O progresso inevitável para a Internet das Coisas

Por Samuel Vieira

Todas as civilizações humanas passam por alguma espécie de revolução antes de mudarem. A raça humana começou como presa e, depois de anos de evolução, se tornou a espécie dominante do planeta inteiro. A ciência tornou isso possível. Agora, a ciência quer tornar o inimaginável em algo real: dar vida aos objetos, às máquinas. A humanidade passará nos próximos vinte anos por uma revolução nunca antes pensada na história. Mas, para que essa transição ocorra sem danos à ninguém, é preciso analisar a história das civilizações e de suas mudanças.

 

A história dos humanos é a história da necessidade. Há duzentos mil anos atrás, nasceram os primeiros humanos. Depois de um tempo, por pura necessidade de sobrevivência, os humanos começaram a se reunir em tribos. A caça e a pesca eram a base da subsistência humana. As aglomerações de humanos foram crescendo e nasceram as primeiras cidades. Os animais foram domesticados e se tornaram o principal “motor” dos seres humanos. Até então os animais eram vistos como meros instrumentos para a raça humana. Os animais foram os principais responsáveis pela chamada Revolução Agrícola. Pouco importava se eles eram ou não dotados de sentimentos e de consciência. Descartes, principal teórico dessa barreira que separa os humanos dos animais, acreditava que os animais não humanos eram apenas substâncias presos em um corpo, sem pensamento ou razão. Já os objetos estavam longe de serem vistos como potenciais “seres”. As fronteiras entre humanos e “outros” estavam muito bem definidas.

 

Milênios mais tarde, os humanos viram a necessidade de expandir seu domínio para outras civilizações. Foi da necessidade insaciável de poder que nasceram as máquinas. O trabalho seria otimizado. As máquinas fariam, e fizeram o ser humano, chegar aos céus. Junto com as máquinas vieram as pesquisas. A realidade que circunda, o universo no geral, ficou mais fácil de entender. As pesquisas tornaram os animais, antes meros instrumentos, em seres dotados de atributos considerados exclusivos dos humanos. Se você ensinar um pombo a pegar comida depois de dar duas voltas, você terá um pombo que acredita que dar duas voltas faz comida aparecer. Uma espécie de pombo supersticioso. Hoje em dia, é quase um sacrilégio afirmar que animais são só meras substâncias corpóreas. As fronteiras começaram a ser fragilizadas com essas pesquisas. A discussão, antes algo tão banal, do que é humano e o que não é tornou-se um pouco mais complexa.

 

E então, abriu-se a caixa de pandora: a Internet chegou. Lúcia Santaella afirma em seu livro “Comunicação ubíqua: repercussões na cultura e na educação” que o pó entrará no mundo das redes. Isso significa que até mesmo o pó, algo antes tão insignificante na nossa vida, poderá se comunicar, ato que antes era exclusivo para os seres humanos. Outro exemplo que ela dá em seu livro é a mudança de como as pessoas vão enxergar os alimentos: preço, tabela nutricional, informações sobre o local onde o produto foi feito e até mesmo o rastro de carbono que ele solta na natureza. Os objetos irão conversar entre si e com nós (um exemplo que facilita o entendimento sobre isso é a geladeira que te avisa que está aberta quando esquecem de fechá-la). A explicação para o surgimento disso tudo é a necessidade: o mundo pede mais comunicação, mais rapidez. A Internet das coisas facilitará, ou ao menos é o que os desenvolvedores dessa revolução prometem, a vida das pessoas. A automatização da vida humana está cada vez mais próxima. Essa automatização fará com que os objetos ganhem vida, mas é o preço que se paga pela facilidade que o mundo moderno traz. Tudo mudará com a chegada da Internet das coisas (“IoT” para os pesquisadores da área). A casa do detetive K (personagem do inédito “Blade Runner 2049”), o qual possui uma mobília pensante não é mais algo restrito à ficção, é realidade.

 

O que se entende por humano convencional está próximo de mais uma evolução. Uma que mudará toda a vida e, quiçá, o planeta inteiro. Novas filosofias, novos jeitos de olhar o mundo e tudo aquilo presente nele serão necessários. As fronteiras vão se romper por completo. Animais e objetos agora possuem, também, características humanas. Isso alterará completamente a forma como a raça humana se enxerga. Não existirá mais “humano”, com fronteiras e barreiras bem definidas, mas sim um “pós-humano”. E serão os próximos vinte anos que darão luz à essa evolução do humano.

4 comments

  • JP Carvalho

    No texto redigido pelo Samuel Vieira, vejo pertinência em citar a evolução do homem enquanto espécie antes de se dirigir ao tópico central, a Internet das Coisas, comparando-a, de maneira semelhante, com o desenvolvimento dos atributos físicos desenvolvidos por esse ser em processo de evolução, de modo a garantir o seu próprio processo de desenvolvimento. As ferramentas com as quais a espécie humana lidou, após o descobrimento de sua utilidade, pensando em como facilitariam o seu trabalho e garantiriam o ideal de progresso, também passaram por um processo evolutivo, tendo sido desenvolvidas ao longo dos anos para se adequar às necessidades de quem as produziu. Suas características foram melhoradas e foram re-desenvolvidas a fim de garantir seu repertório ao executar novos fins. “Foi da necessidade insaciável de poder que nasceram as máquinas”, diz Samuel. Conclui-se então que por detrás dos objetos existe uma ciência, sendo essa sujeito passivo de evolução constante, à medida que as técnicas para o seu desenvolvimento são aperfeiçoadas de acordo com a sua utilidade corrente. De igual maneira é pensada a Internet das Coisas, o objeto de trabalho de Samuel em seu comentário. A IoT, segundo ele, torna “meros instrumentos em seres dotados de atributos considerados exclusivos aos humanos”, sendo conivente com a ideologia de uma ciência por trás dos objetos, agora cada vez relacionados a um processo massivo e veloz de aperfeiçoamento de seus atributos, ao ponto de serem, por vezes, confundidos em sua gnose com o conhecimento cultivado pelos homens desde o desenvolvimento originário da sua primeira ferramenta.

  • Helena Antunes

    Adorei o texto comparando com o processo histórico de desenvolvimento humano com um possível retrocesso. Assim como no comentário que o Miguel fez, fico um pouco aflita ao pensar nessa dependência tecnológica que passou de um simples levantar do sofá para ligar a televisão para, em um clique, conseguirmos fazer transações bancárias, comprar objetos e solicitar serviços. Mesmo assim, com esse contexto histórico, no penúltimo parágrafo do texto, você colocou uma frase que me deixou curiosa: “a automatização da vida humana está cada vez mais próxima.” Depois de tanto conteúdo que nos prove de que as máquinas já fazem parte da vida cotidiana, você não acha que essa automatização já aconteceu anos atrás? Desde a Revolução Industrial, o homem passou a produzir objetos em curtos períodos de tempo, reduzindo, desde então, cada vez mais o esforço físico, braçal e usando as máquinas como principal fonte de produção. Acredito que mesmo com a Internet das Coisas, estamos nos precipitando muito. O homem sempre decidiu que a máquina seria uma forma de errar menos, produzir mais e reduzir o tempo que seria gasto durante a produção. Nem sempre acho que a inserção dessas máquinas podem ser positivas. Além disso, concordo totalmente com o comentário do Miguel quando diz que alguns saberes vão se restringindo apenas ao ambiente digital e que nós vamos cada vez mais aprender aquilo que nos interessa, nos limitando ainda mais como “a raça pensante, superior”. Esse limite entre a máquina facilitadora e a criação que domina é muito tênue.

  • Gabriel Jose

    Assim como o Miguel, eu também gostei muito das discussões trazidas pelo seu texto, Samuel. Acho importantíssima esta reflexão temporal acerca do que move o ser humano de antigamente e o pós humano, a necessidade, mesmo sendo muito complexo definir o quer é ser humano e mais ainda o que é o pós humano. O caso da geladeira, que além de estar presente no conteúdo produzido por você, também foi levantado na sala e pra mim ilustra muito bem a comodidade que nós buscamos nas nossas inovações, se por enquanto a tecnologia permite que a geladeira avise quando ela está com a porta aberta por muito tempo, no futuro a tendência é que ela se feche sozinha. Outro tema interessante pra mim, é como os objetos criam vida e como eles se portam a partir desse momento, pois ao mesmo tempo em que eles passam a conversar entre si com uma linguagem própria através de sinais de rádio frequência, eles precisam se comunicar conosco através de alguma interface. Pra mim, é essa segunda interação que anima cada vez mais os objetos, pois ao mesmo tempo que muitas vezes criamos soluções tecnológicas para suprir necessidades que não conseguimos resolver sozinhos, nós fazemos com que a inteligência artificial seja cada vez mais semelhante à nossa inteligência, como se fôssemos o padrão máximo de funcionamento que deve ser colocado como exemplo. Isso pode ser observado através dos ciborgues, que geralmente buscam um formato humanoide. Pra finalizar este comentário, resgatarei um pensamento abordado em sala de aula: cada vez mais, nós nos tornamos um pouco dos objetos (vide o caso do Neil Harbisson visto em sala) e os objetos se tornam um pouco mais humanos.

  • miguel.tiberio

    Gostei muito das reflexões levantadas pelo seu texto. O contexto histórico previamente apresentado, contribuiu muito para uma comparação orgânica do ser humano de antigamente e o pós humano que ainda virá (ou que já chegou). Fico meio neurótico quando a gente pensa no processo evolutivo em geral e como o ser humano sempre utilizou os recursos disponíveis, nem que eles fossem animais, para facilitar o cotidiano. O pior é que a justificativa da facilidade é muito boa, na verdade enquanto escrevo esse comentário, estou pensando o que ocorreu que implicou nessa busca desenfreada pela comodidade. Já na Grécia antiga, o ócio era visto como essencial e exclusivo aos cidadãos atenienses (minoria dominante), enquanto o trabalho braçal era destinado às classes mais baixas. Talvez por ser característico das classes dominantes, a busca pela facilidade excessiva foi concretizada na sociedade sob um viés positivo e que precisa constantemente ser aumentada. Fico preocupado também com as consequências da obtenção dessa facilidade. Estamos cada vez mais independentes, porém dependentes. Hoje em dia com um smarthphone conseguimos fazer tudo, porém sem ele nossas capacidades, como as de localização, por exemplo, se reduzem significativamente, parece que abrimos mão de certas habilidades em troca dessa comodidade. Por sempre ter acesso a tutorias e receitas, a necessidade e o acúmulo de alguns conhecimentos tornaram-se, de certa forma, inúteis. Dessa forma, alguns saberes vão se restringindo apenas ao ambiente digital, enquanto nós vamos cada vez mais, aprendendo apenas aquilo que é realmente imprescindível no nosso cotidiano ou que nos interessa.

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