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Onde se ensina o valor da terra

Na Escola Família Agrícola Vida Comunitária, o despertador toca às 6h40. Às 7h, todas as alunas e alunos devem estar de pé para iniciarem a limpeza da escola, inclusive da horta e dos animais. Entre 8h20 e 8h40, tomam o café da manhã e seguem para a sala de aula. Às 11h10, almoçam e podem descansar até 12h30, quando devem retornar às suas respectivas aulas. Uma pausa para o lanche entre 15h e 15h20, e os estudos continuam até às 17h. Tocou o sinal e é a hora do tempo livre. As crianças e jovens ocupam a quadra de futebol, o pátio, vão para seus dormitórios, enfim, cada um se decide.  Às 19h, seguem para a última refeição do dia. Às 20h, para última atividade, o Serão, momento de falar sobre temas que não são trabalhados em sala de aula: meio ambiente, humanidades, convivência, cada dia um tema diferente. A conversa termina às 21h30. É dado um prazo de meia hora para que todas as crianças e jovens estejam em seus dormitórios, em silêncio total.

A rotina foi implementada há 13 anos na zona rural da cidade de Comercinho, interior de Minas Gerais, no Vale do Jequitinhonha. Antes disso,  os jovens da região estudavam perto de casa até a quinta série. Depois, só aqueles que tinham condição conseguiam ir até a escola que ficava na cidade, e precisavam pegar um ônibus às quatro horas da manhã para chegar na hora. “Quando eu vi a dificuldade que era pra eles estudar lá, eu via as dificuldade das famílias que nem aquilo não conseguia, e os meninos não tinha como estudar”, foi quando Dona Lia – na identidade, Maria Rodrigues Teixeira – batalhou para trazer, para perto de sua casa, a experiência da rede de Escolas Famílias Agrícolas, as Efa’s.

 

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Dona Lia era membra do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Comercinho e em 1999 viajou 687 km acompanhando um grupo de jovens da região em uma atividade de reconhecimento e experimentação de práticas educativas na Zona da Mata de Minas. Lá conheceu a Escola Família Agrícola Serra do Brigadeiro, na cidade de Ervália. A prática era exatamente o que Dona Lia buscava. “Pra mim, eu achava que aquela escola era ideal pro pessoal daqui, pro trabalhador rural, pros filhos dos trabalhadores rural. Porque tinha uma pedagogia diferente. E quando eu vi aquilo, eu pensei ‘vai dar certo aqui, a Efa vai ajudar no desenvolvimento dessas famílias. E também vai ajudar a fazer com que as pessoas aprendam a viver aqui, viver na terra, cuidar da terra, sem ser preciso sair daqui, migrando lá pra fora.’ Foi um desejo por causa da pedagogia da escola.”

Com a chamada Pedagogia da Alternância, os alunos ficam 15 dias na escola e 15 dias em casa. No período que estão em casa, repassam para a família e para a comunidade aquilo que estão aprendendo. Quando voltam, apresentam um relatório sobre as atividades e dificuldades do cotidiano da roça. O objetivo é mostrar aos jovens o valor da terra e a importância de permanecerem naquele espaço, e ajudar as famílias a continuarem desenvolvendo a subsistência.

Dona Lia voltou da viagem desassossegada. Estudou sobre as Efa’s, pegou o material que explicava a pedagogia da escola e saiu apresentando para moradores e comunidades ao redor. Povo reunido e mobilizado para a criação do espaço, era preciso partir para a burocracia. Com ajuda da Associação Mineira das Escolas Famílias Agrícolas (Amefa) ela criou e presidiu a Associação Escola Família Agrícola Vida Comunitária de Comercinho. Agora, precisava da ajuda da prefeitura para encontrar um espaço e iniciar as atividades. “Aí foi quando a gente conversou com o prefeito. Ele já tinha um projeto pra construir uma escola lá no chá. E aí foi fácil, o prefeito remanejou o projeto de construir essa escola lá no chá, e acabou fazendo essas construções aqui”.

Parecia fácil, mas era ano de eleição e aquele prefeito perdeu o mandato. O novo não aceitou a construção da escola e as ações voltaram à estaca zero, o lugar cedido pelo prefeito anterior não pôde ser ocupado. Mas Dona Lia insistiu nas reuniões e toda vez que ia à prefeitura não ia só, enchia um ônibus de jovens, pais e professores para que houvessem testemunhas e pressionassem a decisão. “Um dia a gente fez uns mutirões para limpar o espaço abandonado. Isso passou na TV Alterosa e o Vale do Jequitinhonha inteiro viu aquilo. A gente chamou a superintendencia e ele [o prefeito] cedeu o refeitório, alguns banheiros e o dormitório. Ele tirou quatro salas pra ele e cedeu pra nós duas salas”. Em abril de 2002, a Efa realizou sua aula inaugural.

 

Ouça Marta Rodrigues Teixeira, ex aluna da Efa, e Maria Rodrigues Teixeira, atual aluna da Efa.


 

Marta Rodrigues Teixeira é a única filha de Dona Lia. Na rotina da Escola Família Agrícola Vida Comunitária, é a primeira a acordar e uma das últimas a ir dormir. Desde 2009 ela está na diretoria da escola e cuida, neste ano, de 84 crianças e jovens da cidade de Comercinho e região. No ano passado, eram 104. “Não adianta a gente encher a escola de estudante que não adapta com o projeto, que não veste a camisa da escola. Porque o que importa pra gente não é quantidade, mas qualidade nos estudantes que a gente tem”.

Hoje, os alunos do 6º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio estudam todas as disciplina da base nacional comum, além das disciplinas da área técnica: zootecnia, agricultura, administração, construções, desenho e empreendedorismo. Na roça da escola, cultivam mandioca, feijão, batata, maracujá, abacaxi e as hortaliças. Por ser chapada, não é possível produzir todas as culturas. A escola é considerada particular, cada aluno do ensino médio contribui com R$ 12 mensais, e os do ensino fundamental, com R$ 8.

Comparada à dificuldade de alguns anos atrás, a Escola Família Agrícola Vida Comunitária já desenvolveu muito e produziu frutos. “Nós temos estudantes que são monitores aqui na Efa hoje. E a gente consegue ver que na propriedade das famílias, aqueles estudantes tão desenvolvendo atividades lá”. Segundo a União Nacional das Escolas Famílias Agrícolas do Brasil (Unefab), 65% dos jovens formados, em todo o Brasil, permanecem no meio rural, desenvolvendo seu empreendimento junto às suas famílias ou exercendo outras profissões e lideranças.

Equipe

Carolina Resende 

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