Um texto

Miguel Tibério

_Um texto sobre a satisfação humana?

_Um texto sobre escolhas…….ou a falta delas?

_Um texto sobre a obsessão humana, ética e limites?

_Um texto sobre o ego?

_Tudo perde sentido, tem seu valor diminuído?

Este não é um texto sobre certezas e afirmações, ele busca apenas reflexões e indagações. Queria eu saber a resposta de tudo (ou será que não?).

Durante toda a matéria após discussões e mais discussões sobre as tecnologias, seus desdobramentos e impactos, sempre me veio à mente questionamentos sobre a natureza e implicações do psicológico humano que permitiram a existência de tais evoluções. Quais foram os elementos da nossa forma de aceitar e vivenciar a realidade que resultaram nesses instrumentos de potenciais infinitos? Tentando atender minhas dúvidas e interesses sobre o assunto, resolvi escolher os conceitos de pós-humano e de ciborgues para análise, especialmente por representarem um presente/futuro não muito distante, em que ambos marcam a evolução e rompimento das barreiras físicas do que é ser um humano. No entanto, o primeiro e principal obstáculo foi encontrar variáveis de certa forma universais e que conseguissem ultrapassar a influência da cultura (o que é completamente impossível), sendo assim algo realmente orgânico e comum a todos. Seria isso uma presunção e arrogância absurdas da minha parte? Afinal o que um menino de 19 anos sabe sobre a vida, não é verdade? Então, voltando na questão da minha arrogância, a única resposta que imagino ser possível é sem dúvida um “sim”, talvez tudo o que eu identifiquei como inerente ao ser humano seja algo restrito a minha visão de mundo e que está longe de ser algo global, o que pensando melhor tem uma probabilidade enorme. Por outro lado, recordando a introdução do texto, vale lembrar que ele nunca foi nem nunca será sobre certezas.

Ao focar no conceito do pós-humano, as figuras de inteligências coletivas e da transcendência da unidade corporal e até mental, são as primeiras ideias a fluírem nos meus pensamentos. O simples fato de superarem as fronteiras daquilo que sempre fomos evoca a constante insatisfação com nossas finitas capacidades. Nunca nos contentamos com aquilo que temos e sempre estamos à procura por “algo a mais”, seja ele um sentido, objetivo, ambição ou sonho (chame do que quiser). Dessa forma, as próprias invenções tecnológicas podem ser enxergadas como a manifestação da eterna busca do ser humano por algo que nos dê significado. Será que as grandes invenções foram pensadas em suas possíveis contribuições para o mundo e para as pessoas ou será que elas foram apenas um meio utilizado para externalizar e preencher o ego e o individualismo dos seus criadores, que queriam simplesmente provar seu poder de criar o impossível? O que não seria algo tão abominável, tendo em vista aquele impulso/desejo individual de ser o melhor ou de constantemente ter que comprovar a capacidade, que às vezes flertam com nosso subconsciente. Qual será o limite do desejo humano de superar suas habilidades e aptidões? Existe um limite? Qual a ética envolvida nesse processo? Não sei, não sei e não sei, o que me preocupa é o caráter mutável da ética e do limite, que diversas vezes na história permaneceram em segundo plano. Ao pensar num limite, não consigo desassociar da imagem de um “Deus” onipresente e onisciente que perde pouco a pouco suas partes humanas. O primeiro exemplo que me vem à cabeça para ilustrar esse pensamento é a figura do Dr. Manhattan, personagem da graphic novel “Watchmen” publicada entre 1986 e 1987, escrita por Alan Moore e desenhada por Dave Gibbons. Na trama do quadrinho, Jonathan Osterman é um físico nuclear que após um acidente ganhou o poder da onipotência, em que ele poderia manipular a matéria em nível subatômico, alcançando literalmente o potencial de um Deus capaz de qualquer coisa. Após anos com seu poder, o personagem fica cada vez mais apático e indiferente quanto à humanidade, dado seus sentidos e conhecimentos infinitos que reduziam tudo a pura racionalidade e elevavam a falta de significado. Com a invenção da internet e mais posteriormente dos smarthphones, já alcançamos certo patamar de onipresença, hoje conseguimos em instantes saber tudo o que está acontecendo em diferentes partes do mundo quase ao mesmo tempo. Com essas imensas capacidades de pós-humanos que são rapidamente ampliadas com o passar dos anos, será que passaremos a ver todos os pequenos momentos e belezas corriqueiras que nos cruzam diariamente, como algo sem importância diante a vastidão de nossas possibilidades? Será que as relações humanas serão suficientes para suprir nossas necessidades? Mais uma vez não sei.

Em relação aos ciborgues, assim como descrito no texto de Donna Haraway publicado em 1985: “Manifesto Ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo–socialista no final do século XX”, é completamente inegável a essência ciborgue entranhada na contemporaneidade. Atualmente somos um amálgma de corpo orgânico com extensões digitais “quase desassociáveis”, seja por escolha própria ou pela pura pressão social. As redes sociais e suas implicações são ótimos exemplos para ilustrar essa realidade. O nosso eu físico por si só já não consegue ser suficiente, é extremamente difícil separá-lo do nosso eu virtual, as pessoas e nós mesmos queremos mais. A afeição de nossa família e amigos próximos não basta para suprir as necessidades sociais, precisamos da atenção de mais pessoas (nem que elas sejam totalmente desconhecidas), quanto mais melhor, pois mais contemplados (ignorando o inevitável vazio e a ocasional solidão talvez?) nos sentimos. Do outro lado do espelho, dia após dia consumimos a vida de pessoas que nem nos importamos necessariamente, sempre fazendo comparações, julgamentos ou apenas “vivenciado” o momento junto com elas (um momento muitas vezes fabricado e totalmente artificial). É uma relação mútua de dependência entre estranhos, conhecidos e amigos. Será que fazemos isso pra nos sentirmos parte do meio? Será que é pela satisfação dos ideários egocêntricos pessoais? Será que é pelos simples anseios por atenção e companhia? Ou pior, será que sempre procuramos por isso? Mais uma vez não sei, mas a nítida ligação entre orgânico e digital, real e virtual nos transformou em algo novo. Se o ser humano é um ser social, hoje nós somos ciborgues sociais.

Um texto, um desabafo, um relatório, uma conversa. Após a releitura desse conteúdo, é extremamente visível seu destinatário: eu mesmo. Escrevi para talvez amenizar meus pensamentos ou para me expressar de alguma forma. Talvez seja a manifestação de uma busca eterna pelo autoconhecimento, talvez seja uma disputa entre os diferentes “eus” que se recusam a aceitar a realidade. Enfim, você não é obrigado a aceitar e muito menos a concordar, mas realmente espero que tenhamos nos conectado de alguma forma nesses breves minutos. Obrigado pelo seu tempo e espero que tenha gostado do passeio.

“Ao que nos compete discernir, o único propósito da existência humana é lançar uma luz nas trevas do mero ser.”- Carl Gustav Jung.

(Agradecimentos especiais ao aroma de café no meu quarto e aos álbuns “Delicate Sound of Thunder” e “The Final Cut” do Pink Floyd que me acompanharam na redação desse texto).

6 comments

  • Andresa Pereira

    Nossa que lindo o seu texto Miguel! Acho que a disciplina de Processos De Criação em Mídias Digitais contribuiu para que pensássemos não somente como futuros comunicadores, mas também, como usuários e indivíduos que estão completamente submersos a essa realidade social. É nítido que como futuros profissionais da comunicação é completamente necessário que tenhamos um entendimento crítico e processual de como funciona essas novas tecnologias. Contudo, vemos acontecer diante de nossos olhos todo esse processo de desenvolvimento e estabelecimento dessas novas mídias, fizemos parte disso e, particularmente falando, é difícil um distanciamento com essa realidade que é praticamente parte de nós. Há, concerteza, uma fragilidade muito grande de tentarmos separar o que o distintinguir o que é “ser” humano e o que é “ser” máquina. A absorção dessas tecnologias é algo tão natural que é quase impossível já não possuir um olhar “contaminado” em relação a esses aparatos. Sem dúvida, ao concluir essa disciplina me vejo com novas perspectivas e novos tipos de pensamentos na minha relação pessoal com essas novas tecnologias e, mais do que sanar minhas dúvidas, a matéria me despertou um milhão de novos questionamentos que acho que vão se desdobrar pro resto da minha vida!

  • Gabriel Jose

    Esse texto conseguiu mexer mais com a minha cabeça do que a própria disciplina!
    Mesmo tendo sido escrito em primeira pessoa e sendo um desabafo seu, acredito que todo eu lírico toma pra si essas dúvidas, porque todos esses questionamentos fazem parte da nossa existência cotidiana, mesmo não sendo pautados sempre.
    Tem um rapper que eu curto, MC Marechal, que fala “País feliz onde o povo pouco lê, e busca mais mostrar nas rede como vive que viver, não consegue aprender que as rede são pra prender, Tudo é Facebook e os livro na cara, cadê?”
    Eu penso demais nisso porque eu sou uma pessoa muito conectada, mexo no celular quase o tempo todo, pelo fato de eu morar sozinho e toda a minha família e muitos amigos serem de outras cidades a maior parte dos meus diálogos no dia são pelo Whatsapp e é impressionante o vazio que isso me causa às vezes. A sensação é de que quanto mais onipresentes nós nos tornamos, mais sozinhos nós somos, porque estamos em todos os lugares, mas na maioria das vezes dentro do nosso próprio quarto. E ainda sobre as redes sociais, eu reflito muito sobre o que eu sou e o que eu aparento ser por lá, a sensação de que todos são felizes no Instagram, nos distância cada vez mais dos sentimentos alheios e dos nossos próprios sentimentos.
    Por fim, eu vejo um vínculo sobre o que você escreveu e sobre o meu seminário de internet das coisas e como ela vai reconfigurar as nossas possibilidades e ao mesmo tempo o perigo disso aumentar cada vez mais as dúvidas sobre a nossa existência. A partir do momento que os objetos não precisam mais da gente, quem é que precisa? As outras pessoas? As mesmas pessoas que agora são amparadas também por máquinas? E o que faremos com o tempo que ganharemos com a tecnologia? Criaremos mais tecnologias? Eu também sou das perguntas e a última aqui vai ser: qual o limite de tudo isso que estamos vivendo?

  • Thaís Boges

    Essa pergunta também me aflige e acho que ela foi bem convidativa durante a disciplina. Afinal, quem somos nós (ou “o que somos nós”) em meio à tecnologia, aos dispositivos cada vez mais inteligentes, a cultura das redes sociais, do compartilhamento constante (quase mandatório, na verdade)? Por que fazemos isso? A exposição, o desejo de estar em conjunto, da aprovação social, ou seria mesmo uma genuína vontade do compartilhamento, característico de nós, humanos, que sempre nos agregamos? Afinal, somos seres sociais. Quando não existia o nível de tecnologia que temos hoje, nós mesmo assim optávamos pela vida em conjunto, uma vez que víamos alguma vantagem (ou várias) nesse aspecto.
    Enfim, essa divagação toda para chegar no ponto: como chegamos ao ponto tecnológico que estamos hoje e para onde estamos caminhando? Será a integração entre humanos, dispositivos, dados e tecnologia uma crescente? Vejo cada vez mais pessoas que se frustram nas redes sociais e pela tecnologia e que buscam uma vida mais conectada ao analógico, mas seria o futuro da tecnologia inevitável para nós?
    Fato é que a internet das coisas, a tecnologia usável e as redes sociais que servem propósitos cada vez mais diversos são uma realidade. O futuro não pode ser previsto e, embora meu texto, assim como o seu e os outros comentários proponham mais perguntas que respostas, vou expor um pouco da minha visão particular.
    Acredito que a tecnologia está cada vez mais presente em nossas vidas sob o pretexto da facilidade, da melhoria, da acessibilidade. Acredito que, realmente, tudo que a tecnologia engloba tem si muitos aspectos positivos que usufruímos em nosso dia a dia. De forma semelhante, acho que isso nos afasta de outros elementos, embora não faça nenhum juízo de valor em relação à isso.
    De toda forma, a “fronteira final”, os ciborgues e a “era” do pós-humano talvez não sejam tão fora da curva quanto um filme possa prever (ou um episódio de Black Mirror possa fazer parecer), mas isso pode ser porque já estamos com a ótica embaçada devido ao estágio em que nos encontramos. No fim das contas, quem sabe, não é mesmo?
    Parabéns pelo texto e obrigada pela reflexão.

  • Aline Rodrigues

    Gostei muito das discussões abordadas em seu texto pois conseguiu exprimir tudo que eu também venho refletindo durante o avanço da disciplina. E confesso que tais reflexões não são fáceis, nem de se pensar muito menos de transmitir para o papel. A falta de respostas nos aflige imensamente quando pensamos em para onde estamos indo e em qual seria um possível “fim” para toda essa transformação tecnológica e cibernética. O mais legal foi que você escreveu todo o texto utilizando a 1a pessoa, se incluindo nessas mutações e nas nossas novas tendências egocêntricas e ao mesmo tempo solitárias. Pois, até mesmo quando fui apresentar o meu seminário abordei esses tópicos criticando a postura das pessoas que se expõe ou buscam incessantemente pela atenção de desconhecidos, esquecendo-me que as vezes também ajo dessa maneira, também estou incluida na sociedade ciborgue e acho extremamente difícil me desvincular das mídias sociais e desses novos hábitos. Parabéns pela reflexão madura sobre o tema e espero que tenha te ajudado na busca pelo auto-conhecimento e evolução. Por mais que eu também tenha mais dúvidas que respostas nesse momento, você acaba de me ajudar um pouquinho nessa mesma busca por elucidação. De qualquer forma, é bom saber que não estamos sozinhos! Por último, acredito que só depende do próprio homem agir de forma a fazer o uso correto, ou ao menos equilibrado, das novas tecnologias. Por isso achei tão proveitosa a reflexão, nos dá um rumo e incentivo para pensar mais e melhor antes de agir!

  • Bruno Campoi

    Parabéns pelo texto, uma reflexão profunda e espontânea. Às vezes me pego pensando se, no fim das contas, nós só vamos a algum lugar porque temos que ir. Não existe nenhuma espécie que tenha chegado no seu estágio final de evolução, se é que ele existe, onde todas as variáveis de preservação da vida e conquista do ambiente estivessem enfim em seu melhor valor. Depois de tanto tempo e em vista de tanto tempo ainda por vir, a única coisa que resta somos nós e os nossos desejos de chegar nesse lugar. Por que? Boa pergunta….
    A mão robótica substitui a de carne e osso, e também nos joga no eterno jogo do ter e perder. Ela substitui também uma parte muito mais profunda de nós, mas nunca se encaixa perfeitamente. A mão constrói o homem ou ele constrói a mão? A mão constrói a mão, o homem observa e sente, o mais profundamente o quanto for possível!
    No substituto humano se integra aquilo que é mais humano: o erro. Só o erro é capaz de desfazer a linha da “arrogância e apatia” paralela a da busca por sempre mais e mais. Só o erro é capaz de dizer que muitos dos nossos progressos e acertos são, no fim das contas, erros.

  • Arthur Riale Vidigal Não Ciborgue Azevedo

    Eu gostei muito do seu texto, e me identifiquei também, por que assim como você, sou mais fã das perguntas que das respostas. Apesar disso, o que me chamou mais a atenção foi uma afirmativa sua. “Se o ser humano é um ser social, hoje nós somos ciborgues sociais”. Nessa frase curta, você disse muito , e fez brotar em mim perguntas também. Se a linha entre o humano e a tecnologia é cada vez mais fina, as redes sociais são uma extensão das nossas relações? Um ponto de encontro ciborg? Um lugar virtual, onde os HumanoMáquinas interagem entre si? Porque nesses espaços existem tipos de interações que só são possíveis ali, como enviar um gif, um vídeos, dar um like, mandar um link, etc. Mas, ao mesmo tempo, se esse espaço foi (e é) contruido por seres humanos, que vivem dramas humanos e tem problemas humanos e necessidades humanas, o que mudou nas carências da nossa espécie? Precisamos chamar mais atenção hoje que há 100 anos atrás? Não sei. E essas interações cibernéticas, preenchem a gente? Se não, porque elas são tão atrativas para nós? Suprir as necessidades da nossa parte ciborgue, da nossa existência ciborgue, através de relações cibernéticas parece fazer sentido. E se a cada momento estamos cada vez mais ciborgue, vai chegar o momento em que só essas bastarão? Fica aí o questionamento. Valeu Miguel!!

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