Tecnologia, Feminismo e Mudança Social

Quando pensamos em tecnologia ou sobre os estudos da tecnologia logo os relacionamos ao nosso contexto atual, associando esse campo à uma temporalidade que ainda nos parece muito tenra e recém-gerada. Contudo, ainda na década de 80, Donna Haraway publicou um promissor trabalho entitulado “Manifesto Ciborgue: Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX” que acaba se tornando uma das principais obras de sua carreira e um marco para os estudos tecnológicos e feministas até hoje. No artigo, Haraway problematiza a fragilidade das fronteiras entre o humano e a tecnologia, que muito frequentemente são tratados separadamente, encobrindo uma série de camadas que complexificam essa relação.

Haraway se apropria da imagem do ciborgue para figurar o processo de hibridação entre máquina e organismo, o que segundo ela, acaba por desencadear novas dinâmicas sociais e estruturais na rotina de um indivíduo. Nesse contexto, a utilização das novas tecnologias provocaria uma nova configuração das práticas sociais, além de potencializarem a voz das camadas mais frágeis da sociedade, geralmente muito fragmentadas e limitadas a um determinado espaço.

Visto isso, Donna Haraway questiona muito o que seria “ser mulher” e como isso pode se transfigurar com os novos adventos tecnológicos. Segundo ela, primeiramente, a essência do significado desse questionamento estaria muito mais relacionada à uma construção social do que à um aspecto biológico, ou seja, o consenso de que a mulher seria o sexo mais “frágil” partiria muito mais de um senso comum socialmente compartilhado do que de um embasamento cientificamente comprovado. Essa concepção que ainda hoje é amplamente neutralizada, acaba tornando-se uma grande barreira na rotina das mulheres, que estariam fadadas a desempenharem um papel social muito limitado e já pré-determinado por esse imaginário comum.

Em contraponto, à medida em que as tecnologias se tornam cada vez mais acessíveis e populares para as pessoas, percebemos uma deteriorização cada vez maior dessa noção de “localidade” de gênero, o que contribui não apenas para expansão do nível de representatividade feminino, mas, permite a troca simbólica experiências do que realmente é “ser mulher”, germinando, novas possibilidades de existência dentro da sociedade.

A facilidade de acesso e a organização essencialmente estruturada em redes dessas tecnologias acabam estimulando a conexão entre essas mulheres, o que permite aos poucos uma mudança de visão de mundo muito mais igualitária. Em crítica ao feminismo radical, Haraway defende que a incorporação do feminismo na sociedade não deve acontecer pela inversão dos valores de dominação, e sim, por uma concepção igualitária que não pressupõe gênero, somente essa perspectiva, poderia se resultar na tão sonhada revolução de igualdade dos sexos.

Desse modo, podemos perceber que essa correspondência entre máquina e organismo é um terreno fértil e ainda muito confuso, dado tamanha complexidade das relações e fatores envolvidos nessa relação. A mudança nesse caso não é de responsabilidade de apenas um desses agentes, sendo assim, uma construção social em constante transformação, que adquire um papel dialógico e experimental que atua de forma completamente orgânica em relação ao lugar e a forma de como ela se estabelece.

 

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