Tarô: uma narrativa por acaso

Normalmente, quando começamos a contar uma história, buscamos encontrar sempre uma relação de causalidade entre diferentes acontecimentos. “Primeiro ocorreu isso, depois aquilo. Aquilo ocorreu por causa disso.” Há sempre um exercício mental de procurar por uma sucessão lógica do desenvolver dos fatos. Somos tentados a acreditar que sempre existe uma explicação, que há um motivo por trás das coisas. No entanto, sejamos sinceros: muitas vezes simplesmente não há um por quê, simplesmente acontece por um capricho do destino.

Um exemplo cotidiano está na fotografia. Hoje em dia, basta deixar a câmera no modo automático, e sem nossa menor participação, ela mecanicamente produz excelentes fotos a partir de uma medição irracional da luz no ambiente. Isto não significa que as imagens são inferiores, ao contrário, muitas vezes elas são de alta qualidade e entram para nossos álbuns de memórias.

Um outro exemplo está no vídeo e nas fotografias do projeto Marcha(2013) de Pio Figueiroa da Cia de Foto. O vídeo de quase trinta minutos, feito com uma câmara fixa e filmado em restrita profundidade de campo, mostra pessoas que iam e vinham em uma estação de metrô. Desta gravação muda, uma dúzia de quadros foram selecionados constituindo um brilhante ensaio fotográfico sobre a vida urbana. Com uma mínima interferência do artista, se produziu narrativas imagéticas de quem eventualmente aparecesse na pequena área onde seu rosto ficasse nítido.

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Daí, surge talvez aquilo que Walter Benjamim descreve como “centelha do acaso”. Esta metáfora, apesar de referir-se somente a fotografia, pode servir a qualquer meio, como a escrita, o cinema, a música e até o desenho. Querendo inflamar esta centelha até que surja um incêndio, decidi trabalhar com talvez as narrativas mais arbitrárias e verídicas da cultura popular: as artes divinatórias, como runas, búzios e, mais especificamente, o tarô.

Tendo já familiaridade com as cartas, eu me aproximava de um estranho e oferecia jogar para ele. Se ele aceitasse, começava a entrevista, gravando em áudio toda a conversa e fazendo um retrato dele com as cartas sacadas.

A estes voluntários, inicialmente, perguntava-lhes o  que achavam da proposta, sobretudo, se ela ia funcionar ou não e se já tinham jogado tarô antes. Quase todos que aceitaram a oferta eram, apesar de em diferentes níveis e por diferentes motivos, crentes que sim, algo seria revelado durante a leitura. Alguns já tinham jogado, mas poucos foram a um cartomante profissional. E, apenas um, era totalmente cético em relação às cartas.

A conversa continuava comigo confirmando as expectativas da maioria, “o tarô de fato funciona, porém, há mais de uma forma de entender como ele funciona”. E se  seguia com as explicações…

A primeira e a mais comum delas, é que existe alguma força externa ao sujeito – destino, espíritos, sorte, karma, Deus – que age nas cartas e as organizam de forma a revelar algo sobre a realidade. Nesse sentido, o baralho é quase um instrumento de medição ou mediação da vontade de alguma coisa ou ser além. Consequentemente, muitas vezes ele assume uma papel de relíquia e só funciona se se seguir os procedimentos adequados de algum ritual. Nesta concepção, o que eu fazia, tirando cartas de forma tão banal, é quase um sacrilégio. Uma espírita estava tão incomodada com meu projeto que chegou a sair de perto enquanto fazia a leitura das cartas de sua colega.

Eu não poderia seguir esta visão do tarô. Mas, havia uma segunda explicação, que reconheço como jungiana. Obviamente, não se pode esperar que, com uma ou três cartas, se resuma toda a vida de uma pessoa. Portanto, é necessário que se elabore uma pergunta para as cartas. Pedindo a meus entrevistados que pensem esta questão sobre suas vidas, eu lhes entrego o baralho e lhes peço para que o embaralhem.

Partindo de idéias da Psicologia Analítica, esta visão considera que as 78 cartas do baralho de tarô são representações de arquétipos, ou seja, imagens primordiais incrustadas no inconsciente coletivo da humanidade. Isto significa que no nível mais profundo e íntimos de suas psiquês, todas as pessoas sabem os significados das cartas. Quando lhes peço para embaralhar e refletir sobre suas dúvidas e anseios, o seu inconsciente age em suas mãos e organiza o baralho. Desta forma, as cartas selecionadas não são aleatórias, mas estão descrevendo algo que a própria pessoa já sabe, mas muitas vezes não está entende ou não apreendeu. O próprio baralho escolhido para o projeto, o Deviant Moon Tarot, feito por Patrick Valenza, já reflete este objetivo de explorar o subconsciente a partir de desenhos surreais e oníricos.swords_10

Uma vez dito isto, eu peço para que o entrevistado me devolva as cartas já baralhadas. E peço que, pensando sobre a pergunta, pegue uma carta ou, se for uma leitura de três, pegue três cartas, mas pensando respectivamente em seu passado, em seu presente e em seu futuro. Antes de desvirá-las, eu lhe digo que também não acredito nesta entendimento do tarô. “Por mais poderoso que seja nosso inconsciente, duvido que consiga fazer o jogo ao embaralhar de forma involuntária.”

Eu já parto de uma terceira e última explicação. “As cartas não são nem selecionadas por uma força externa nem pelo inconsciente oculto do sujeito, elas são sorteadas a partir do acaso.” Não há nenhuma lógica que explique porque cada carta apareceu, sendo, na verdade, algo completamente arbitrário. Mas, a meu ver, é exatamente por serem aleatórias que elas podem revelar tanto sobre a realidade.

Historicamente, o tarô já data da baixa Idade Média e possuí a mesma origem do baralho convencional que se usa no buraco e no truco. Os baralhos de tarô, em geral, conservam o mesmo sistema de naipes e quase a mesma família real, sendo que os clássicos, como o baralho renascentista do Tarô de Marselha, são uma versão estilizada das cartas normais. O Dez de Espadas consiste literalmente em um desenho de dez espadas, por exemplo, só que eu um design medieval. Era necessário o cartomante estudasse o significado de cada naipe e cada número para poder interpretar a jogo de tarô.

Isto m10ESPADASudou no século XX, quando em 1910, se publicou o Tarô Waite-Smith, inaugurando assim um linha de diversos baralhos modernos, entre eles, o utilizado neste experimento. Ao contrário dos clássicos, as cartas modernas consistem em ilustrações que já sugerem e simbolizam seus significados. O Dez de Espadas, seguindo o exemplo, é um corpo caído no chão com dez espadas infincadas em suas costas, já apontando para um grande sofrimento e ruína. Desta forma, os baralhos modernos democratizam a leitura, uma vez que apenas ao admirar a carta já começa a elaborar-se uma narrativa análoga a vida do sujeito.

Diante desta possibilidade, ao invés de explicar imediatamente as cartas selecionadas, eu peço a própria pessoa que ela responda sua pergunta apenas observando as cartas e extraindo um sentido destas. Três exemplos destas narrativas com as cartas de referência podem ser vistas no vídeo abaixo.

 

Desvirando carta por carta, a própria pessoa elabora livremente os significados de cada carta refletindo os acontecimentos que marcaram sua vida e suas expectativas para o futuro. Antes de um técnica para adivinhação, o tarô se constitui como um método para refletir sobre a realidade. Jorge Luis Borges, em uma de suas palestras, fala que temos a impressão equivocada que nossa história é única e linear, com apenas um início, um meio e um fim. Porém, ele lembra que nossa própria vida é uma multiplicidade de narrativas, às vezes amamos e odiamos a mesma pessoa simultaneamente ou às vezes simplesmente sorrimos quando desejamos chorar. Diversas vezes, o baralho criara narrativas que se opõem a nossas expectativas ou como descrevemos nossa vida, mas não deixa de ser uma análise verdadeira.

Ao mostrar uma interpretação alternativa, revemos sobre outra perspectiva nossa história. O tarô surge então como uma forma de, a partir do acaso, construir uma nova leitura do mundo e de nossas vidas. Independente se ela corresponder ou não aos fatos, ela é funcional se nos abrirmos a uma narrativa diferente de nós mesmos.

No ensaio fotográfico a seguir, há provocação ao leitor. Com os diversos retratos feitos durante o projeto, cabe finalmente ao espectador, como os próprios entrevistados, elaborar uma narrativa para os personagens da imagem. Como orientação, há as palavras chaves de cada carta na legenda. Quantas histórias verídicas surgirão deste exercício?

Equipe

Caio Santos