, p.10), o conteúdo jornalístico passa a ser produzido e veiculado em tempo real, atualizado a cada momento e moldado diretamente pela audiência.

O conceito de prosumidor, criado por Alvin Toffle, nos dá uma boa noção do jornalismo do segundo milênio. O consumidor que também produz é a figura de cada usuário das redes sociais, que com estas adquiriu o costume de interagir diretamente com os temas recorrentes. Com isso, jornalistas têm se adaptado ao perfil do público, utilizando recursos inovadores. As produções transmídia que proporcionam conteúdo multiplataformas e experiências de imersão são bons exemplos de estratégias bem-sucedidas de transposição da barreira entre consumidor e produtor.

João Carlos Massarolo, em seu artigo “Jornalismo transmídia: a notícia na cultura participativa”, aponta que a transmidiatização envolve a “criação  de  universos  originais,  ricos e  capazes  de  gerar  redes  de comunicação  e  oportunidades  de  expandir  conteúdos”. Um dos exemplos dessa prática a ser destacado é a plataforma UOL Tab, do portal de notícias UOL. Combinando texto, imagens, áudio e vídeo, o UOL Tab produz longas reportagens sobre diversos assuntos, com o diferencial de ser uma abordagem mais profunda e cativante.

Os newsgames, jogos que retratam acontecimentos e situações reais, são outro exemplo do uso das novas tecnologias no fazer jornalístico. A internet, com seus hiperlinks e feeds infinitos, se torna um desafio para conquistar a atenção do leitor. Assim, tornar a recepção de notícias uma experiência mais atrativa e interativa é uma forma de garantir que os meios de comunicação tenham mais chances de atingir os consumidores.

Outro ponto importante nesse novo contexto é a utilização das redes sociais e aplicativos pelos próprios jornalistas. Os profissionais, por meio das plataformas online, podem interagir diretamente com suas fontes e receber conteúdo atualizado a todo momento, mesmo sem estar no local em questão. Até mesmo formatos mais tradicionais, como os telejornais, têm se aproveitado de material enviado pela audiência. No site do G1, portal de notícias da Rede Globo, é possível encontrar até mesmo uma lista de contatos dos diversos jornais locais da emissora para os quais o espectador pode enviar fotos, vídeos e mensagens por meio dos aplicativos Viber e Whatsapp.

Assim, percebemos que as mudanças notadas no jornalismo são nada mais que adaptações às demandas e preferências de uma audiência que tem cada vez menos o costume de tirar um momento para assistir ao telejornal ou ler o jornal diário. Profissionais e veículos interessados em expandir seu público e reinventar seu conteúdo precisam se atentar aos novos formatos e criar estratégias para produzir com qualidade e conquistar esse público conectado que só tende a crescer.

4 comments

  • Augusto Leao

    O jornalismo transmidiatico tem crescido cada vez mais, e isso muito se deve as redes sociais. O consumidor de notícias cada vez menos tem aquele interesse de sentar em frente a uma tv e buscar noticiários diversos sobre fatos no mundo. Hoje ele quer interagir com o noticiário, interagir com a reportagem, e a matéria transmidia garante isso.

    Grandes portais de notícias online tem investido cada vez mais nessas reportagens transmidias, e se adaptado à receptividade dos que consomem os produtos jornalísticos. As pessoas tem buscado cada vez mais formas diferentes de se informar, tudo mudou de uns tempos pra cá.

    A internet possibilitou a busca pela informação independente do momento, possibilitou buscar apenas o que é de interesse do individuo, fazendo da filtragem e da seleção do que busca, fatores fundamentais para a grande circulação de público e preferência do mesmo. O fato das noticias textuais estarem diminuindo e sendo incorporadas junto a outros conteúdos diversos tem atraído ainda mais os leitores, que buscam conteúdos dinâmicos e menos massantes quando querem informação. Digamos que reportagens transmidias levam uma leveza maior ao conteúdo passado, atraindo o interesse dos que querem se informar.

    O antes receptor, agora também tem ganhado o direito de produzir de certa forma a informação, e isso o tem atraído cada vez mais, o jornalismo transmidia é a evolução do fazer jornalismo proporcionado principalmente pelas redes sociais, é a evolução do ato de consumir conteúdo.

  • Marcus Vinicius

    A ideia de parar o que estamos fazendo para sentar de frente para a TV e assistir ao jornal nacional da TV Globo, por exemplo, parece estar cada vez mais ultrapassada. Esse tipo de situação retratava um receptor passivo de notícias que até então não tinha a oportunidade de atuar como coprodutor da informação. Mas o que se percebe nos dias de hoje é uma total inversão deste cenário, as pessoas têm perdido o hábito de sentar em frente à TV para assistir aos noticiários. A notícia tem chegado até as pessoas de formas mais rápidas e dinâmicas. Hoje o consumidor de notícias ajuda significativamente na produção da mesma e a TV tem perdido espaço entre os veículos utilizados para se ter acesso à informação. Vejo que as pessoas cada vez mais têm procurado novas formas de se informar, e dentro deste novo momento as redes sociais têm exercido um importante papel. Percebo ainda que a forma de consumir notícia nas novas mídias é bastante diferente do que era praticado pela TV e jornais impressos. As notícias estão ficando cada vez mais curtas e dividem espaço com outros tipos de produção de conteúdo. Reportagens do tipo Long Form parecem ter baixa aceitação entre os usuários de redes sociais. As novas mídias proporcionam uma não linearidade no consumo da informação, ou seja, as pessoas consomem aquilo que querem, na hora que querem e na ordem que acharem melhor. A interação que temos com a notícia nas novas mídias é algo muito curioso, agora podemos interagir ativamente com o que esta sendo noticiado.

  • Luiza Martins

    O jornalismo transmídia me parece um dos mecanismos adquiridos à favor da web 2.0 e do próprio jornalismo para encontrar novos caminhos dentro da profissão. Interessante observar que, no contexto da cultura participativa de Henry Jenkins, a lógica do consumidor como mero receptor não funciona mais e acabou dando lugar às construções e produções dos usuários. Nesse sentido, o jornalismo transmidíatico se alinha às novas necessidades desses usuários que efervescem as páginas de conteúdo jornalístico em busca de algo além do oferecido pelos portais que insistem no arranjo tradicional quando há um mundo de possibilidades de criação transmidíatica.
    É preciso, portanto, assumir a consciência de que dentro das configurações tecnológicas, os leitores sejam beneficiados por matérias que abarquem o conteúdo de forma mais maleável, com maior interatividade, seja gráfica ou textual.
    Um exemplo desse cuidado para com às novas formas jornalísticas é o portal “O Beltrano”. O site reconfigurou o design para que este fosse compatível com mobiles e dispositivos móveis, já que por meio de análises descobriu-se que a maior parte dos leitores consumiam as notícias pelo celular. Outro ponto explorado são os portais que contam com a colaboração de produção de elementos visuais, audiovisuais, textuais e gráficos dos usúarios consumidores. Contudo, faço uma ressalva aqui por acreditar que apesar de ser um bom caminho as pessoas comuns participarem ativamente das produções, o caráter de exploração de mão-de-obra sem remuneração é um impasse quanto à ética para com os colaboradores.

  • Helvio

    Ótimo texto, Stéphani. Me fez lembrar de duas coisas que vivo pensando quando o assunto em questão é o jornalismo no novo século. Primeiramente, é engraçado como, no começo do século, os portais jornalísticos nada mais eram que simples transposições dos conteúdos impressos para as telas. Dessa forma, além de perderem as potencialidades do ambiente virtual, a atratividade dos conteúdos para o leitor era muito pouca. Em uma disciplina, fiz um panorama histórico sobre o jornalismo na web e realmente é assustador pensar que, em dezessete anos, os veículos não só se adaptaram ao online, mas já dão os primeiros passos em iniciativas dirigidas aos smartphones, por exemplo. Tudo corre tão rápido, as estruturas de trabalho tem se modificado tanto… o aprendizado é constante.

    Outro ponto que penso e que já virou discussão na turma (inclusive, em Projetos) é a nova relação entre leitor e jornalista no atual contexto. Enquanto há quem pense que a relação ainda é bastante hierárquica, sou do grupinho que defende que o leitor é tão – quando não mais – forte quanto o autor da notícia. Se considerarmos que o fim do texto jornalístico nunca é quando este é publicado e, sim, quando há a interação com o público, é evidente a importância dos leitores na difusão, compartilhamento e discussão em cima do conteúdo. No fim, é como se o caráter de notícia de um texto só fosse experimentado de fato por meio do leitor, principalmente nas redes sociais (Olha o poder!). Enfim, são reflexões que eu costumo fazer quando penso no tema. Ou quando abro o meu facebook e percebo que todos estão compartilhando o mesmo texto…

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