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Razões para caminhar

Em uma grande capital como Belo Horizonte, onde as distâncias e o trânsito complicado são um desafio para o transporte público, caminhar é uma alternativa de deslocamento. No entanto, essa não é a única razão que faz com que alguém deixe o volante. Convicções pessoais, imprevistos e medo dirigir são alguns dos motivos que fazem com que pessoas se assumam como pedestres e vivenciem a cidade sob uma perspectiva bastante particular.

São sete da noite e encerra-se mais um dia de trabalho para o farmacêutico Leandro Pereira. Desta vez, no entanto, ele não irá para casa de carro como faz habitualmente. Há uma semana a lateral do seu Sandero foi destruída por um ônibus na Avenida dos Andradas e pelos próximos vinte dias, até que o carro saia da oficina mecânica, Leandro está a pé. A situação o obrigou a aprender trajetos novos e observar com mais atenção como a cidade se organiza para aqueles que não têm carro. “Estou gostando do metrô. Como moro no Nova Suíça, vou da Estação Calafate até Santa Efigênia e caminho mais ou menos quinze minutos até o trabalho. Descobri que os meus horários coincidem com o metrô vazio e a caminhada diária me faz bem.”

Enquanto Leandro vive uma situação provisória e acidental, há quem faça a escolha consciente por transitar pela cidade na condição de pedestre. É esse o caso dos advogados Luzia Carvalho e Josué Lacerda, que decidiram que um automóvel não é prioridade e que viver a cidade com as próprias pernas é possível. Há cinco anos, Luzia comprou um apartamento próximo ao trabalho com a intenção de não perder tempo no trânsito e ganhar qualidade de vida. Antes, morando no Bairro Estoril e trabalhando na zona Sul, Luzia gastava cerca de quarenta minutos para ir dirigindo de casa ao trabalho. Se a escolha fosse o ônibus, ela gastava mais de uma hora para fazer o mesmo trajeto. O investimento no novo apartamento trouxe o retorno esperado e agora o automóvel só é usado aos finais de semana para levá-la até o sítio da família em Betim. Hoje, Luzia encontra-se em condições de se aposentar e necessidade de estar perto do trabalho logo não existirá mais, no entanto ela não se arrepende da mudança de endereço e destaca que outros aspectos da vida foram facilitados. “Faço praticamente tudo a pé. Desde que me mudei ficou mais fácil ir ao médico, à academia e à aula de artes. Como estou perto do centro e da área hospitalar, costumo receber parentes em casa para que eles consigam resolver certas coisas com mais facilidade.”

Em situação semelhante à de Luzia, mas ainda no início da carreira profissional, o jovem advogado Josué Lacerda prefere investir em estudos a gastar com gasolina. “A minha prioridade é investir em educação. Há um ano tive de escolher entre comprar um carro e fazer uma pós-graduação; o custo dos dois era o mesmo e fiquei com a opção pelos estudos. Acredito que fiz a escolha que me dará mais retorno no médio prazo.” Diariamente, ele vai do Bairro Sagrada Família, onde mora, para qualquer parte da cidade usando o transporte público e, principalmente, a sola dos sapatos. Josué escolheu não fazer o teste para habilitar-se como motorista e problematiza que há uma pressão social para que as pessoas tenham carro, ao que ele prefere resistir.

Além das contingências e das escolhas, o medo dirigir também é motivo importante que faz com que pessoas se assumam como pedestres. A servidora pública Fátima Souza tem carro na garagem, mas só arrisca dirigir bem perto de casa. Para dar conta de seus compromissos e ir trabalhar ela combina o uso do metrô com a caminhada. Recentemente ela se matriculou em uma autoescola especializada em orientar pessoas com dificuldades e diz que está fazendo um esforço. Ao contrário de Fátima, que está tentando superar sua difícil relação com o volante, a bióloga Ilka Altoé guarda a carteira de motorista em casa e resume que não gosta de dirigir. Todos os dias, para ir do bairro Heliópolis até a Cidade Administrativa, Ilka intercala caminhada e metrô, ou, quando é possível, pega carona com os colegas do trabalho. Entre dirigir e ter de ir a pé, a bióloga não hesita: prefere ir andando.

Ilka e Fátima caminham porque a direção não lhes dá gosto; Luzia e Josué se conduzem pelo caminho de suas convicções e Leandro pisa a cidade só enquanto o carro está na oficina. Assim como eles, outros belo-horizontinos colecionam razões para se assumirem como pedestres em Belo Horizonte, compondo a paisagem urbana com a vida que se move. E essas diferentes motivações descortinam uma cidade que não se destina apenas aos automóveis e evidencia que o planejamento urbano deve ser, acima de tudo, inclusivo.

Reportagem

Karina Froés

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