O que os ciborgues têm a nos dizer?

Créditos: Target Filmes

Helvio Caldeira

Limites entre o humano e o inumano, questionamentos sobre a opressão de gênero e reflexões antropológicas a partir da figura dos ciborgues. À primeira vista, a leitura de “Manifesto Ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo–socialista no final do século XX” pode causar um estranhamento naqueles que não têm tanto contato com os temas em questão. Não é à toa que, desde que foi publicado em 1985 por Donna Haraway, inúmeros pesquisadores tem tentado traduzir a obra em uma maneira mais simples de ser compreendida pelo leitor. Pela internet, por exemplo, não é difícil encontrar roteiros de leitura desenvolvidos por portais feministas e professores para facilitar a leitura de um texto permeado por metáforas e referências à literatura e ficção científica.

Entender Manifesto Ciborgue requer, primeiramente, que conheçamos o nome por trás de tais palavras. Hoje professora do Departamento de História da Consciência na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, Donna Haraway possui inúmeros trabalhos que giram em torno de questões como tecnologia, ciência e feminismo. Graduada em Zoologia e Filosofia pela Colorado College, a pesquisadora viveu em Paris por um ano, período em que estudou filosofias da evolução antes de se tornar uma PhD do Departamento de Biologia em Yale em 1972. Além disso, a escritora lecionou Estudos de Gênero e História da Ciência na Universidade do Hawaii e Johns Hopkins University. Interessante observar, dessa forma, como a interdisciplinaridade de sua carreira recai sobre o texto em questão: da mesma maneira que funciona como uma introdução para o cyberfeminismo (Haraway se posiciona como feminista-socialista durante o manifesto), a carga filosófica de Manifesto Ciborgue mostra que ele vai muito além das problemáticas de gênero.

Logo no início do ensaio, enquanto dá um panorama inicial sobre o que seria um ciborgue de fato, a autora explica que este é um organismo cibernético, a fusão entre máquina e organismo, uma realidade que é, ao mesmo tempo, social e ficção. Por meio de sua parte social, o ciborgue pode experimentar nossas relações de poder e entender o quanto somos limitados, enquanto, como ficção, pode ser o imaginário que nos impulsionará para pensar o futuro. Como criatura do mundo pós-gênero que não tem nenhum compromisso com o binarismo sexual, ele ainda acaba por questionar as fronteiras não só entre a imaginação e o real, mas as narrativas científicas criadas em cima de questões como produção e reprodução biológica. Sendo assim, o convite de Haraway é para que pensemos a metáfora da entidade tecnológica como uma mudança de perspectiva sobre as formas de se estar no mundo. No fim, o ciborgue diz mais sobre nós do que de si mesmo.

“Tomamos o ciborgue como uma figura que apresenta um potencial analítico, crítico e construtivo. Ao mesmo tempo que produz denúncia e análise, produz a construção de um novo estatuto através de uma severa crítica às dicotomias. Com este novo estatuto, temos também a possibilidade de um olhar crítico e reflexivo sobre o panorama que se desenha através da emergência/predominância das tecnociências.” (SIQUEIRA, H. e MEDEIROS, M., 2011)

E quais são as fronteiras rompidas a partir da ideia ciborguiana? Ora, primeiramente, a separação que fazemos entre humano e animal. Como mito que transgride as barreiras que distanciam homens de outros seres, o organismo tecnológico é justamente uma conexão entre ambos. Ademais, os dualismos que muito permeiam os estudos tecnológicos não se aplicam a ele: noções básicas como o que é ser um homem e uma máquina, a mente e o corpo, o autor e a criação são ressignificadas. Por fim, distinções entre materialidade e imateralidade são questionadas na medida em que as tecnologias atuais caminham para a ubiquidade e fluidez. O próprio ambiente virtual é um exemplo de como os aparatos tecnológicos não necessariamente precisam do material para funcionarem. Com o ciborgue não é diferente.

A partir de um olhar feminista sobre a obra, o Manifesto Ciborgue também convida as constituintes do movimento feminino a uma série de reflexões sobre suas identidades, bem como acerca das novas formas de opressão decorrentes da tecnologia. Em determinado momento, Haraway menciona que o que une as mulheres e os ciborgues é o fato ambos serem indivíduos que lutam pela sobrevivência por meio da rebelião contra o seu criador (os humanos, no caso ciborguiano, e o patriarcado, no caso das mulheres). Uma vez que a biotecnologia impõe novas relações sociais para as mulheres, é fundamental que estas analisem a si mesmas de uma nova forma, mais desmontada e remontada. Assim, da mesma maneira que o ciborgue questiona seu lugar no mundo, cabe às mulheres se questionarem sobre a naturalização de uma suposta identidade feminina e a dicotomia entre o espaço privado e público. Enquanto fala especificamente sobre o feminismo-socialista, Haraway ainda reforça que a eficácia do movimento só ocorrerá a partir de uma nova política que rearranje raça, gênero e classe na cultura high-tech.

Assim, mais do que entreter, a figura evocada por Donna Haraway nos mostra a importância do imaginário na construção de novas formas de pensar e teorizar o mundo. Como a própria autora conclui, a luta do ciborgue é por uma linguagem que não distancia, uma informática que não domina e um mundo no qual os mesmos instrumentos que nos sinalizam são por nós tomados. Diante de um contexto social em que o controle dos nossos corpos pela tecnologia se torna cada vez mais presente (e imperceptível), só nos resta concordar com as últimas palavras que finalizam o brilhante trabalho de Haraway: “prefiro ser uma ciborgue a ser uma deusa”.

Em tempo… (notícias e obras para pensar as fronteiras humano-máquina):


Referências

HARAWAY, Donna. Manifesto Ciborgue. Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. in Antropologia do Ciborgue. As vertigens do pós-humano. (org, Tomaz Tadeu). Belo Horizonte: Autêntica editora, 2000.

SIQUEIRA, H. e MEDEIROS, M. Somos todos ciborgues: aspectos sociopolíticos do desenvolvimento tecnocientífico. Revista Configurações, v. 8, p. 11–32, 2011.

5 comments

  • Andresa Pereira

    Engraçado como se torna comum pensarmos na tecnologia como um meio completamente submisso à vontade humana. Donna Haraway propõe uma nova perspectiva que, como você mesmo pontuou, foge dessas dicotomias que acabam muito mais generalizando do que realmente entendendo os processos presentes nessa nova revolução tecnológica. Se atualmente notamos claramente um grande esforço da área acadêmica na compreensão desses fenômenos, muito se deve ao pioneirismo de Haraway que, a mais três décadas atrás, já propõe uma nova perspectiva nas relações humanas com todo esse aparato tecnológico. Os aspectos de dominação são, infelizmente, facilmente neutralizados no nosso cotidiano, o que faz com que a essência do “ser mulher” seja algo ainda ainda muito mistificado e limitado dentro do senso comum. Tendo isso em vista, há na tecnologia uma grande expectativa quanto a potencialização das vozes dessas mulheres que, muitas das vezes, encontram-se dispersas e fragmentadas dentro da sociedade. O verdadeiro caminho para que essa fusão de máquina e organismo se torne algo palpável e realmente tangível na mudança estrutural da sociedade ainda é um mistério e, como em qualquer outro processo de transformação em andamento, é algo que se demanda tempo e uma constante vigilância à essas novas práticas e novas coalizões sociais.

  • Bárbara Cassiano

    Apesar de ainda não aprofundar nesse assunto, gosto muito dessa discussão. Ao contrário do que muitos pensam, eu acredito, que o ‘mundo ciborgue’ está cada vez mais próximo e mais fácil de se tornar realidade. Afinal estamos vivendo uma fase em que os ‘simples’ algoritmos de redes sociais já conseguem se reprogramar e ser readequar de acordo com determinadas situações. Se pensarmos que um simples óculos nos torna, de alguma maneira, um ciborgue podemos concluir que o ‘mundo ciborgue’ já se faz presente, principalmente por estarmos praticamente acoplados em nosso smartphones.
    Acho superinteressante a discussão que a Donna Haray traz em seu texto, principalmente pelas abordagens femininas. Apesar de ser um texto antigo acredito que são questões que ainda devem ser tratadas no cotidiano. Assim como ela, eu acredito que a web tem grande capacidade de fortalecer movimentos de cunhos sociais, mas que a maior parte dos grupos ativistas ainda não deram conta desse potencial.
    Outra coisa que me salta aos olhos no texto dela é positividade que ela tem em relação aos ciborgues. Os filmes e outras culturas imagéticas sempre nos mostraram o quanto os robôs podem ser destrutivos e malignos, seguimos acreditando nisso mesmo comprando cada vez mais tecnologia. Não acredito que o Brasil terá uma fácil de inserção de ciborgues tão cedo, mas acredito em todo potencial positivo, tanto sociológico quanto tecnológico que essa nova cultura pode nos propiciar.

  • marcelopadovani

    Acho massa como ela coloca uma visão que vai além do senso comum sobre a palavra ciborgue, acho que todo mundo imagina o robocop ou algo parecido. O próprio termo ciborgue foi utilizado pela primeira vez pra falar de um ser humano modificado pra viajar no espaço, que teria órgãos substituídos por máquinas, para conseguir sobreviver à viagem.
    Muito do que se discute acerca do ciborgue é sobre uma perda ou modificação do ser humano, da nossa subjetividade e maneira de ver o mundo, mas a Donna Haraway abraça o hibridismo do ciborgue para falar sobre dissolver outras fronteiras, aproveitando a aproximação causada entre natural e artificial, orgânico e maquínico.
    Logo no começo ela já fala que somos todos ciborgues, e que isso nos determina, ao invés de seguir um pensamento comum que nos tornamos ciborgues quando nos relacionamos muito com tecnologia, ou quando fazemos algum implante ou modificação no corpo.
    Enfim, queria conseguir entender o texto todo, acho ele bem difícil e aborda muita coisa, em cada leitura alguma coisa diferente chama a atenção.

    A imagem usada no post é de um filme chamado Ghost in the Shell, vocês já viram? É um remake de uma animação de mesmo nome, de 1995. Gosto muito dos dois, e como eles falam sobre esta questão de perda de identidade ou subjetividade na modificação corporal, pelo próprio título percebe-se essa discussão nos filmes, o fantasma na “casca”. A personagem principal do filme tem o corpo completamente substituído por partes mecânicas e eletrônicas, tirando o cérebro, e começa a questionar se ela ainda é humana. Sem mais spoilers. A animação é muito massa, mesmo pra quem não curte anime.
    Além do primeiro filme de animação, tem as séries, que terminam também com filmes, eu não gostei tanto quanto o primeiro longa mas também são legais, tem uma personagem policial chamada Haraway, claro, em homenagem à Donna Haraway. Queria saber o que ela acha de Ghost in the Shell!

  • Stephani Julia

    Texto muito esclarecedor! A princípio, ao ler o título “Manifesto Ciborgue”, imaginei que a autora trataria mais de um aspecto científico e tenológico do que social. Interessante pensar nesse alegoria do ciborgue (que ainda é uma figura inalcançada na realidade) como “criatura do mundo pós-gênero”, ainda mais em um momento em que grupos sociais e ideologias se chocam ao tentar concluir, afinal, qual a relação entre sexo biológico e identidade de gênero. Ao mesmo tempo, a noção de uma identidade fluida me parece extramente utópica, visto que as construções sociais que nos definem desde a infância são quase intrínsecas da sociedade. Outro ponto que me fez refletir bastante é o rompimento das fronteiras entre homem e máquina, pois, pelo menos em certa medida, já somos ciborgues. Com as redes sociais, por exemplo, parte da nossa identidade só existe “na nuvem”, online, numa realidade que pode ser reduzida a códigos numéricos. Seria essa uma possibilidade de existir como um ser pós-gênero? Poderemos, por meio da tecnologia, nos libertar das amarras sociais? Me pergunto como a teórica enxerga o mundo hoje, mais de trinta anos após a publicação de seu manifesto. Se o objetivo da sua postagem era colocar uma pulga atrás da orelha, conseguiu!

  • Luiza Martins

    Ótima analogia entre o ciborgue e a mulher na contemporaneidade (ou quem sabe, sempre?). É interessante pensar como as lutas feministas se encaixam nessa relação tecnológica dos ciborgues em que constantemente há um desmonte, destruição e redefinição e novas construções acerca do que é ser mulher e de como viver sendo mulher. Aliás, como citado, é fascinante e preocupante como os instrumentos tecnológicos podem ao mesmo tempo nos fazer poderosos e invencíveis, como também se tornarem elementos de discriminação de gênero e opressão. Como exemplo, não posso deixar de lembrar das bonecas sexuais que são amplamente comercializadas para “imitar” mulheres no ato sexual. É chocante a quantidade de tecnologia desenvolvida para que a experiência se torne “real e prazerosa” para os consumidores.
    Embarcando adentro do universo da ciência e tecnologia, por consequência, dos ciborgues, fico a imaginar como o celular já é parte do ser humano. A distinção entre humano e máquina pode parecer forte para muitos, contudo, o celular já é como um membro, um braço a mais do homem e da mulher. Daí, penso em como seria a nossa amputação desse membro, quase uma mutilação de nós. Essa narrativa possibilita algumas conjecturas sobre o futuro, sobre o que incluiremos em todo nosso corpo: bugigangas tecnológicas que personifiquem o que somos.

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