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Peregrinos diários

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Dezoito horas e o som do fim do expediente se torna conhecido. Buzinas, o rosnado dos motores ligados em carros parados, estáticos. Nos ônibus e nos trens do metrô o espaço permite nenhum movimento, o ar pesado e o calor aumenta a claustrofobia, corpos se espremem tentado provar errada a lei da física que diz “dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço”. Nada se move, veículo ou indivíduo, exceto por um grupo, uma resistência que insiste em realizar as suas peregrinações à pé. Na era do motor, o pedestre é pouco visado na formulação das questões (e soluções) do trânsito de uma metrópole. Motoristas o percebem como um “obstáculo”. Em meio a reivindicações como o BRT, o Metrô ou o Monotrilho, melhorias na infraestrutura para o pedestre se tornam mais raras. O que move, então, aquele que escolhe se mover com a força das próprias pernas? O que faz o pedestre continuar caminhando contra as adversidades?

O pedestre belo-horizontino é uma figura múltipla, e suas demandas e vivências cotidianas diferem bastante. Enquanto alguns fazem pequenos trajetos em seu próprio bairro, outros cruzam distâncias amplas na cidade. Enquanto alguns possuem segurança e infraestrutura em todo o seu caminho, outros sentem com mais intensidade os efeitos da negligência em relação ao pedestre. Esse grupo compartilha, porém, algumas características, desejos e preocupações.

O que os move

Eduardo Monteiro, jovem crítico de cinema e blogueiro, já transformou as longas caminhadas para compromissos de trabalho e lazer em parte do seu dia-a-dia. Sobre a motivação para essa vida de pedestre, Eduardo apresenta um interessante panorama: “Os motivos primordiais são economia de dinheiro e combate ao sedentarismo, mas fugir do estresse do trânsito de cidade grande, ajudar a diminuir o número de veículos nas ruas e até mesmo chegar mais rapidamente ao destino”. Isso mesmo – a velocidade, tão associada aos carros e meios de transporte motorizados, está entre as razões apresentadas pelo caminhante. Eduardo afirma que dessa maneira é possível “administrar melhor o tempo de percurso, já que atrasos em trajetos à pé são raros”.

Outros pedestres são mais práticos, pragmáticos, na razão de sua caminhada. O advogado Renato Duro equilibra a rotina de escritório, todos os dias, com uma caminhada de ida e volta ao trabalho. Seu percurso engloba mais de um bairro e dura mais de 20 minutos. O motivo é simples: ”Faço esse trajeto à pé em função das dificuldades/custos de estacionamento no local de trabalho”. Os desafios do trânsito belo-horizontino criam, a cada momento, mais pedestres.

Pisando em ovos

O pedestre é aquele que não tem, no seu entorno, a proteção de vidro e metal que é o corpo de um veículo. Ele não pode, em uma situação de perigo, levantar os vidros e trancar as portas.

A segurança se transforma, então, em uma grande preocupação. Todos os entrevistados afirmaram, com pouca variação na frase, que não fariam seus caminhos diários no período noturno, ou que, quando o fazem, não se sentem seguros. Renato, que afirma já ter presenciado assaltos, brigas e uso de drogas em sua caminhada diária, vai além e diz: “Eu não me sentiria seguro de deixar minha filha ou esposa fazerem esse trajeto, por exemplo.”

Os problemas do pedestre se transformam em stress, que se acumula diariamente e pode gerar conflitos com motoristas e companheiros de caminhada. Eduardo relata um desses duelos, infelizmente, comuns: “Certa vez, aguardava tranquilamente na calçada o sinal de pedestre autorizar minha travessia em um local movimentado do bairro Funcionários quando um carro demonstrou a intenção de utilizar a rampa de pedestre para subir com o veículo na calçada – justamente no local em que eu estava posicionado. Contrariando as expectativas do motorista, permaneci imóvel no local, por uma razão simples: o que ele pretendia fazer era proibidíssimo e eu, no meu direito como pedestre, não era obrigado a compactuar com aquilo. O cidadão, entretanto, estava decidido a cometer a infração e, mesmo tentando se esquivar do obstáculo que eu representava, eventualmente acelerou para concluir a manobra, esbarrando o retrovisor violentamente em mim.”

O que o pedestre vê?

Não é só o confiante nativo de Belo Horizonte, acostumado com as ruas da metrópole, que escolhe caminhar. O estudante Alexandre Rabelo já começa seu relato dizendo: “Sou bem observador quando estou andando pela cidade. Como vim de uma cidade menor, de início me espantava a quantidade de pessoas e a velocidade que normalmente andam.” Alexandre diz caminhar porque a atividade lhe descansa a mente, e o faz, normalmente, enquanto escuta suas músicas favoritas em um dispositivo portátil e observa a cidade. No caminho, repara em prédios, casas, estabelecimentos comerciais, espaços urbanos e revela uma predileção por uma atividade: “Acabo olhando bastante o comportamento das pessoas.

Em movimento e com trajeto livre, o pedestre tem uma posição privilegiada para observar também os problemas da cidade. Alexandre o faz, e diz, sobre o que vê: “o principal desafio é o estado das calçadas mesmo. Não só por conta dos buracos, mas por muitos trechos não existir nem mesmo uma via para pedestres. Outro grande problema é a iluminação em certos trechos,como por exemplo no final da Av. Antônio Carlos, ao lado da lago da Pampulha, como se fosse para a Av. Dom Pedro I, ali, você não consegue enxergar onde está pisando!

Alexandre deixa, ainda, o recado: “São esses os principais aspectos que o governo deveria estar mais atento.

Passos curtos

O governo de Belo Horizonte não está, porém, completamente parado em relação às tais demandas dos pedestres da cidade. Em 2011 foi aprovado pela Câmera Municipal o Estatuto do Pedestre, previsto no Projeto de Lei 1167/10.

De acordo com a lei, toda obra feita em Belo Horizonte deverá priorizar a locomoção de quem anda a pé, contrariando a constante priorização do motorista. A lei ainda vai além, e propõe melhorias ambiciosas como a criação de “Oásis do Pedestre”, espaços exclusivos para caminhadas, abrigos contra a chuva e o sol forte e a instalação de banheiros públicos. Essas melhorias ainda não são observadas em larga escala pelas ruas de Belo Horizonte.

A legislação direcionada ao pedestre ainda tem um longo caminho pela frente, e não só requer mais artigos escritos e aprovados – requer a ação prática, a concretização em larga escala das leis já aprovadas. Enquanto isso, os pedestres não vão reduzir sua marcha diária.

Como já diria o gasto slogan, “continue caminhando“.

O Estatuto do Pedestre | Create infographics

Reportagem

Ana Clara Matta

Etapas desta publicação

Proposta
Desenvolvimento

7 comments

  • Marina Dayrell

    Olá Ana, gostei bastante do modo como você dispôs as informações na sua reportagem. Os títulos estão ótimos e ajudaram muito na condução da matéria. Com essa estruturação, aliada ao infográfico, deu pra distribuir bem as informações, sem desgastar o leitor. A inserção das fontes também foi bem colocada e acredito que eles tenham assumido um lugar de personagem mais leve e narrativo para a matéria. Adorei o estilo de escrita, principalmente no primeiro parágrafo, que nos provoca a sensação de presenciar o que você conta. Como recomendação, acho que você poderia inserir algumas fotos dos lugares mais problemáticos, como mencionado pelos entrevistados ou algo nessa linha.

  • Terezinha Silva

    Boa reportagem, Ana Clara.
    Sugestões: quando fala no estatuto do pedestre municipal, é bom investigar, mas acho que ele é uma necessidade imposta por legislação nacional. Nesta parte do contraste entre o que prevê o estatuto e o que se vê na prática, é bom você colocar um link para as outras duas reportagens produzidas pelos colegas e relacionadas a pedestres – “mal das pernas” e “(Des) abrigo” -, pois ajudam a reforçar a argumentação de sua reportagem.
    Poderia também explorar o hipertexto, abrindo um link/nova página no intertítulo “O que o pedestre vê?”, para evitar muita barra de rolagem.

  • kellycardoso
    kellycardoso

    Ei Ana Clara! Ficou muito bacana a reportagem. Gostei da abertura do texto, a descrição e as perguntas atraem o leitor para continuar lendo.
    Como já foi mencionado aqui nos comentários, o seu estilo de escrita é muito bom. Pois, apesar de ser um tema sério, ficou com um tom informal e de conversa com o leitor. O modo como você introduziu os depoimentos foi bem trabalhado também.
    Não sei se é só aqui, mas quando passo o mouse no infográfico o título some e aparecem algumas caixas de “coluna 1”, “coluna 2”. Dê uma olhada nisso!
    No mais, parabéns pelo trabalho!

  • Laura Ribeiro

    Ei Ana, seu texto ficou muuuito bom, adorei os mini-perfis e sua maneira de escrever. A opção por deixar os nomes em negrito também deu uma valorizada na composição da matéria. Aqui o infográfico também deu uma mudada quando coloquei o mouse sobre o título, mas fora isso, impecável.

  • Natalia Ferraz

    Olá, Ana Clara!
    Gostei muito sua reportagem. O texto é bem escrito, envolvente e as transições de assunto se dão de forma bem sutil.
    Como os personagens são recorrentes, senti falta de fotografias deles nesses trajetos. Entretanto, sei que colocar três fotografias nesse formato deixaria a postagem realmente muito grande. Uma opção seria dividir a matéria em mais de uma página.
    Gostei da comparação feita no infográfico, mas aqui também aconteceram os problemas já citados.
    A única alteração que eu faria é no uso do itálico para as citações. Acho que funciona bem em falas pequenas, mas em trechos maiores dificultou um pouco minha leitura (o horário ajuda haha).
    Parabéns!

  • melissagomes

    Gostei bastante dos subtítulos e do enfoque despojado da matéria. A linguagem utilizada é bastante acessível e agradável. A utilização de perguntas e das citações possibilita interação com o leitor. Acredito que o formato da reportagem é adequado para revista. No entanto, como você fala em “pedestres” de forma geral durante todo o texto, e não considerando apenas uma amostra deles, acredito que seria interessante encaixar um infográfico em algum dos subtítulos, como no “o que os move”. Muito provavelmente exista alguma pesquisa disponível a respeito e isso daria ao leitor um panorama da situação dos pedestres de fato. Dessa forma, você deixaria de falar da parte pelo todo (leia-se: incluindo alguma pesquisa que contemple uma grande amostra de pedestres).
    Muito bom trabalho =)

  • victorlambertucci

    Ana, gostei do texto, muito bem escrito! Está muito bacana seu trabalho, vou deixar só uma sugestão. Ao ler você contando do barulho das buzinas, do rosnado dos motores, sinto falta de ouvi-los. Já que a ideia é fazer uma matéria multi-mídia, penso que seria muito bacana se você conseguisse registrar algumas imagens com som e vídeo, ou mesmo apresentar uma apresentação de slides das fotos que você tem com as marcas sonoras dos locais que você descreve. Iria enriquecer muito o seu texto e fazer com que o leitor construa na cabeça dele o cenário que você descreve. Parabéns pelo trabalho!

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