Os mentats da era moderna

Os ciborgues estão vindo. Pensando em toda a cultura humana como algo pretensioso a elevar o espírito humano à condição de deus, resgatando todo meu passado de diversas ficções científicas e me espelhando no artigo de Donna J. Haraway a pretensão é mostrar como não só os ciborgues são o futuro, o presente e o passado, como a nossa raça está limitada à existência por nossas próprias aspirações divinas. O futuro se vê encadeado pelas ações antrópicas de nossa pretensiosidade e o movimento ambicioso darwinista culmina na aniquilação de nossos passos, restando o passado e a poeira.

Do passado ao presente, as ficções preveem um futuro distópico que a humanidade constrói. De exemplos como o mundo pouco admirável em Admirável Mundo Novo (1932) em que Audus Huxley nos conta, na visão de John o Selvagem,  sobre a vida humana maquinária e sem propósito, os contos asimovianos de Eu Robô (1950), que apresentam as máquinas servis aos humanos fora de sua pretensão de escravos mecânicos da carne; as diferentes distopias previstas por Philip K. Dick, em diferentes contos de Realidades Adaptadas (1956), que nos apresenta as diferenças sociais trazidas pela simbiótica aliança humano-máquina; e o ser humano cibernético de William Gibson, que tem o controle das redes através de seu próprio corpo em Neuromancer (1984). Essas ficções demonstram os consequências temíveis ao se associar a tecnologia à biologia. Como as que Donna Haraway diz temer em seu artigo O manifesto ciborgue, uma vez que os ciborgues não têm qualquer amarra ou responsabilidade com o passado, criando o novo sobre os alicerces das vidas passadas e deixando a breve história humana biológica para deterioração do Tempo.

É evidente que nem toda evolução resulta numa realidade distópica, há casos e casos de convergência humano-máquina e eles estão presentes em nossos tempos para demonstrar isso. Tal qual o implante coclear nascido entre as décadas de 80 e 90, o aparelho eletrônico que possibilita pessoas com alguma deficiência auditiva o resgate sensorial do som; os membros controlados por sensores, que podem devolver a mobilidade às pessoas com alguma deficiência de locomoção; os olhos biônicos que ainda são desenvolvidos lentamente pela dificuldade de adaptação dos implantes aos nervos ópticos, porém sua evolução gradativa devolve alguns traços de visão às pessoas com certos tipos de deficiência visual; a bomba cardíaca, que virá a substituir os marca-passos e corações com algum nível de falência, atuando como um impulsionador de sangue para o organismo… Chegando à nanorrobótica, com suas pequenas unidades cibernéticas que agiriam dentro do corpo orgânico, monitorando e controlando eventuais problemas, e à adaptação e armazenamento informacional em DNA, que poderia trazer avanços sobre as estruturas do corpo humano, erradicando doenças e evoluindo as qualidades de vida e aprendizado.  

A dicotomia da evolução tecnológica está no seu uso. É perceptível para qualquer pessoa minimamente informada a respeito que as altas tecnologias estão aplicadas no campo militar, percorrendo um longo percurso de usos e pesquisas até chegar aos usos civis. Porém, outra barreira que tais tecnologias encontram para a elevação moral da humanidade são as sociais, já que são muitas vezes inacessíveis à maior parte da população que depende de uma longa espera até seu barateamento e acesso.

Os propósitos apresentados pela evolução em nosso planeta estão sempre ligados aos surgimento de algo mais próspero e adaptado às condições de existência. Os ciborgues já estão presentes em nossa sociedade, àqueles que têm acesso, em diferentes graus. As ficções apontam para um lado, não só como aviso, mas como previsões sobre o descontrole das atividades tecnológicas da humanidade. Apoiando Haraway, existe ainda algo nebuloso nesses avanços da tecnologia, algo que mudaria o equilíbrio do mundo de forma irreversível e que ainda se faz necessária constante observação e controle sobre as condições em que atuaria.   

 

HARAWAY, Donna. Manifesto ciborgue: Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no século XX. In: Org. TADEU, Tomaz. Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. 2. Ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.

Istoé. Coração biônico. Disponível em:  https://istoe.com.br/410194_CORACAO+BIONICO/. Acesso em 30 de novembro de 2017.

Nanomedicina. Nano-robótica. Disponível em: http://nanomedicina.webnode.pt/nanotecnologia-e-medicina/nanorobotica/. Acesso em 30 de novembro de 2017.

Tecmundo. Olhos biônicos estão mais perto de nos transformar em super-humanos. Disponível em: https://www.tecmundo.com.br/ciencia/111999-olhos-bionicos-mais-perto-transformar-super-humanos.htm. Acesso em 30 de novembro de 2017.

Tecnoblog. Esta perna biônica pode ser controlada com o cérebro. Disponível em: https://tecnoblog.net/178497/perna-bionica-cerebro/. Acesso em 30 de novembro de 2017.   

 

2 comments

  • Samuel Vieira

    Esse é, de longe, o texto mais assustador de todos já postados. A frase inicial já me remeteu a uma frase marcante da história da humanidade: “the red capes are coming”, frase proferida pelo mensageiro Paul Revere quando este avistou os navios ingleses se aproximando na costa de Boston. A partir dali, começaria a Guerra de Independência dos EUA. Foi da guerra que nasceu o Estado mais forte de todos os tempos. O conflito deu a luz à essa potência. E acredito fielmente que a chegada do ciborgue será, também, recheada de conflitos. Poucos vão ter acesso às melhorias que serão propostas pelos inventores. A sociedade ficará ainda mais fragmentada. Revoltas surgem no horizonte. Mas talvez dê tudo certo. Um filme que, de certa maneira, me faz olhar para o futuro com alguma esperança é a animação “Ghost in the Shell- o Fantasma do Futuro”, do diretor Mamoru Oshii. Nele, a união entre máquinas e humanos ocorre de uma forma que promete um final feliz para ambos. No final do filme, a personagem principal, “Major”, confronta com o vilão do filme até aquele momento, “Mestre das Marionetes”, e este propõe que os dois se unam. É quase como uma dialética hegeliana, na qual os dois lados formam uma coisa só. O progresso, de acordo com o filme, só acontecerá se os dois lados se unirem depois dos conflitos. A evolução humana perpassa pela evolução da máquina. Só espero que consigamos fazer uma transição não muito sangrenta e horrível do humano para o pós-humano. Por mais assustador que possa aparentar, vai dar tudo certo. Pelo menos é assim que eu gosto de pensar.

  • marcelopadovani

    Quando ví o título da matéria lembrei dos mentats do jogo Fallout, que são drogas para aumentar os atributos de inteligência e percepção, que geram algumas vantagens no jogo. Tem também os personagens dos livros Duna ne, ai fiquei em dúvida, mas de qualquer maneira, achei legal como qualquer um deles encaixa.
    Na a próxima aula, último seminário da disciplina, eu e o Arthur vamos falar de algumas coisas que você fala no texto, como nanotecnologia e próteses. No documentário indicado para o seminário fala-se muito sobre a chamada singularidade, que segundo Raymond Kurzweil, o maior defensor e quase um profeta da singularidade, é o momento em que o conhecimento vai começar a ser produzido e aplicado de maneira tão rápida que um humano sem modificações não vai mais conseguir acompanhar. Ele é muito criticado, e no documentário dá para ver que ele é muito otimista em relação a este acontecimento. Acho legal, como você fez no texto, avaliar os dois lados da moeda, sem abraçar as possibilidades ignorando possíveis problemas.
    Tem mais coisas interessantes sobre a singularidade, que acho que vai ser legal pra dar continuidade às discussões das últimas aulas mas vo deixar pro dia de apresentação.
    Tem um filme que eu gosto muito que fala sobre uma questão que você toca no seu texto, a de acesso à tecnologia por pessoas mais ricas, e como isso pode levar à desigualdades extremas. O filme chama Gattaca, e é sobre um futuro onde ao nascer é possível saber várias informações da pessoa através da genética, sobre inteligência e saúde, inclusive a data da morte. Neste tempo poucas pessoas têm filhos que nascem biologicamente, não planejados geneticamente para superação de doença e otimizações em geral. Dessa maneira, as pessoas biológicas são praticamente inválidas na sociedade, e as mais ricas, com acesso a melhores geneticistas, têm filhos mais capazes que ocupam os lugares mais altos da sociedade. É bem massa o filme, vale a pena ver.

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