Sorria, você está me passando seus dados!

A era moderna é caracterizada por relações fluidas, sempre em movimento, que se constroem e se dissolvem instantaneamente. Nesse sentido, segundo Zygmunt Bauman, vive-se em uma modernidade líquida em que tudo é inconstante. Nesse contexto, David Lyon em seu livro “Vigilância Líquida: diálogos com David Lyon/Zygmunt Bauman” dialoga com o sociólogo acerca dos pontos que configuram a vigilância líquida que circunda a modernidade, além de debater sobre os drones e as mídias sociais.  

 

A vigilância sobre os corpos não é surpresa para nenhum cidadão moderno: no exemplo mais óbvio, cotidianamente somos observados por câmeras nos centros urbanos. Mais profundamente, controlados através de números, documentos, senhas, cartões, algoritmos etc. Assim, ao falar sobre vigilância líquida, pensa-se sobre a fluidez dos mecanismos de segurança que a todo tempo se reconfiguram na contemporaneidade. Através deles, a vigilância se reproduz de diversas maneiras, inclusive para obter informações pessoais e utilizá-las com outros fins, sendo a tecnologia a principal fonte e recurso da vigilância líquida.

 

Após o ataque de 11/09, os Estados Unidos começaram a viver sobre constante vigilância e rememoração aos ataques terroristas, por consequência afetando outros países do mundo. O primeiro fator que diz respeito à vigilância na modernidade líquida são as formas sociais que se desmancham e são criadas rapidamente. Elas são breves e não são engessadas em estereótipos fixos. Lyon também aponta a separação entre política e poder. Enquanto o poder agora se revela extraterritorial, a política continua agindo em âmbito local. O poder torna-se incerto e pode ser usado e conquistado por grupos imprevisíveis.

 

Outro aspecto ligado à vigilância é o surgimento das novas mídias e a fragmentação social. Bauman afirma que não são as mídias que necessariamente dissolvem as relações, mas estas são produtos justamente das tensões que já existem na sociedade. Uma característica da manutenção das novas mídias e da vigilância é que a mídia sempre depende do monitoramento de usuários e da venda de dados destes para que siga funcionando.

 

Bauman levanta a questão da ética: como agir em relação ao outro? Em tempos de liquidez a ética está sob constante provação e questionamento. O sociólogo apresenta o termo “adiaforização”: há uma separação das questões morais e dos procedimentos técnicos da vigilância, além disso a vigilância torna mais eficiente o processo de separar uma pessoa das consequências de sua ação. Noutro caso, existe a fragmentação e replicação de dados, o uso da biologia humana como acesso para informações pessoais e identitárias é centro de debates sobre o controle e a liquidez da vigilância.

 

Nesse sentido, os mecanismos da vigilância não são neutros e levam em consideração todas as representações bem como os preconceitos vigentes na sociedade. Por meio da categorização social, esses mecanismos vigilantes discriminam muito mais quem está fora do padrão normativo e/ou sob suspeita devido às questões de etnia ou religião.

 

É dentro dessa narrativa sobre vigilância que surge o contraponto entre o modelo panóptico e pós panóptico. Michel Foucault, no século XX, se concentrou no 1º modelo para deliberar sobre a relação entre vigiado e vigia: nesse modelo os presos tinham consciência de estarem sendo observados pelos guardas pois ficavam totalmente expostos. Por isso, viviam sob constante controle e anulação de personalidade devido a falta de liberdade. No modelo pós panóptico (na modernidade líquida) os guardas não são fixos e podem ser intangíveis, assim as pessoas mesmo que vigiadas não têm essa consciência e acabam por usufruir de uma falsa liberdade.

 

A grande questão sobre a vigilância líquida é que esta reflete a modernidade em que vivemos, as relações que procuramos fazer e o contexto em que nossos corpos assumem uma posição para serem explorados. O compartilhamento de dados tornou-se espontâneo e o vigiado faz um “acordo” com os “vigilantes” na disseminação desses dados. Também, a vigilância tomou novos contornos ao se enquadrar na troca de informações para a produção de entretenimento ao usuário. Exemplo disso, a difusão de redes sociais como Facebook, Twitter e Instagram que sabem mais sobre seus gostos que você mesmo. É comum ver indicações ou sugestões de links que se assemelham com o que você gosta de ver/ouvir/comprar baseadas em suas pesquisas. Além disso, as informações pessoais fornecidas pelos usuários traçam o perfil do consumidor dessa rede. Não é incomum, a aprovação e a limitação da carta de crédito pelos bancos através das informações encontradas na internet. Atualmente, não há um sofrimento ao ser vigiado, mas uma adesão voluntária dos cidadãos para que isso ocorra em troca de segurança ou de uma experiência completa, seja na facilidade da utilização de bancos, seja nas incríveis possibilidades da internet.

 

Em relação aos drones, Bauman explicita que estes se tornarão cada vez menores, a ponto de tornarem-se invisíveis e confundíveis com o ambiente ao nosso redor. Enquanto isso, milhares de dados serão coletados para serem utilizados com fins difíceis de prever mas que estão diretamente ligados à vigilância e ao controle. Paralelo a isso, a identidade nas mídias sociais deixa de ser predominantemente anônima para se mostrar cada vez mais visível e a ausência de privacidade não ser mais um problema mas algo recorrente entre os usuários. Enquanto a visibilidade traz “benefícios” e satisfação aos cidadãos em rede porque agora tudo é público e visível e não mais anônimo, ser observado vira um prazer e uma recompensa de ter sua existência valorizada perante o outro. Para Bauman e Lyon tais aspectos da internet apenas desvelam o que é a humanidade.

 

Ademais, Lyon questiona Bauman acerca da contracultura que emerge na internet a fim de reconfigurar as relações de poder exercidas nas comunidades, como as grandes multimarcas e até o governo. Bauman explica que é possível que esses movimentos assumam um tipo de mudança social, contudo são ainda reaproveitados pelo controle da vigilância. Dessa forma, podemos correlacionar a chamada “Jornada de Julho”, expressão que diz respeito às manifestações ocorridas no Brasil em 2013 e que ganharam força com as redes sociais. Contudo, 4 anos após o fenômeno ainda é nebuloso saber como a jornada tomou aquele rumo e como afetou o país, sobretudo, como as redes sociais serviram de impulsionamento tanto para as manifestações quanto para a vigilância dos participantes.

3 comments

  • Augusto Leao

    Essa questão de compartilhamento de dados me preocupa e esse texto me fez refletir bastante, principalmente tendo em vista o crescimento das redes sociais onde às vezes, mesmo involuntariamente compartilhamos informações importantíssimas, de um jeito o qual acabamos nos tornando reféns da rede.

    Podemos dizer que estamos sendo vigiados o tempo todo, e talvez não tenhamos a verdadeira noção do quão preocupante é isso. Uma vez no mundo da internet, pra sempre no mundo da internet, será que temos ideia da dimensão que isto pode tomar? É importante que separemos nossa liberdade, o nosso “ser livre”, do agir sem pensar. Achamos que postando aleatoriamente, e sem filtro, coisas de nossa vida nas redes sociais, estaremos apenas alimentando pessoas próximas, mas a verdade é que a internet é um buraco negro sem fim.

    Hoje já é possível listar empresas que usam de uma “pesquisa” nas redes sociais para estar a par da vida do possível contratado, para que essa seja, quem sabe, mais uma etapa de um processo seletivo que vai muito além de um currículo e uma entrevista tradicional. Uma espécie de análise comportamental é feita, sendo importantíssima na contratação do mesmo. O comportamento de cada indivíduo é monitorado nas redes sociais e o mesmo é testado de diferentes formas.

    Diante desses tantos fatores que comprometem a vida profissional de um indivíduo, por exemplo, é bom que reflitamos: E aí, será que queremos ser avaliados pelo o que postamos nas redes sociais? Quais dados devem ou não ir a público?

  • Leticia Lopes

    Acredito que a vigilância é um assunto polêmico e o fato de que grande parte dos indivíduos aceita ser vigiado sem questionar sobre isso é assustador. É difícil concluir se a sociedade aceita essa vigilância porque não possui uma real consciência de que ela está presente constantemente, ou se apenas aceita ser vigiada por conformação de que não é possível fugir ou recusar o estado de “vigiado”, caso contrário a segurança e a comodidade podem estar em jogo.

    Mas acho que o ponto mais intrigante está atualmente nas redes sociais. É irônico saber que somos vigiados a todo momento pelas redes sociais e ainda assim nos sentimos confortáveis e, ironicamente, livres. Os usuários, mesmo sabendo da vigilância, alimentam os seus perfis com informações pessoais, acreditando que atualizar a sociedade das suas ações e conquistas do dia-a-dia é ser livre.

    Acredito que neste caso é necessário colocar a questão ética de Baumann sobre “como agir em relação ao outro?” atrelando ao sentido de liberdade: com a vigilância constante nas redes sociais, estamos realmente agindo com a mesma liberdade em relação ao outro se não fossemos vigiados? A partir do momento em que temos consciência de que somos vigiados, estamos realmente sendo livres?

    De acordo com Edward Snowden o ponto chave para a discussão sobre vigilância “Não se trata de uma questão de privacidade e sim de liberdade (…) nós mudamos o nosso comportamento quando estamos sendo vigiados. É uma ameaça à democracia.”.

    Portanto, ai fica a questão: Se considerarmos que a liberdade é um direito individual, não estaria a vigilância, mesmo que esta seja governamental, ferindo a ética da sociedade e ameaçando a democracia?

  • Stephani Julia

    Isso tudo me faz pensar no exercício prático que fizemos em sala simulando modelos futuristas de carteiras de identidade. Um dos grupos (o do Governo, se não me engano) propôs que nossa identificação contivesse uma espécie de histórico escolar, acadêmico e criminal que seria utilizado pelas empresas ao recrutar candidatos a vagas de emprego. Todos questionamos muito a limitação da liberdade e da privacidade do indivíduo ao ter sua vida definida por um registro de suas ações passadas. A ideia pareceu muito maquiavélica por seu “caráter panóptico”, já que as pessoas não teriam a liberdade de escolher se liberariam ou não seus dados. Entretanto, pensando agora na vigilância líquida e no modelo pós-panóptico das redes sociais, percebo que já entregamos nossos dados e histórico de livre e espontânea vontade – e nem nos damos conta disso. Desde plataformas destinadas ao mercado de trabalho, como o LinkedIn, até redes sociais de entretenimento como Facebook e Instagram, expomos nossas vidas e preferências para qualquer um com acesso à web. Temos a impressão de que possuímos o controle daquilo que mostramos, mas nos esquecemos de que, um botão de “excluir” não é suficiente para deletar algo de que tenhamos nos arrependido. É praticamente impossível conter algo que “caiu na rede”. E os contratantes têm, cada vez mais, usado nossos perfis online como cartões de visita.

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