#RedeFace ZiNas: O Facebook no desenvolvimento de publicações independentes

Por Mariana Gonzaga

 

INTRODUÇÃO

Este trabalho objetiva analisar as interações no Facebook que se dão entre a página ZiNas  e outras páginas, por meio de sua rede de curtidas ou likes. ZiNas é um coletivo de mulheres artistas, que produzem zines (revistas publicadas de modo independente) de caráter feminista e underground (mais informações na proposta do trabalho). Espera-se encontrar uma rede que compreenda, em especial, quatro universos: o feminino, o político, o artístico e o de publicações em geral.

Utilizou-se o aplicativo Netvizz, no dia 29 de abril de 2015, para extrair dados relativos a “page like network”. Obteve-se uma rede com 932 nós (páginas) e 7449 arestas (interações). Com o auxílio do software Gephi, foram produzidas visualizações da rede, com o Layout Force Atlas 2. Devido a algumas limitações percebidas na utilização de outros parâmetros, será feita uma análise mais extensa de gráficos feitos com distribuição de tamanho (de 2 a 50) dos nós de acordo com InDegree.

 

ANÁLISE

Inicialmente, as páginas foram separadas em grupos de acordo com suas categorias no Facebook, gerando o  seguinte gráfico:

category

Gráfico produzido no Gephi: Layout Force Atlas 2, Category, distribuição de tamanho (de 2 a 50) dos nós de acordo com InDegree.

Foi possível observar que as categorias predominantes foram Comunidade, Artista, Revista e Editora, o que se encaixa perfeitamente no contexto das publicações independentes em que o coletivo ZiNas está inserido. Percebe-se uma enorme variedade de categorias, o que também não é surpreendente, considerando-se que cada publicação é focada em um assunto diferente, e esses assuntos podem variar imensamente. Isso é perceptível no pie chart a seguir. Sua legenda pode ser aumentada clicando na figura.

category tabela total - Copy

Legenda do Pie Chart – Categorias

category pie chart

Pie Chart – Categorias

O software possui uma opção denominada Modularity Class, que divide o gráfico em grupos, de cores diferentes. A tentativa, aqui, é entender o que caracteriza cada um desses grupos (figura abaixo).

zinas - visualização

Gráfico produzido no Gephi: Layout Force Atlas 2, Modularity Class, distribuição de tamanho (de 2 a 50) dos nós de acordo com InDegree.

O coletivo ZiNas é composto pelas 7 seguintes artistas: Ana, só AnaAnna Bolenna – A perturbada da corte (Bianca)Carol Rosseti, Day Lima, Desalineada (Aline Lemos), Meu quarteliê (Carolita) e Priscapaes. Todas elas estão conectadas à página ZiNas. É possível, com o auxílio do software, observar cada um dos nós separadamente ou junto a seus vizinhos. No pano fundo da imagem, permanece a rede de likes completa. Cada uma das integrantes foi localizada na rede, como mostrado na imagem a seguir.

zinas vizinhos

Em destaque, as interações diretas com a página ZiNas (opção “mostrar vizinhos” selecionada).

zinas

Destaque para as integrantes do coletivo ZiNas: Ana, só Ana, Anna Bolenna – A perturbada da corte , Carol Rosseti, Day Lima, Desalineada, Meu quarteliê e Priscapaes.

 

BELO HORIZONTE

Cabe ressaltar aqui que a maioria das integrantes do coletivo ZiNas vive em Belo Horizonte, e isso motivou a existência de uma parte do gráfico com várias páginas da cidade.

A comunidade composta pelos nós roxos, que compreende as páginas ZiNas, Day Lima, Meu quarteliê e Priscapaes, mostra-se um pouco distante das outras, o que indica uma menor modularidade, ou seja, uma menor conexão com a rede como um todo. Podem ser vistos ali alguns artistas, mas também bares, locais e outras páginas aparentemente sem relação alguma com os temas trabalhados ao longo da análise. Uma observação mais próxima motivou a suposição de essa comunidade ser formada por ligações de amizade, considerando algo em comum entre a maioria das páginas: o fato de serem belorizontinas.

No caso da comunidade em amarelo, observa-se algo semelhante, pois ela gira claramente em torno de Carol Rosseti, designer que faz parte do coletivo, e há certo distanciamento entre este e os outros grupos. São observados nós relativos a design, como Agência Protótypos Design Gráfico e Café com Chocolate Design, mas também alguns muito fora da rede, como uma pizarria (Santa Pizza BH) e um bar (Lanikai Tiki Bar). Nas imagens a seguir são destacadas algumas das páginas dessa comunidade que são de Belo Horizonte.

carol rosseti

Em destaque, as interações diretas com a página Carol Rosseti (opção “mostrar vizinhos” selecionada).

comunidadeamarela

Em destaque, páginas de Belo Horizonte da comunidade de cor amarela: Agência Prototypos Design Gráfico, Café com Chocolate Design, Lanikai Tiki Bar e Santa Pizza BH.

 

MULHERES E ARTE

A maior parte das integrantes do coletivo se conheceu online, e essa ligação é clara no gráfico. O fato das 7 artistas serem mulheres é notável, observando-se na rede uma forte presença de páginas ligadas a temáticas femininas. Não é notada somente a presença de zines, como xereca, Lovelove6 e Zine XXX, mas também de diversas outras formas de produção artística, desde quadrinhos (Lady’s Comics e Mulheres nos Quadrinhos, por exemplo) a grafite (Grafites feministas). Há também páginas dedicadas à arte em geral, como Feminart e Arte das Mina.

arteequadrinhos

Em destaque, páginas relacionadas a artistas mulheres: quadrinhos (Mulheres nos Quadrinhos e Lady’s Comics) e arte em geral (Arte das Mina e Feminart).

zines

Em destaque, páginas de zines com temáticas femininas: Zine XXX, xereca e Lovelove6.

Os zines são representados por diversas cores e são encontrados em várias partes do gráfico, já que cada um tem seus interesses específicos, muitas vezes bem diferentes entre si, mas a maioria das páginas feitas por mulheres e/ou para mulheres, especialmente criadas por artistas, concentram-se principalmente na parte verde, à direita do gráfico.

Um zine que chama a atenção, em especial, é Lovelove6, representado por um nó grande, devido ao seu alto grau de entrada. Foi criada uma comunidade azul-claro em torno desse nó. Observando atentamente, percebe-se que há baixa reciprocidade de curtidas entre as páginas, o que faz com que fiquem dispersas na rede. Aumentando o grau de modularidade, a comunidade desaparece e Lovelove6 é integrado ao grupo verde, analisado anteriormente.

 

POLÍTICA

As integrantes do coletivo ZiNas e várias das artistas encontradas na rede atuam na exposição e discussão de questões políticas, em especial causas ligadas à mulher. Naturalmente, as conexões no Facebook refletem isso, considerando que a rede social é uma grande aliada na livre divulgação e expressão de opiniões políticas. Assim, destacam-se na parte vermelha do gráfico questões como feminismo, o movimento negro feminino e a legalização do aborto – um dos zines publicados pelas ZiNas, inclusive, tem o nome Aborto e defende a sua descriminalização. A maioria dessas páginas encontra-se na parte superior esquerda do gráfico, em vermelho. Isso é ilustrado pela figura abaixo, em que estão ressaltadas: A favor da despenalização do abortoFrente nacional pela legalização do abortoBlogueiras feministasFeminismo PoéticoGrafites FeministasA mulher negra e o feminismoBlogueiras negras.

zinas - politica

Em destaque, páginas de conteúdo político, ligadas a causas protagonizadas por mulheres: A favor da despenalização do aborto, Frente nacional pela legalização do aborto, Blogueiras feministas, Feminismo Poético, Grafites Feministas, A mulher negra e o feminismo, Blogueiras negras.

Aparecem também outras páginas de cunho político, como a do jornalista Leonardo Sakamoto e do também jornalista e deputado do PSOL Jean Wyllys. Percebe-se uma grande diferença em suas biografias no Facebook: Wyllys é “Parceiro dos movimentos LGBT, negro e de mulheres,  (…) participa de ações que combatem a homofobia, a intolerância e o fundamentalismo religiosos, a discriminação contra o povo de santo, o trabalho escravo, a exploração sexual de crianças e adolescentes, e as violências contra a mulher.(…)”, enquanto Sakamoto é “jornalista e doutor em Ciência Política. Professor de Jornalismo na PUC-SP, é coordenador da ONG Repórter Brasil e blogueiro do UOL.”. Wyllys está na categoria “político” e Sakamoto na categoria “jornalista”. Apesar de suas descrições e categorias serem diferentes no Facebook, os dois identificam-se como de esquerda, participam de um programa juntos (Havana Connection) e defendem muitos assuntos relacionados, o que, provavelmente, faz com que sejam vistos com muita proximidade na rede.

wyllys e sakamoto

Na primeira imagem, a rede de Jean Wyllys com seus vizinhos. Em seguida, destaque para as páginas de Leonardo Sakamoto e Jean Wyllys.

 

PUBLICAÇÕES

O coletivo ZiNas opera na cena das publicações independentes, relacionando-se com editores e artistas de todos os tipos. Na área inferior esquerda do gráfico, colorida de verde-água, destacam-se grupos relacionados ao tema: revistas online, quadrinistas, livrarias, editoras independentes ou não. Nas figuras abaixo, encontram-se alguns exemplos: na área dos quadrinhos (Festival Internacional de Quadrinhos – FIQ, Adão Iturrusgarai, Quadrinhos (IN)dependentes, Quadrinhos Rasos, RYOTiras e Gibiteria) e de revistas (Juxtapoz Magazine, Revista Beleléu e Ideafixa).

 

Destaque para páginas relacionadas a quadrinhos: Festival Internacional de Quadrinhos - FIQ, Adão Iturrusgai, RYOTiras, Quadrinhos Rasos, Quadrinhos (IN)dependentes e Gibiteria.

Destaque para páginas relacionadas a quadrinhos: Festival Internacional de Quadrinhos – FIQ, Adão Iturrusgai, RYOTiras, Quadrinhos Rasos, Quadrinhos (IN)dependentes e Gibiteria.

revistas

Destaque para páginas de revistas: IdeaFixa, Juxtapoz Magazine e Revista Beleléu.

Há também editoras e livrarias nessa área verde, mas a maioria delas encontra-se na parte azul do gráfico. Alguns exemplos, Companhia das LetrasA Bolha EditoraCosac Naify, Pipoca Press e Edições Tijuana, encontram-se na imagem a seguir.

editoras

Destaque a páginas de editoras e livrarias: Companhia das Letras, A Bolha Editora, Cosac Naify, Pipoca Press e Edições Tijuana.

Nessa área azul, além de editoras, há muitas páginas de zines e feiras de publicações, principalmente da cena alternativa.

feiras

Destaque a páginas de feiras: Feira Plana e La Independiente – Feria de Publicaciones.

 

CONCLUSÃO

Foi possível, com a identificação de diversos nós, uma determinação de características específicas dos principais grupos de cor separado pela função Modularity Class. A região azul, na parte esquerda inferior do gráfico, apresenta predominantemente páginas relacionadas a publicações, como editoras, livrarias e feiras. A região verde-água, na  parte inferior do gráfico, contém também páginas relacionadas ao tema, com destaque para festivais, quadrinistas, zines e revistas. As regiões verde-claro (lado direito do gráfico) e vermelha (parte superior do gráfico) são fortemente relacionadas à temática feminina, sendo a primeira mais voltada a manifestações artísticas e a segunda, a questões políticas. As regiões roxa e amarela apresentam um grau menor de modularidade e são compostas por diversas páginas da cidade de Belo Horizonte.

Esse estudo demonstra o quão conectado é hoje o universo das publicações, especialmente as independentes. Na falta de recursos, os editores e artistas aproveitam o espaço de divulgação extensa que o Facebook oferece para chamar a atenção para seus trabalhos, conhecer novas produções, formar parcerias e motivar eventos como feiras e festivais. No caso das ZiNas, surpreendentemente, essa conexão não se mostra tão forte, pois a maioria das integrantes encontra-se nas regiões periféricas da rede, atuando de um modo mais local que nacional.

Fica evidente, também, a importância do Facebook em movimentos políticos: a relação com a política na rede tem se tornado cada vez mais expressiva, pois as pessoas encontram lá um local de livre expressão, para mostrar seus pontos de vista. Além disso, torna-se ainda mais clara a forte conexão entre a política e a arte, que é há muito tempo um palco da exposição de descontentamentos e verdades que permeiam o cotidiano das pessoas.

Equipe

Mariana Gonzaga 

Etapas desta publicação

Proposta  Desenvolvimento

 

12 comments

  • Clara Braga

    Acho muito interessante como produções independentes encontraram na internet uma forma de ganhar o seu espaço e levar questões sociais para debate. Nos gráficos podemos ver como esses grupos se apoiam mesmo com tantas categorias diferentes no grafo.

    Gostei muito de como vocês identificaram a proximidade de causas sociais com a arte!

  • saulogargiulo

    Bom dia.

    Gostei bastante da proposta e da forma com que a análise foi construída aqui. O ponto que mais me chamou a atenção, particularmente, foi a relação ente as artistas e a cidade de Belo Horizonte. No meu trabalho em específico, um dos grupos separados pela modularidade ficou bem “local” também, visto que trazia páginas ligadas à UFMG. Creio que renderia um bom estudo interdisciplinar, envolvendo geografia e comunicação, buscar entender como o espaço físico, de um bairro ou uma cidade, é representando nas redes sociais.

    • Mariana Gonzaga

      De fato, também achei muito interessante essa questão de Belo Horizonte. Inicialmente, tive dificuldades em encontrar conexões entre essas páginas, mas depois ficou muito clara essa ligação geográfica. Um estudo interdisciplinar seria mesmo uma ideia excelente, acredito que a análise de redes de sociais poderia beneficiar muito outros campos de estudo, além da comunicação.

  • Luís Felipe Garrocho

    Legal Mariana, mas tem mais algumas comunidades que você não entrou muito né? existe um grupo amarelo, assim como uma azul-claro. Essas duas parecem mais esparsas e menos agrupadas que as outras. Elas representam um grupo – ou são qualificadas justamente por não pertencerem aos outros?

    • Mariana Gonzaga

      Olhei todas as comunidades, mas não encontrei nada satisfatório quanto aos nós pertencentes aos grupos azul-claro e amarelo. Parecem muito desconexos entre si. Talvez observando novamente eu consiga encontrar algo, ou então eles são realmente qualificados por não pertencerem aos outros grupos, o que eu acho mais provável.

    • Luís Felipe Garrocho

      Acho que cabe falar isso! Que não encontrou nada que unificasse – e que esse agrupamento pode ser derivado disso.

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